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Opinião

Sobre Caetanos, Conrados, togas e becas

Evangelina Maffei

Caetano Veloso em Buenos Aires (1979)

É famosa, mas já talvez um pouco esquecida, a acusação de “dedo-duro” que Caetano Veloso levou de ninguém menos que Henfil, o icônico cartunista, irmão de Betinho de Souza, aquele exilado cuja volta foi celebrada por Elis Regina em O Bêbado e a Equilibrista, o hino da anistia de 1979.

O argumento de Henfil era claro e inconteste: não era ético nem respeitável que em plena ditadura militar um artista popular, um arrasa-quarteirão, como Caetano, se utilizasse do espaço generoso de que dispunha nos meios de comunicação de massa para apontar como comunistas críticos e jornalistas que o desagradaram.

A polêmica nasceu a partir de uma entrevista infame de Caetano Veloso ao Diário de São Paulo em 1978 em que ele reclama de os cadernos de cultura dos jornais estarem aparelhados por uma “esquerda medíocre, de baixo nível cultural e repressora”, antes de nomear quatro profissionais: Tárik de Souza, José Ramos Tinhorão, Maurício Kubrusly e Maria Helena Dutra [1].

Daí em diante é uma metralhadora giratória em que a raiva do artista coincide com críticas que poderiam sair da boca do mais conservador dos generais então no poder.

Caetano diz que os jornalistas atacavam seus espetáculos “fingindo que estão fazendo uma revolução operária, e se acham no direito de esculhambar com a gente, porque se julgam numa causa nobre; quando não tem nobreza nenhuma nisso”. E ainda regurgita a palavra de ordem “União Soviética”, chama os críticos de mortos em vida e diz que eles “não são de nada” e que só no dia em que eventualmente conseguissem fazer a revolução e tivessem tanques-de-guerra é que poderiam calar a boca dele, Caetano.

A verborragia se encerra: “Ninguém entende os artigos que os imbecis escrevem porque é uma mistura de Roberto Marinho e Luiz Carlos Prestes” (VELOSO, Caetano. 1978)

A revista IstoÉ chegou a publicar uma reportagem sob o título sugestivo: “Caetano tira o dedo do violão e aponta”.

Diante de toda essa história, Henfil reagiu agressiva e publicamente mais de uma vez, tendo dito em entrevista à revista Playboy sobre o filho de Dona Canô: “Hoje há dedos-duros muito mais famosos que o Simonal”. O ponto do cartunista era simples: é muita covardia acusar alguém de pertencer a organizações de esquerda em um regime que perseguia esses grupos com pontapés, privação de liberdade e morte.

Spacca

Spacca

Como o Caetano Veloso sempre gostou de falar em “patrulha ideológica”, Henfil, sempre ferino, vaticinou que essa então seria a “patrulha Odara”. Ou seja, uma esquerda que tem pautas adjacentes à direita mais violenta. Paralelas que se encontram no infinito do agora. Não surpreende em nada, portanto, o apoio público de Caetano a Marcelo Bretas e à “lava jato”.

Podres poderes

Essa lembrança da polêmica do Henfil com Caetano Veloso pulula à mente após a leitura da coluna “Caro advogado, quanto vale tua OAB?” [2], da lavra do professor Conrado Hübner Mendes, na Folha de S.Paulo, de 11 de dezembro de 2025.

O artigo, em linhas simples e gerais, aponta infração ética do advogado Augusto Arruda Botelho por ter, segundo matéria d’O Globo, viajado em jatinho ao lado do ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli. E cobra atuação da Ordem dos Advogados do Brasil para puni-lo.

Tenho muita admiração por Conrado, meu professor de Direitos Fundamentais na faculdade, e acompanho sua atividade incessante de apontar e de criticar excessos do Judiciário, principalmente no que concerne ao distanciamento do atendimento ao público (com pês maiúsculos e minúsculos).

Os tribunais, principalmente os superiores, se encastelaram após a pandemia. A digitalização e o trabalho remoto dos serventuários — algo que deveria aumentar o acesso à justiça — foram traduzidos em total impossibilidade de a advocacia de planície ser ouvida.

O agendamento de despachos de petições é impossível ao advogado desconhecido, as sessões virtuais acabaram com o colegiado (todos seguem o relator em mais de 95% dos processos em pauta) [3], os ministros parecem mais preocupados em diminuir o número de processos em acervo e em não gerar precedente que envolva uma revoada de pedidos defensivos do que em fazer justiça em casos concretos.

O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil tem ouvidos moucos e se recusa a defender a advocacia nesse sentido de acesso à jurisdição. Ao contrário, acabou por referendar a autoritária Resolução 645/2025 do Conselho Nacional de Justiça que proíbe os advogados de gravar livremente os atos judiciais como determina o Código de Processo Civil (artigo 367, §§ 5º e 6º) — uma reivindicação setorial antiga de juízes e promotores.

Pois bem.

E é sobre algum desses temas a “preocupação” do professor Conrado Hübner Mendes sobre a atuação da OAB? Não. Trata-se de um ataque macartista a um advogado. E isso não pode passar em branco.

É certo que a acusação a juízes, desembargadores e ministros têm conotação diversa, posto que amparados por instituições — e com deveres éticos muito mais estritos, funcionários públicos que são. E é bom que seja feita. Tanto é assim, que o próprio presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Fachin, sugere a redação de um código de conduta. É salutar.

O professor Conrado, entretanto, caetaneou: usa o espaço de sua coluna na Folha para pressionar a OAB a perseguir um advogado sem provas. Data maxima venia, continua lavajatista.

 


[1] Disponível aqui

[2] Disponível aqui

[3] Disponível aqui

Fábio Dutra

é sócio do Fábio Dutra Advogados.

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