Parece óbvio que uma campanha para eleger prefeito/prefeita da maior metrópole brasileira geraria, por si só, uma competição das mais instigantes e acirradas no monumental (e por vezes anedótico) panorama eleitoral do país.

Escolher chefia da superlativa cidade de São Paulo, a capital brasileira mais populosa, mais “orientada para os negócios”; aquela que concentra as maiores riquezas e detém o maior orçamento entre todas as demais cidades — inclusive extremamente superior ao de muitos estados da Federação — certamente atrairia atenção, dedicação e esforço ímpares dos inúmeros grupos que povoam a folclórica fauna e flora política brasileira, provenientes de todos os matizes e espectros ideológicos e político-partidários hoje em voga no Brasil.
Socos e cadeiradas
Ocorre que, com honrosos e escassíssimos momentos, o que se assistiu nas campanhas de muitos dos candidatos foi um espetáculo dos mais grotescos da história política nacional, repleto de episódios de baixíssimo nível. Não somente representativos de violência política — xingamentos e ataques verbais pessoais, recheados de fake news e narrativas distópicas —, mas também de explícita violência física, representada por “cadeiradas” entre candidatos em debates televisionados e transmitidos abertamente em todas as mídias, e até socos e murros entre integrantes de diferentes equipes.
Independentemente do resultado do primeiro turno, neste domingo (6/10), o legado para a política brasileira destes episódios dantescos e apocalípticos certamente será dos piores e mais deploráveis. Para os paulistanos, a depender do resultado do pleito municipal, o legado poderá representar a “perda de uma chance”, com efeitos e consequências nefastas e fatais para o futuro da cidade.
Com impactos ainda difíceis de se prever, tais fatos nos levam a obrigatoriamente refletir: em que momento perdemos, enquanto sociedade organizada, os princípios de coexistência pacífica e civilizada, os valores éticos e democráticos que deveriam sempre permear todo e qualquer processo eleitoral competitivo no país?
O que se assistiu até aqui — e provavelmente continuar-se-á a testemunhar no segundo turno, em algum grau, a depender dos concorrentes — foi o desrespeito, proveniente de alguns candidatos, das regras eleitorais mais elementares e basilares do processo democrático, não somente consagradas na lei e no Direito, mas na cultura e prática cívico-eleitoral pátria, já bastante deteriorada.
Busca por cliques e ‘lacração’
Para além desta triste constatação, e longe de se pretender generalizar, o respeito à lei e aos processos eleitorais foi consciente e explicitamente substituído — a cargo de certos candidatos — por narrativas mentirosas e ataques físicos monstruosos perpetrados entre si, os quais nada mais intencionavam senão gerar “cortes instagramáveis” para promover “lacração” e imediato “engajamento digital” nas “redes antissociais”.
E que não somente desferiram ofensas pessoais e violência física às honras das vítimas, mas sim à integridade do processo democrático-eleitoral brasileiro.
Sem prejuízo de se prosseguir na apresentação de outras nuances desse espetáculo vil e degradante, surpreendentemente ovacionado por muitos e combatido por poucos (sobretudo em um viés institucional e de opinião pública), é preciso retornar à pergunta central desta análise: como foi que chegamos aqui, com a prevalência de um ambiente eleitoral truculento e abertamente violento, em detrimento de uma cultura democrática de conformidade às normas do processo eleitoral competitivo, a partir de ditames éticos e de civilidade, parâmetros aos quais todos nós deveríamos aderir — sobretudo quem se pretende candidato — e sermos seus maiores guardiões?
Em primeiro lugar, a hostilidade eleitoral determinante de muitos dos grupos políticos atuantes hoje no país passou a ser nos últimos pleitos, em si mesma considerada, um ativo programático de partidos e candidatos que possivelmente enxergam nessa estratégia a mais efetiva — porque superficial e socialmente descompromissada — de angariar simpatia, votos e resultados suficientes para ascender na vida político-partidária do cenário brasileiro.
O antídoto aqui, por óbvio, deveria ser o banimento destas candidaturas por meio de uma imediata e proporcional atuação e repressão por parte da Justiça Eleitoral, a qual ao menos até aqui, infelizmente, parece ter assumido uma postura perigosamente leniente com candidaturas que comprovadamente avocam para si uma direção belicosa e intencionalmente agressiva para com o sistema eleitoral e a própria democracia.
Esta postura de “dúvida não razoável” por vezes perpetrada pela Justiça Eleitoral, provavelmente aposta que o melhor caminho seja o banimento dessas candidaturas, mas diretamente nas urnas, o que não necessariamente tem ocorrido nos últimos anos…

Depois, o círculo vicioso da polarização da vida política no país acaba servindo de desculpa (injustificável) para se tolerar o intolerável, e medidas e providências enérgicas de suspensão de candidaturas grotescas acabam sendo postergadas e/ou deixadas de lado, porque se considera — erroneamente! — que afastar ou reprimir estas candidaturas significaria, em última instância, jogar gasolina em fogueira já em altíssima combustão. Isso acaba por instaurar um cenário de “vale-tudo” na política, o qual por sua vez estimula e propaga ainda mais candidaturas violentas e agressivas, como estas presentes nas eleições paulistanas de 2024, tornando-as inclusive o “novo normal” na política.
Em terceiro lugar, candidaturas transgressivas nascem com o intuito real de “esticar mais a corda”, porque partem de candidaturas anteriores que se consagraram nas urnas, ou mesmo que não tenham se consagrado, não tiveram as suas transgressões punidas em grau exemplar pela Justiça Eleitoral ou pelos demais órgãos do Sistema de Justiça.
Certeza da impunidade
E aqui reside um ponto de máxima atenção: a ausência de indiciamento e processamento judicial, a inexistência de condenação, a certeza da impunidade ou a aposta na anistia reforçam, no conjunto da obra, a perigosa impressão de que atuar contra e/ou fora do sistema pode sim valer a pena, o que no limite contribui acentuadamente para a própria erosão do sistema como um todo, estimulando o “ideário do político antissistema” que costumeiramente sai ileso de suas transgressões intencionais, por mais absurdas e abjetas que tenham sido tais práticas, comprovadamente cometidas no transcurso no processo eleitoral.
Precisamos sair desta “caverna do dragão” em que a política brasileira foi aprisionada pelos tristes eventos e episódios dos últimos tempos, para que se afaste o brocardo ora dominante do “quanto pior, melhor”.
O que vem sucedendo nas eleições para a Prefeitura de São Paulo certamente não aconteceria se medidas e providências mais enérgicas e menos incautas tivessem sido adequada e pontualmente tomadas em ocasiões anteriores, e infelizmente a tendência que se vislumbra — com o afrouxamento das amarras eleitorais — é que candidaturas brucutus e abertamente contrassistema continuem sim a se propagar, até se tornarem lugar comum ou mesmo referência na vida política brasileira, sobretudo se forem consagradas nas urnas em 2024.
De outro lado, precisamos urgentemente retomar a via democrática das campanhas de conscientização eleitoral da população, devidamente atualizadas e municiadas para bem enfrentar esses novos e perigosos tempos de polarização política excessiva, predominância da livre propagação de fake news e ausência de candidaturas e partidos programáticos comprometidos com a realidade democrática do processo eleitoral.
Sem a adoção de novos caminhos, melancólicas campanhas eleitorais como a vivenciada pela cidade de São Paulo neste deprimente 1º turno de 2024 — com baixíssimo nível de debate público de conteúdos propositivos para a melhoria da vida da população paulistana — passarão a ser a tônica no cenário nacional, trazendo retrocessos civilizatórios inimagináveis.
Esses certamente serão nocivos à sociedade brasileira, porque tendentes a instituir novos e grotescos padrões eleitorais, não somente comprometendo o processo eleitoral, mas ferindo de morte a democracia e o Estado de Direito brasileiros.
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