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Opinião

Neurociência e subjetividade judicial: desafios e caminhos para Justiça brasileira

A ideia de que juízes são completamente racionais e imparciais é um dos pilares do sistema judiciário. No entanto, à luz da neurociência e de diversos estudos empíricos, essa noção se revela mais idealizada do que real. No Brasil, a insegurança jurídica é agravada pela subjetividade nas decisões judiciais e pela fragilidade das leis, que muitas vezes são interpretadas de formas conflitantes e enviesadas.

Rawpixel/Freepik

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A neurociência demonstra que o cérebro humano processa decisões por meio de dois sistemas: o Sistema 1, rápido e intuitivo, e o Sistema 2, mais lento e deliberado. Em ambientes de alta pressão, como nos tribunais, os juízes tendem a depender mais do Sistema 1, abrindo espaço para vieses inconscientes que podem distorcer o julgamento.

Daniel Kahneman, em seu livro “Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar”, destaca como esses vieses funcionam como atalhos mentais que economizam energia, mas podem comprometer a imparcialidade.

Um dos vieses mais comuns é o viés de confirmação, onde indivíduos buscam informações que reforcem suas crenças prévias. Estudos conduzidos pelo Ceped/USP (2019) analisaram decisões de tribunais superiores e identificaram que, em mais de 60% dos casos, os juízes reforçavam opiniões baseadas em percepções anteriores, em vez de reconsiderar os elementos do caso de forma neutra.

Outro viés relevante é o viés de resultado, que avalia a qualidade de uma decisão pelo seu desfecho em vez do processo decisório. Isso pode comprometer a justiça processual, pois decisões aparentemente positivas podem ter sido influenciadas por raciocínios enviesados.

Poder econômico influencia em decisões

No Brasil, o viés econômico é particularmente preocupante. Pesquisas da Fundação Getúlio Vargas (2018) revelam que réus com maior poder econômico têm 46% mais chances de obter decisões favoráveis nos tribunais. Isso evidencia que o poder financeiro influencia os resultados judiciais, comprometendo o princípio da equidade e alimentando a desconfiança no sistema. Segundo uma pesquisa do Ibope Inteligência (2019), 81% dos brasileiros expressam falta de confiança no sistema de justiça, e 72% acreditam que o poder econômico afeta diretamente os julgamentos.

A pressão midiática também desempenha um papel significativo na subjetividade judicial. Estudos de Rachlinski e Wistrich (2013) mostram que juízes submetidos a intensa cobertura da mídia tendem a tomar decisões mais alinhadas com a opinião pública, comprometendo sua neutralidade. Casos de alta visibilidade, amplamente cobertos pela mídia, ilustram como a exposição pode gerar a percepção de parcialidade, algo amplamente discutido nos editoriais dos principais veículos de comunicação.

Spacca

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Diante desses desafios, é essencial que os juízes reconheçam seus vieses e adotem práticas reflexivas para mitigá-los. Aceitar que a subjetividade é inevitável é o primeiro passo. Protocolos mais rigorosos para a interpretação das leis e o incentivo ao diálogo crítico entre magistrados podem promover maior consistência nas decisões. Além disso, o investimento contínuo na formação de juízes em neurociência e psicologia pode ajudar na identificação e minimização de influências inconscientes.

Revisão de decisões judiciais

Reformas estruturais no sistema também são necessárias. A criação de leis mais claras e objetivas pode reduzir ambiguidades e limitar a margem para interpretações divergentes. Além disso, mecanismos de revisão sistemática das decisões judiciais podem ajudar a identificar e corrigir padrões de inconsistência. Uma abordagem transdisciplinar entre neurociência, filosofia e direito pode enriquecer a compreensão sobre o processo de tomada de decisão judicial e reforçar o compromisso com a imparcialidade.

No plano comportamental, a discrição e o comedimento dos juízes também são essenciais para preservar a confiança pública. Embora tenham direito a uma vida plena, é importante que evitem excessos de exposição que possam comprometer sua imagem de neutralidade. O equilíbrio entre vida pessoal e responsabilidade profissional é delicado, mas crucial para manter a credibilidade do sistema judicial.

A insegurança jurídica no Brasil reflete uma sociedade em que as leis, ao invés de serem pilares sólidos de justiça, tornam-se maleáveis às interpretações individuais e às pressões econômicas. No entanto, essa realidade não precisa ser permanente. Com autocrítica, educação e reformas, é possível construir um sistema mais justo, previsível e digno da confiança dos cidadãos. A neurociência pode ser uma aliada importante nesse processo — basta haver vontade de mudar.

José Reynaldo Walther de Almeida

é neurocirurgião e mestre em Ciências pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp).

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