Em “O Colibri”, o escritor italiano Sandro Veronesi faz do olhar uma experiência existencial reveladora: “Olhar é tocar à distância”, “Eu sou o que vejo”, “Eu sou o que o outros veem de mim”. Essas três passagens estão contidas em observações sobre o olhar, relatadas ficcionalmente por um oftalmologista, Marco Carrera, personagem central de “O Colibri”. Veronesi é um impressionante escritor contemporâneo; nasceu em 1959. O livro foi publicado no Brasil pela Autêntica Contemporânea. A tradução é de Karina Jannini.

Colibri é uma ave pequeníssima. Já disse um autor brasileiro, Sérgio Porto (Stanislau Ponte Preta) que o colibri é o helicóptero de Deus. Na ficção de Veronesi o Colibri é o médico, assim chamado pelos pais e amigos porque, até a adolescência, tinha estatura inferior à média dos demais meninos. Mais tarde, seu grande amor o chamou de Colibri; uma evocação comparativa dessa linda figura que dá muitas e inúmeras batidas em suas asas; colibris voam para trás, para os lados, para a frente, sustentam-se no ar.
O grande amor do médico foi também o grande amor de seu irmão. Há um roteiro clássico de conflito entre irmãos. Não se alcança o ódio que opôs os dois irmãos do romance de Milton Hatoum. E talvez também não se alcance a tensão entre Pedro e Paulo, da ficção de Machado de Assis.
Essas disputas são ancestrais; estão em vários pontos do Antigo Testamento. Exemplifico dom Caim e Abel (Gênesis 4), com Esaú e Jacó (Gênesis 27) ou mesmo entre os irmãos de José (Gênesis 37). Esse último tema foi explorado por Thomas Mann, em quatro livros que o escritor alemão considerava suas obras mais importantes.
‘O Colibri’ seduz, antes de tudo, pela forma
A narrativa se fragmenta em tempos, perspectivas e linguagens: da voz onisciente a bilhetes íntimos, de e-mails a mensagens de WhatsApp. A colagem desconcerta o leitor e imita a própria experiência da memória, feita de fragmentos e reconstruções. Uma questão freudiana. O criador da psicanálise era obcecado por Roma justamente porque esta cidade é um contínuo de construções e de reconstruções, de camadas que se sobrepõem, exatamente como nossa memória é construída.
Em “O Colibri” há muita reflexão filosófica, vertida em provocações muito singelas. É o caso de uma imaginária teoria da pedra lançada: se a água estiver calma a pedra produz turbulência; se a água estiver turbulenta a pedra, ao contrário, produz calma. O aforismo leve, por outro lado, pode se confundir com a falta de profundidade.
“O Colibri” é um romance que trata do despedaçamento de famílias pequenas. Trata de experiências amorosas que não dão certo, o que é, de uma certa forma, uma forma de acerto. O autor nos planta uma dúvida: há alguma forma de salvação para um amor que se proclama eterno? Sou cético nesse departamento.
Veronesi explora relações (inclusive matemáticas) que se desdobram de uma concepção de destino. As personagens do livro detêm livre-arbítrio ainda que dependentes de uma estrela que não controlam; situação paradoxal que o autor pinta com a paleta de uma possibilidade mórbida. Essa tensão é uma das marcas da brevidade da vida que, não importa quanto longa possa ser, é ainda sempre tão breve. O autor também explora os efeitos imediatos de doenças gravíssimas em face de nosso poder para decidir sobre nós mesmos: é o tema da eutanásia, que Veronesi expõe de um modo secular e compreensivo.
No fim do livro, com o sugestivo título de “Dívidas”, o autor explica farta e generosamente as fontes que utilizou. Mario Vargas Llosas (o escritor peruano que é de longe o meu escritor predileto, e ao que consta também de Sandro Veronesi) é uma dessas fontes. O autor nos proporciona um caleidoscópio cultural. Em um dos capítulos de “O Colibri” o autor reproduz uma mesma frase que Vargas Llosa utilizou em “A Guerra do Fim do Mundo” (a versão do escritor peruano sobre Canudos, com base em Euclides da Cunha): “O homem era tão alto e tão fraco que parecia sempre de perfil”.
Veronesi faz referências a Frederico Fellini (repassando uma cena de “Amarcord”), à poesia de Sergio Perroni, a cantores como Elvis Costello, Marianne Faithfull, Sinéad O’Connor, Björk, Joni Mitchell. Explica que não é dele a frase “os lobos não matam os cervos sem sorte, matam os cervos fracos”; a frase é de Tony Sheridan, que dirigiu e escreveu o roteiro de “Terra Selvagem”. Uma honestidade a toda prova.
Por outro lado, tenho dúvidas se essas referências enriquecem o texto ou se dispersam o leitor. Temo que as referências a e-mails possam envelhecer rapidamente. O e-mail (pelo menos para mim) tornou-se um fardo. Em breve será apenas uma reminiscência.
Veronesi coloca-nos perguntas fáceis e insinua respostas difíceis. É lírico, mas também é cruel. Há no livro muito afeto, ainda que construído no contexto de perdas irreparáveis. O enredo é fechado e disposto em forma de mosaico. O fim do livro arrebata o leitor; divide opiniões.
Veronesi esteve no Brasil por ocasião da 23ª edição da Flip. Conta que, adolescente, enquanto os meninos de sua idade pensavam no futebol ou na música popular, pensava em escrever, impactado que estava pela leitura de “Os Irmãos Karamazov”, entre outros. É um escritor que vem se destacando pela qualidade de seus romances; venceu duas vezes o prestigiadíssimo Prêmio Strega.
“O Colibri” é um daqueles livros que nos desconcerta quando viramos a última página. A leitura é tão boa que nos coloca um desafio: o que ler em seguida?
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