A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
(Pessoa, Fernando. A criança que fui chora na estrada)

A infância, como categoria social, não é uma realidade natural, mas uma construção histórica e cultural (Ariès, 1981). O fenômeno contemporâneo da adultização infantil — compreendido como a atribuição precoce de papéis, responsabilidades e comportamentos típicos da vida adulta — emerge como questão central nos estudos da infância, sobretudo, no contexto contemporâneo das redes digitais.
Não é por demais relembrar que a infância somente foi consolidada a partir da modernidade, quando crianças passaram a ser reconhecidas como sujeitos distintos, dotados de necessidades específicas (Ariès, 1981). É, portanto, uma construção histórica. No entanto, na atual quadra da evolução da humanidade, percebe-se o caminho inverso: o desaparecimento desta etapa do desenvolvimento, fenômeno provocado pela massificação da mídia, que difunde códigos adultos entre crianças e embaralha as fronteiras geracionais (Postman,1999).
Vale dizer: a exposição pública de crianças em plataformas como YouTube, TikTok e Instagram promove a circulação de imagens e discursos adultizados, convertendo-as em objetos de consumo cultural. Esse fenômeno recebe o nome de the hurried child, apontando para os prejuízos cognitivos e emocionais decorrentes da supressão do tempo de brincar (Elkind, 2001).
Aliás, do ponto de vista psicanalítico, a infância é período fundamental para a constituição do self (Winnicott, 1975). A ausência de um ambiente suficientemente bom pode levar à formação de um falso self, caracterizado por adaptações precoces às expectativas externas. A adultização, ao impor à criança gestos e discursos que não lhe são próprios, promove a hiperadaptação, fragilizando a espontaneidade.
Sem contar na perversidade da subversão da ética do mediador e cuidador, na medida em que a criança passa a ser instrumento de espetacularização e, por corolário, monetização. Isso porque o aprendizado e a formação da personalidade ocorrem ao longo da interação social, em uma zona de desenvolvimento proximal que exige a presença ativa e cuidadosa do adulto (Vygotsky, 1998).
A adultização, entretanto, subverte essa lógica: em vez de orientar, o adulto instrumentaliza a criança como objeto de espetáculo e mercantilização. É, de certo modo, colocada em cena não como sujeito de direitos, mas como produto de consumo cultural, induzida a corresponder a expectativas externas que comprometem sua subjetividade.

É nesse sentido os estudos da pedagoga e educadora Sônia Kramer. A autora chama atenção para a necessidade de preservar a singularidade da infância por meio da ludicidade. A imposição de responsabilidades e performances adultas compromete a capacidade da criança de construir sentidos a partir do brincar, que é a linguagem própria da infância (Kramer, 1999). Deixam de ser “criaturas de um planeta imaginário” e assumem o papel de seres performáticos do mundo digital.
Ética do cuidado
Por fim, do ponto de vista ético, emerge a necessidade de políticas públicas e de regulação da exposição de crianças em plataformas digitais. A Convenção sobre os Direitos da Criança (ONU, 1989), ratificada pelo Brasil, estabelece que toda criança deve ser protegida contra a exploração e ter assegurado o seu desenvolvimento pleno.
A questão, contudo, não se limita ao campo jurídico, mas exige uma ética do cuidado, que reconheça a criança como sujeito de direitos e valorize a infância como etapa fundamental do desenvolvimento humano.
Por isso, a necessidade do resgate da ludicidade, da preservação do tempo da infância e da adoção de mecanismos de regulamentação que impeçam a mercantilização da subjetividade infantil. A defesa da infância, nesse contexto, é também a defesa da possibilidade de uma formação psíquica íntegra, autônoma e criativa. Afinal de contas, como diz o poeta: “a vida é breve, mas cabe nela um sonho de meninice”.
Referências bibliográficas
ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: LTC, 1981.
BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes, 1999.
ELKIND, David. The hurried child: growing up too fast too soon. Cambridge: Perseus, 2001.
ERIKSON, Erik. Identity: youth and crisis. New York: Norton, 1968.
KEHL, Maria Rita. Deslocamentos do feminino. São Paulo: Boitempo, 2010.
KRAMER, Sonia. A infância e sua singularidade. São Paulo: Ática, 1999.
ONU. Convenção sobre os Direitos da Criança. Nova Iorque, 1989.
POSTMAN, Neil. O desaparecimento da infância. Rio de Janeiro: Graphia, 1999.
VYGOTSKY, Lev. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
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