De Sandro Veronesi eu havia lido “O Colibri”. Conclui a resenha preocupado com o que ler em seguida. Segui com Veronesi, na difícil tarefa de suplantar a qualidade de leitura de “O Colibri”. Tinha como postulado que quem escreveu esse livro teria dificuldade em escrever algo melhor. Depois de “O Colibri”, que me deixou suspenso entre afeto e perda, eu queria saber se Veronesi conseguiria me surpreender de novo. Conseguiu. Trato hoje de “Setembro Negro”, do mesmo autor, que li em duas sentadas. O nível de “Setembro Negro” é tão alto quanto o de “O Colibri”.

O autor promete logo no início um grande acontecimento, que mudou sua vida (da personagem, bem entendido). O grande acontecimento parece nunca acontecer. Esse vazio gera tensão e espelha a adolescência, quando esperamos que algo maior nos aconteça. A vida, no entanto, segue em silêncios e pequenas marcas. Quando o anunciado acontecimento de fato ocorre ao longo do livro, o que muda na verdade é a vida do próprio leitor. Literariamente falando, bem entendido.
O título “Setembro Negro” fixa o leitor no tempo, com referência ao grupo terrorista que provocou uma tragédia nas Olimpíadas de Munique, em 5 de setembro de 1972. Uma data triste e infame, marcada pelo sequestro e assassinato de atletas da delegação israelense.
Há um premiadíssimo filme de Steven Spielberg que trata do assunto. À época debateu-se se as olimpíadas deveriam ser encerradas. Prevaleceu a opinião de que o encerramento dos jogos consistiria no reconhecimento da vitória do terrorismo. Por isso, foi-se até o fim.
Tenho algumas memórias desse tempo. Lembro-me bem de Mark Spitz, o nadador norte-americano que conquistou sete medalhas de ouro. Judeu de origem, Spitz foi retirado às pressas da Alemanha, pela segurança norte-americana, que temia um novo atentado. Lembro-me do bigode, do calção de nylon; os nadadores ainda não usavam óculos. Eu era nadador. E era dos mais medíocres.
“Setembro Negro” é um livro de memórias que tem como referência o papel de nossos pais em nossas vidas. A referência à tragédia de Munique talvez seja apenas uma forma que o autor encontrou para localizar no tempo o núcleo da narrativa. Não espere o leitor um livro que trate desse assunto de modo analítico. Tem-se apenas uma referência.
O leitor atento percebe o carinho do autor (digo, da personagem) em relação ao pai; sabe, no entanto, desde o início, que há muita estranheza nas entrelinhas. O autor das memórias, no sentido ficcional, nasceu em 1960. Nasci um pouco mais tarde, porém faço parte dessa geração. Por isso, senti-me familiarizado com os nomes e referências, inclusive do “bat-bag”. Se o leitor não sabe o que é o “bat-bag”, ótimo, passou pelo teste da juventude. Alguns chamavam de bolimbolacho.
A maior parte da estória se passa em um balneário italiano. Foi lá que o autor/narrador viveu importantes experiências no início da adolescência. Como todos nós, viveu seu primeiro amor, aquele que por muito tempo parece ser o maior de todos. O estranho é que quando deixamos de amar uma pessoa, parece que nunca amamos aquela pessoa. Tenho impressão de que o grande amor é justamente aquele que não deu certo. Não houve tempo para desgastes. Romeu e Julieta, nesse sentido, seriam a epítome dessa afirmação. Morreram jovens, muito jovens…
Em “Setembro Negro” o narrador descreve o pai como um diletante. Um advogado criminalista apaixonado pela navegação à vela. A mãe, ruiva (e aprendi nesse livro o que significa rutilismo), era irlandesa. O domínio do inglês (que aprendeu com a mãe) aproximou o narrador de sua grande paixão, uma adolescente, filha de mãe etíope e de um pai italiano, que era milionário. É da relação entre pai e mãe dessa moça que podemos encontrar as chaves interpretativas do romance. Menos Arnaldo, chega de spoiler.
O livro trata do espinhoso tema do racismo velado. Trata de conflitos da adolescência. Trata do perdão. O narrador faz referência a um dito irlandês, segundo o qual, na Irlanda, a demência faz com que se esqueça tudo, menos os rancores. O autor está explorando experiências pessoais, mas que de algum modo compartilhamos, justamente porque são experiências que tocam a todos nós.
“Setembro Negro” é um livro que nos faz refletir sobre nossas obrigações como pais, especialmente sobre como lidamos com nossos filhos no contexto fechado das relações conjugais, sobre o radicalismo nas relações familiares e sobre a superação desses rancores na forma de um dom, que chamamos de compreensão. Nesse livro, aprimoramos nossas qualidades de ficarmos sozinhos.
Depois de ler “O Colibri” e “Setembro Negro”, constato que o autor é um cartógrafo das perdas e da memória. Não escreve sobre grandes acontecimentos (ainda que os evoque); escreve sobre o modo como grandes acontecimentos reverberam em nossas memórias, com referência a nossas experiências mais íntimas. O autor me deixou diante do que não consigo controlar: o tempo, o destino, o afeto.
A leitura desse romance talvez comprove que a literatura é instrumento valiosíssimo para o constante aprimoramento de quem vive o mundo do Direito. O Direito não se limita a normas e procedimentos; é também interpretação de narrativas humanas, cheias de memórias, perdas e rancores. Tanto “Setembro Negro” quanto “O Colibri” são livros que tratam desses temas centrais que marcam nossa condição humana.
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