O Natal é, sem dúvida, uma das festividades mais populares do mundo, celebrada em diversos contextos culturais e religiosos. Porém, muitas vezes, se confunde o seu verdadeiro significado cristão com o aspecto cultural e comercial que ela assumiu ao longo dos séculos. Enquanto a celebração cristã do nascimento de Jesus — o Advento — é um momento profundo de reflexão religiosa e de renovação espiritual, o Natal secular, com seus símbolos e costumes, tem uma história de transformação, adaptações e até reinvenções que nos mostram como as tradições podem ser moldadas ao longo do tempo.

A data do 25 de dezembro, amplamente associada ao nascimento de Jesus, é, na verdade, uma escolha sem base bíblica. Com efeito, a Bíblia não menciona uma data específica para o nascimento de Jesus, e muitos estudiosos acreditam que a decisão de celebrar a natividade de Cristo nesse dia foi influenciada por festividades pagãs já existentes, como o culto ao Sol Invictus, celebrado pelos romanos. No século 4, o Imperador Aureliano instituiu a festividade do solstício de inverno para honrar o deus sol, e a Igreja, com o intuito de cristianizar as celebrações, adotou essa data para celebrar o nascimento de Cristo. O fato de os pastores estarem no campo, conforme narrado em Lucas (2:8), sugere que a época do ano não era o inverno rigoroso, como muitos imaginam.
Mas o Natal não foi a única festa originalmente pagã que foi “cristianizada” pela Igreja Católica da Idade Média.
Uma das chaves para compreender o calendário litúrgico cristão — e, em especial, o modo como certas festas católicas se fixaram no tempo — está na relação profunda entre religião, ciclos naturais e cultura. A Igreja não construiu o seu calendário no vazio: ao contrário, dialogou intensamente com festividades pré-cristãs ligadas ao ritmo da natureza, ao curso do sol e às necessidades simbólicas das sociedades agrárias antigas. Esse processo de assimilação e resignificação é analisado com clareza por Ewing Duncan em seu clássico Calendário.
É importante começar por um ajuste conceitual essencial: o Natal cristão situa-se simbolicamente no solstício de inverno do hemisfério norte (ao redor de 21 a 25 de dezembro); o São João, por sua vez, está ligado ao solstício de verão (cerca de 21 a 24 de junho). Não é por coincidência que, nos evangelhos, João Batista é o primo e precursor de Jesus Cristo, como se vai mostrar.
Muito antes do cristianismo, o solstício de inverno era celebrado em diversas culturas europeias e mediterrâneas como o momento em que, após o dia mais curto do ano, a luz começa lentamente a vencer a escuridão. Entre os romanos, destacavam-se as Saturnais e, mais tarde, a já mencionada festa solar, oficializada no século 3. Povos germânicos celebravam o Yule, acendendo fogueiras e luzes para “ajudar” o sol a renascer.
Quando o cristianismo fixou o nascimento de Cristo no dia que conhecemos, não afirmou um dado histórico — repito, a Bíblia não fornece data alguma —, mas realizou um gesto simbólico poderoso: associar o nascimento de Jesus à ideia de que a verdadeira Luz entra no mundo no auge da noite. A festa pagã do retorno do sol foi, assim, reinterpretada como o advento do Sol Iustitiae, o Sol da Justiça, imagem recorrente na patrística.
O caso de São João Batista é talvez ainda mais eloquente. Celebrado em 24 de junho, ele se situa imediatamente após o solstício de verão, quando os dias começam, pouco a pouco, a encurtar. O simbolismo é transparente e foi explorado conscientemente pela tradição cristã: o Batista é aquele que anuncia Cristo e depois se retira. Como diz o Evangelho de João (3,30): É necessário que Ele cresça e eu diminua.
Enquanto o Natal celebra a luz que cresce, São João celebra a luz que começa a declinar, preparando o caminho para a outra. As fogueiras de São João, comuns em toda a Europa e trazidas ao Brasil, não são invenções cristãs: derivam de antigos ritos solares, purificadores e agrícolas, que a Igreja não suprimiu, mas rebatizou e reinterpretou.
Esse mesmo mecanismo aparece em diversas outras datas do calendário católico: a Páscoa, embora enraizada na Pessach judaica, dialoga também com antigos ritos de primavera, ligados à fertilidade, ao renascimento da natureza e à vitória da vida sobre a morte; o Dia de Todos os Santos (1º de novembro) aproxima-se de antigas celebrações celtas como o Samhain, ligadas à memória dos mortos e à passagem do tempo; algumas festas marianas, em muitos lugares, coincidem com antigas celebrações femininas ligadas à terra, à fecundidade e aos ciclos lunares.
Como observa o já referido Ewing Duncan, o calendário religioso é, antes de tudo, um mapa simbólico do tempo, no qual convivem astronomia, agricultura, mitologia e teologia. É um equívoco moderno imaginar esse processo como simples “disfarce” ou “engano”. A Igreja antiga compreendia que os seres humanos organizam o tempo por meio de símbolos. Em vez de destruir essas estruturas, preferiu orientá-las para um novo conteúdo teológico. O cristianismo não aboliu o ritmo cósmico: deu-lhe outro significado.
Por isso, quando falamos do Natal, de São João ou de outras festas do calendário católico, é fundamental distinguir duas camadas: a externa, da festividade cultural, moldada por séculos de tradições pagãs, costumes populares e práticas sociais; e a interior, do núcleo teológico cristão, que reinterpreta esses símbolos à luz da fé.
No Natal, esse centro nuclear é o Advento: a celebração do nascimento de Cristo e da esperança que irrompe na história. No São João, é a pedagogia da humildade e da preparação do caminho.
Reconhecer as raízes pagãs de certas datas não enfraquece a fé cristã; ao contrário, ajuda a compreendê-la como uma religião que soube dialogar com o mundo, com a natureza e com o tempo humano — transformando o calendário num espaço onde o céu, a terra e a história se encontram.
Reinvenção e simbologia
Voltando ao Natal, outro aspecto curioso é o símbolo da árvore natalina, um costume que nada tem a ver com a tradição cristã original. A árvore de Natal, como conhecemos hoje, tem sua origem na Alemanha do século 16, sendo introduzida na Inglaterra pelo Príncipe Alberto (de origem germânica), marido da Rainha Vitória, em 1841. A imagem da família real britânica decorando a árvore se espalhou rapidamente e logo se tornou uma tradição popular. Essa introdução de elementos seculares na festividade natalina ilustra um processo mais amplo de reinvenção do Natal ao longo do tempo.
Falando em reinvenção, é impossível não mencionar a figura do Papai Noel. A lenda de São Nicolau, o bispo turco do século 4 famoso por sua generosidade, é que muito provavelmente deu origem a esse personagem hoje onipresente na publicidade e na imaginação das crianças. Diz a tradição que o santo jogou sacos de ouro pela chaminé de uma casa para ajudar um homem pobre a pagar o dote das filhas, e esses sacos caíram em meias que estavam secando ao fogo. Essa história evoluiu ao longo dos séculos, com os holandeses levando a figura de Sinterklaas para a América, onde ela foi transformada na versão moderna de Santa Claus.
No entanto, a imagem do bom velhinho, alegre e generoso, como o conhecemos hoje, não foi uma invenção da Coca-Cola, como muitos acreditam. O ilustrador Thomas Nast já havia desenhado Papai Noel vestido de vermelho no século 19, mas foi a popularização da marca de refrigerante no século 20 que consolidou essa imagem. Em 1931, Haddon Sundblom deu forma, a serviço da Coca-Cola, ao Papai Noel moderno: corpulento, com ares de avô bondoso, barba branca e o inconfundível traje vermelho da cor da bebida gasosa — uma representação que se difundiu globalmente e, pouco a pouco, eclipsou as tradições regionais.
E Rudolph, a rena do nariz vermelho? Ao contrário do que muitos pensam, essa lenda não é uma tradição antiga, mas uma invenção razoavelmente recente de marketing. Em 1939, a então grande rede de lojas Montgomery Ward encomendou um conto infantil sobre uma rena especial para economizar em livros para colorir, criando o personagem de Rudolph, que rapidamente se tornou parte do imaginário popular.
Esses exemplos ilustram como o Natal, com sua simbologia religiosa e sua mensagem de generosidade e fraternidade, foi progressivamente reformulado, sendo moldado por influências culturais, políticas e, principalmente, comerciais. O Natal moderno é, sem dúvida, uma mistura altamente heterogênea de influências que vão desde as orgias romanas, passando pela magia dos bosques nórdicos, até a moral vitoriana e o consumismo desenfreado do século 20. Não é apenas uma data religiosa, mas um fenômeno sociocultural que conseguiu sobreviver a séculos de transformações.
Embora o Natal tenha sido apropriado por diversas correntes culturais, o seu verdadeiro significado cristão — a celebração do nascimento de Jesus Cristo, o Salvador do mundo — continua sendo ainda, como deve ser, o centro de toda a festa. O Advento, a preparação para a vinda de Cristo, é o momento espiritual de reflexão, arrependimento e esperança para os cristãos. É no nascimento de Jesus que os crentes encontram uma renovação espiritual, um novo começo, e é essa mensagem que deveria, idealmente, reger a celebração do Natal.
No entanto, a complexidade da festividade natalina é inegável. Ela evoluiu ao longo dos séculos e reflete as diversas culturas e valores de cada época. Enquanto o Natal cristão permanece como uma celebração profundamente religiosa, o Natal secular — com suas árvores decoradas, presentes e figuras como o Papai Noel — é um reflexo de um mundo em constante transformação, onde o consumo e o espetáculo muitas vezes substituem o verdadeiro espírito de solidariedade, paz e renovação espiritual.
Ao celebrarmos o Natal, é importante lembrar que a mágica dessa festa não está apenas nas luzes brilhantes ou no consumismo desenfreado. Ela se encontra, na verdade, na simples reunião familiar, na generosidade e no amor ao próximo, que são os verdadeiros legados do Cristo, o que, entendo, vale tanto para os cristãos como para os adeptos de outros credos e mesmo para os que não creem. Em um mundo cada vez mais fragmentado e marcado pela velocidade e pelo materialismo, talvez o maior presente que podemos dar uns aos outros seja o retorno a esses valores essenciais.
Referências
BERGER, Peter L. O Natal como símbolo cultural: Uma análise histórica. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2001.
DICKENS, Charles. A Christmas Carol. Londres: Legend Times Group, 2019.
DUNCAN, David Ewing. Calendário: a epopeia da humanidade. Trad. João Domenech. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.
HUTTON, Ronald. The Pagan Religions of the Ancient British Isles: Their Nature and Legacy. Oxford: Blackwell, 1991.
MACCOLL, Robert. The History of Christmas: Traditions, Folklore, and Celebrations. Nova Iorque: HarperCollins, 2007.
WARD, Andrew. Santa Claus: A Biography. Nova Iorque: Viking, 2004.
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