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O Direito é Público

A interação humana como a infraestrutura invisível da democracia

Vivemos tempos em que decisões antes íntimas, como com quem casar ou onde trabalhar, são preditas por algoritmos. Plataformas como Netflix e Amazon já não apenas indicam produtos, mas moldam nossos desejos. Como alerta Yuval Noah Harari (2018), esses sistemas aprendem a nos conhecer melhor do que nós mesmos. A promessa de precisão total, porém, esbarra em limites estruturais: os algoritmos erram. E quando erram, erram em escala. Ainda assim, continuam sendo preferidos por sua eficiência, tal como a democracia persiste, mesmo cheia de falhas, por não haver modelo melhor.

A comparação não é gratuita. Assim como os algoritmos, a democracia é um sistema imperfeito que sobrevive por mérito da interação humana. E é justamente essa interação e o diálogo, com todos os seus ruídos, subjetividades e contradições, que podem se tornar os ativos mais valiosos do século 21. Diante de um mundo cada vez mais automatizado, a convivência humana autêntica não é apenas necessária: é estratégica para a sobrevivência da liberdade.

O paradoxo dos algoritmos: precisão sem sabedoria

No trecho do livro 21 Lições para o Século 21, Harari (2018) observa que, embora os algoritmos possam superar os humanos em diversas decisões, eles jamais serão perfeitos. Erram por falta de dados, por falhas de programação ou por confusão de metas. Erram também porque a vida humana é, por natureza, caótica. Ainda assim, diz o autor, basta que a Amazon erre menos que as pessoas para que seja considerada mais eficiente. E aqui reside o perigo.

A lógica da precisão técnica pode obscurecer os valores humanos. Sistemas automatizados não compreendem nuances culturais, contextos emocionais ou dilemas éticos. E o mais grave: não assumem responsabilidade por seus erros. Por isso, embora algoritmos sejam úteis, não podem substituir decisões essencialmente humanas, especialmente na política, no direito e na ética.

Harari conclui que, apesar de suas falhas, os algoritmos de big data são cada vez mais utilizados por sua eficiência. No entanto, a democracia não se sustenta apenas por falta de alternativas melhores, ela resiste porque incorpora valores que nenhum sistema automatizado pode reproduzir: o dissenso, a escuta, o erro reparável, o perdão, o aprendizado coletivo.

A célebre frase de Winston Churchill, segundo a qual a democracia é o pior sistema, exceto por todos os outros, continua atual e o seu valor está naquilo que ela promove: mais do que um modelo de governo, a democracia é um espaço institucionalizado de convivência entre visões conflitantes, onde a divergência é processada por meio do diálogo e a pluralidade é reconhecida como fonte de legitimidade.

É essa arquitetura de imperfeições negociadas que faz da democracia não apenas um regime político, mas uma tecnologia social de liberdade. Sua força está justamente em ser feita por humanos

Democracia e dados: a interação como resistência

No campo político, os algoritmos podem prever o comportamento eleitoral, manipular discursos e influenciar votos. Mas não constroem laços de confiança, solidariedade ou dissenso legítimo. É aí que entra o argumento de Levitsky e Way (2024): a resiliência das democracias nas últimas décadas decorre, sobretudo, da força difusa da interação social.

Marcela Bocayuva, advogada

Mesmo em contextos frágeis, como em países com baixo desenvolvimento institucional, as democracias resistem. Não porque sejam mais eficientes, mas porque permitem a existência de redes humanas que se opõem à concentração de poder. Protestos, movimentos sociais, articulações comunitárias e todas as formas de interação impedem que autocratas dominem por completo o espaço público.

Nesse sentido, a interação humana é a tecnologia de resistência. Não pode ser programada nem prevista. E por isso é o que torna a democracia viva. Sem ela, qualquer sistema político, por mais tecnicamente perfeito que seja, se torna um artefato sem alma. A democracia precisa de gente, de corpos, vozes, encontros e desencontros, para continuar sendo o que é.

O risco do desmonte da convivência: entre o silêncio algorítmico e o ruído democrático

O maior risco do nosso tempo talvez não seja o autoritarismo explícito, mas o silêncio confortável dos sistemas automatizados. Quando tudo é otimizado, predito e ajustado por algoritmos, sobra pouco espaço para o dissenso, e o dissenso é a base da política. A democracia vive do debate, da dúvida, do incômodo. O algoritmo, ao contrário, vive da eliminação da incerteza.

Nesse novo cenário, há o risco de a própria convivência humana se tornar um ruído a ser eliminado. Escolas, tribunais, parlamentos e até mesmo famílias passam a ser vistas como ineficientes frente à lógica dos dados. Isso cria uma falsa dicotomia: ou aceitamos a imperfeição das relações humanas, ou seremos substituídos por sistemas que erram em silêncio.

Além disso, como destacam Levitsky e Ziblatt (2023), a erosão da democracia ocorre também por exploração estratégica das brechas institucionais. A manipulação das regras, ainda que formalmente permitida, enfraquece o espírito democrático ao desviar a função original das normas em nome de ganhos de poder.

O mesmo raciocínio se aplica ao uso dos algoritmos em ambientes democráticos: não é necessário violar explicitamente a lei para enfraquecer os fundamentos da convivência cívica. Assim como atores políticos podem manipular brechas institucionais para ampliar seu poder em detrimento do equilíbrio democrático, os sistemas digitais podem ser instrumentalizados para limitar o debate, reforçar bolhas ideológicas, invisibilizar determinadas vozes ou amplificar a polarização

Esse tipo de corrosão silenciosa não elimina a democracia de imediato, mas a esvazia por dentro. É por isso que a interação humana precisa ser valorizada como ativo político e econômico. Não apenas como afeto ou empatia, mas como infraestrutura democrática. Defender a convivência entre pessoas é, hoje, um gesto político. É escolher o humano, mesmo quando o custo é errar mais.

Conclusão: a próxima revolução será humana

A democracia resiste não por ser perfeita, mas porque incorpora o erro como parte da condição humana. Ao contrário dos algoritmos, que buscam previsibilidade, a política democrática é feita de divergências, improvisos e reconciliações.

A interação humana com seus conflitos, afetos e imprevisibilidades ainda é e será a infraestrutura invisível das democracias. Não por ser escassa, mas por ser essencial. Em um mundo regido por dados, proteger o espaço da convivência humana é proteger o que há de mais revolucionário: a liberdade de existir através do diálogo e da escuta.

A próxima revolução não será de silício. Será de carne, voz e presença.

 


Referências

HARARI, Yuval Noah. 21 lições para o século 21. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

LEVITSKY, Steven; WAY, Lucan. The resilience of democracy’s third wave. PS: Political Science & Politics, v. 57, n. 2, p. 198–201, abr. 2024. DOI: https://doi.org/10.1017/S1049096523000914.

CHURCHILL, Winston. Apud HARARI, Yuval Noah. 21 lições para o século 21. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como salvar a democracia. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.

Marcela Bocayuva

é advogada, mestre em Direito Público pelo Centro Universitário de Brasília (UniCeub), especialista pela Fundação Escola Nacional do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (FESMPDFT), certificada em Liderança e Negociação pela Universidade de Harvard, especialista em Direito e Economia pela Universidade de Chicago (Uchicago), estudante visitante na New York University (NYU) e coordenadora da Escola Nacional da Magistratura (ENM).

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