‘Assim não dá mais’
A política vem mostrando, não só no Brasil, um novo personagem: o outsider. É a pessoa que entra na política xingando a política e dizendo “que assim não dá mais”. Algo como os políticos que emergiram do lavajatismo, como Daniel Silveira, que ficou famoso por um “grande feito”: quebrou a placa com o nome de rua da vereadora assassinada Marielle Franco.
Pessoas que não se elegeriam como inspetores de quarteirão, mas que surfa(ra)m na onda dos “de fora da política” — os outsiders. Basta perguntar “quem é Gilson da Federal”, por exemplo.
Esse fenômeno se espalhou. Trata-se do paradoxo do mentiroso: todos os cretenses são mentirosos; mas quem disse a frase foi um cretense. Na política o outsider diz: “a política é um antro, é um estrume; mas eu sou político e não sou”. Ah, bom. O personagem Pablo Marçal é uma boa ou má amostra dessa fenomenologia. É autoexplicativo.
De como isso ‘encostou’ no direito
O que isso tem a ver com o direito contemporâneo? Muito. Basta ver as redes sociais e o tipo de discurso jurídico que hoje viceja (ups: palavra difícil para o ambiente) nesse meio ambiente.
“Não leia nada; atire fora os livros; assista a live de fulano; em 5 minutos aprenda a fazer um recurso; saiba como usar o ChatGPT; use um avatar no escritório; venha para a mentoria de sicrano; veja a última decisão do tribunal…”
Há uma bela charge que parece bem explicar o (esse tipo de) comportamento estúpido, digamos assim, no seu viés autodestrutivo:

Tudo porque o modelo que “está aí” é algo como “a velha política” (sic).
Eis o novo. Lá vem o novo, como no poema de Brecht. Só que, sob as roupas do novo, vê-se os andrajos do velho. Bem velho.
Um dos produtos “revolucionários” dessa era “neopentecostal da prosperidade jurídica” é a simplificação da linguagem, que pode ser feita, segundo dizem, por meio (eles dizem “através”, como Alice Através do Espelho) do uso da Inteligência Artificial e correlatos (legal design, visual law, flechinhas, avatares de ChatGPT etc.). Algo semelhante a
“por que ler Alexis de Tocqueville se posso sacar política, economia, empreendedorismo e quejandices com as dicas do Thiago Luz e Gatilhos Mentais, Alberto Delsol e o desenvolvimento da mente, Não Sei Quem e Seja um Shark Tank…”
Isso é imitado no direito. Basta uma passadinha nas redes.

São os novos oráculos (não esqueçamos que o primeiro oráculo era um picareta, que enganou a esposa de um soldado dizendo que ele iria para a guerra, não pereceria e voltaria — Ibis, ridibis, non peribis, ibis; na medida em que o gajo morreu, o coach da época explicou: calma, eu disse ibis, ridibis non, peribis ibi — irás, retornarás não, perecerás lá). Pronto. Pablomarçalizou!
Vivemos a era daquilo que que o grande Bernd Rüthers (o coach perguntaria: quem?) vai chamar de “fobia metodológica”, caracterizando o que Meyer-Hayoz chama de “carência fundamental de fundamentos” (grundsätzliche Grundsatzlosigkeit). Quem sofre da fobia metodológica diz qualquer coisa sobre qualquer coisa. E quanto mais simples e direta, melhor. Por isso o sucesso da “linguagem coach-neopentecostal-jus-empreendorista”. Nesse ritmo, de tanto simplificar a linguagem e acelerar os vídeos e áudios, a linguagem desaparecerá, como no caso do cientista de Lagado, de Viagens de Gulliver.
E não esqueçamos também que tudo isso, essa era da simplificação, da platitutização, combina com a era do “fofismo”. Do afetivismo. O direito fofinho, que denunciei na coluna passada (ler aqui: O Brechó e a pablomarçalização do mundo). Há uma conspiração do fofo. Os fofistas estão chegando. Estão chegando os fofistas.
De todo modo, já perdemos. Marçal — a grande alegoria da década perdida para o neocoachismo — já venceu. Quem quiser entender esse fenômeno e essa fase da história tem de ler o best seller que um jovem escreveu no século 16, Discurso da Servidão Voluntária, o menino Etienne. Ou outro best seller escrito antes da Servidão Voluntária: a Nau dos Insensatos, traduzido para 35 línguas.
E não esqueçamos da denúncia de Hegel (não é o Engels, como pensou certo promotor há algum tempo) na Fenomenologia dos Espírito, acerca das “certezas sensíveis”. O senso comum é terrível. Ele (se) esconde. Por isso Darcy Ribeiro disse: Deus é tão treteiro, faz as coisas tão recônditas e sofisticadas, que ainda precisamos dessa classe de gente, os cientistas, para desvelar as obviedades do óbvio.
Ah, esse ladino óbvio!
Alto lá tremendão... Tiradentes não teria sido preso, condenado, enforcado e esquertejado se fosse um insider colonial. E Getúlio Vargas não teria destroçado a República Velha se não fosse um outsider republicano. O mesmo pode ser dito de Lula, preso durante a ditadura militar porque não era insider sindical como os pelegos que toleravam qualquer coisa feita pelo Delfin Neto. O problema não é realmente a existência de outsiders. Eles são essenciais, sempre que um sistema político/econômico/institucional apodrece o sofrimento da população poderia ser aliviado sem renovação. E esta somente ocorre quando alguém mete o pé na porta, invade a arena pública e destroe o sistema podre que passado estava resistindo às necessidades novas impostas por mudanças históricas irresistíveis. Insiders como Silvério dos Reis (dedo duro de Tiradentes), Washington Luís (político paulista deposto por Getúlio) e Murilo Macedo (ministro do trabalho quando Lula foi preso) não fazem história. O que eles fazem é tentar retardar mudanças históricas. Dito isso, precisamos agora analisar o caso Marçal. Ele pode eventualmente tentar projetar a imagem de outsider, mas na verdade ele é um insider: alguém comprometido com o mundo criado, estruturado e totalmente dependente dos algoritmos de redes sociais. Um verdadeiro outsider nesse momento seria um hacker que demolisse os lucros como de costume das plataformas de internet transformando em poeira toda essa realidade alternativa criada por algoritmos que tenta invadir a arena pública e dominar a política.
Os fofistas estão chegando.
parece evidente que o fabio não leu e, se leu, não entendeu o que o professor lenio disse. Deve ser dificil para o professor. O fabio não leu a parte do paradoxo?
Daniel Silveira (preso político), Pablo Marçal (ex-coach autoproclamado?, empresário, político e influenciador digital), Alexandre de Moraes (Ministro do Supremo Tribunal Federal) etc. Assim não dá mais ou como isso encostou no direito. Qual o futuro do Brasil?
Excelente, Fábio (ou será que serei “degolado” por concordar ? Que mundo “tolerante”!
A praga do dogmatismo jurídico deve ser aplicada ao modo de fazer campanha política? O grande articulista investe seu tempo para dizer que o sistema patrimonialista (vide Donos do Poder de Raymundo Faoro) que vige até hj não pode ser constestado. Onde está a dialogica do Direito?
Claro, é melhor mesmo ter as velhas raposas no galinheiro, pois, já são conhecidas dos cães de guarda e possuem uma intima ligação com os urubus, mas só onze deles, logo, podem se aproveitar das galinhas, dos pintos, até do gado, porque os Galos estão todos dominados.
Ia me esquecendo da "Doninha" o maior ladrão dos ovos da história cuja articulação com a bicharada é louvável, há que se admitir, pois, foi trazida de volta ao galinheiro pelos mesmos vermes da terra de sempre.
Já deu! Chega! Que venham os animais exóticos ou os nada haver mesmo, os tais outsiders das terras e campos de longe. Agora, cuidado Prof. não tem espaço para poodles de estimação de madames nesse novo cenário.
Melhor mesmo é voltar à cena do crime, prof.?
Manter um status que que se alia ao outsider do direito Alexandre Moraes.
Repito o que já disse aqui, quando fala de direito é, de fato, um professor, mas quando fala de política trazendo o direito como suporte, é só mais um aliado do sistema dominado pelas velhas raposas.
Excelente texto!
Você precisa estar logado para enviar um comentário.
Fazer login