Em novembro de 2016, durante uma missão acadêmica na Universidade de Stanford, na Califórnia, fui recebido pelo professor James (Jim) Cavallaro, que também fazia parte da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

O campus era impressionante, mas o que mais surpreendeu foi o modelo de sustentabilidade financeira da universidade. Cavallaro revelou que Stanford havia captado US$ 1 bilhão em projetos de pesquisa e extensão naquele ano, algo inimaginável no contexto brasileiro. Ao final, ele nos lançou uma pergunta: Quando o Brasil irá começar?
Desde então, essa pergunta tem me inquietado. No Brasil, o ensino não é uma prioridade nacional. Professores são mal remunerados, e muitos conteúdos estão sendo digitalizados para reduzir custos. A maioria das universidades privadas contrata professores sem perspectiva de carreira, enquanto as públicas oferecem “carreira”, ou seja, estabilidade, mas sem remuneração adequada devido à falta de orçamento. Hoje, não raramente, o educador precisa de outro emprego para complementar sua renda.
Esse cenário desestimula as novas gerações a seguir a carreira docente, e o resultado é um número cada vez menor de profissionais qualificados e vocacionados para o ensino superior. Além disso, os funcionários administrativos, essenciais para o funcionamento das instituições, são frequentemente invisíveis e os últimos a serem beneficiados pelos resultados econômicos.
As universidades privadas e comunitárias enfrentam dificuldades para captar alunos em um mercado competitivo, precisando se posicionar por preço ou qualidade. O vestibular, que já foi um processo seletivo sério, tornou-se uma formalidade sem sentido evidenciando que o modelo atual de universidade no Brasil está claramente falido e precisa de mudanças urgentes.
Captação de projetos de pesquisa
Para transformar esse cenário, é fundamental entender que alunos não são números, e professores estão exaustos após tantas tentativas frustradas de mudança provocando a perda de talentos científicos para outros países devido à falta de perspectivas no Brasil.
É necessário criar um fluxo eficiente de captação de projetos de pesquisa e extensão, indo além dos editais públicos, e envolvendo professores, alunos e funcionários administrativos.
Esse modelo, presente nas melhores universidades do mundo, como Stanford, cria um círculo virtuoso: professores e funcionários têm melhor qualidade de vida, alunos se tornam bolsistas de projetos, e o engajamento na vida acadêmica faz sentido para todos. A pesquisa deve partir da universidade para as empresas, em vez de a universidade se isolar, ou esperar passivamente por editais ou parcerias.

Cavallaro explicou que, em Stanford, é comum ir até as empresas para identificar suas necessidades e propor soluções. Esse modelo de proatividade gera projetos financiados, elimina custos da universidade e garante sua sustentabilidade, além de impactar positivamente na remuneração de professores, funcionários e na oferta de bolsas estudantis.
Um modelo de universidade baseado na captação de projetos pode motivar todos os envolvidos, melhorar a qualidade de vida de quem trabalha na educação e tornar o ensino mais relevante para os alunos. Isso traria um impacto acadêmico, econômico e social significativo, além de aumentar a visibilidade das universidades brasileiras no cenário nacional e internacional.
A questão que permanece é: quando vamos começar?
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