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Opinião

Burnout parental: mediação e planos de parentalidade como medidas de apoio e enfrentamento

Os desafios da parentalidade têm sido objeto de crescente atenção em estudos acadêmicos e pesquisas recentes. Dentre esses temas emergentes, tem se destacado o conceito de “burnout parental”. Originalmente associado ao esgotamento no ambiente de trabalho, o termo tem sido ampliado para descrever impactos vivenciados no contexto doméstico, evidenciando a sobrecarga emocional e mental enfrentada por muitos pais e mães.

Atlascompany/Freepik

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Segundo especialistas, o burnout parental é uma condição caracterizada por exaustão extrema, emocional e física, decorrente das intensas demandas da criação dos filhos. Diferente do estresse parental comum, o burnout envolve sentimentos persistentes de esgotamento, distanciamento emocional dos filhos e uma sensação de ineficácia no papel de cuidador [1]. O mecanismo etiológico subjacente é um desequilíbrio entre as demandas de cuidado parental e os recursos disponíveis (emocionais, financeiros etc.) para enfrentar essas demandas. O impacto do burnout parental pode ser profundo, afetando tanto a saúde mental dos pais quanto o bem-estar das crianças, exigindo atenção e estratégias de enfrentamento adequadas [2].

O esgotamento parental ocorre quando o estresse sobrecarrega severa e cronicamente os recursos parentais para lidar com a situação, e se manifesta por meio de quatro sintomas principais. Primeiro, os cuidadores se sentem exaustos e abatidos por seu papel parental. Os cuidadores exaustos então se afastam emocionalmente de seus filhos e deixam de sentir satisfação e realização em estar com eles, a ponto de, em alguns casos extremos, não suportarem mais exercer o papel parental. Finalmente, os cuidadores esgotados não se reconhecem como os que costumavam ser e gostariam de ser [3].

Dados extraídos de uma pesquisa recentemente divulgada pela revista Veja, feita pela Kiddle Pass em parceria com a B2Mamy, evidenciam a prevalência alarmante dessa condição nas mulheres, sendo nove em cada dez mães enfrentam os impactos do burnout parental [4].

Os dados sugerem que soluções como dividir responsabilidades, melhorar a autoestima das mães e adotar uma visão menos idealizada [5] da maternidade podem ajudar a enfrentar esse cenário desafiador. No entanto, uma visão essencialista da maternidade ainda é marcante na nossa cultura, que vê a maternidade como instintiva e inata, ao invés de considerá-la como uma construção social. Estudos recentes demonstram que, embora as transformações econômicas, políticas e culturais neoliberais venham ganhando cada vez mais força nos países ocidentais, a vida familiar continua sendo estruturada por normas que identificam as mulheres/mães como as principais responsáveis ​​pela execução de cuidados não remunerados e tarefas domésticas [6].

Mediação familiar e planos parentais

Vivenciar um burnout parental simultaneamente a um conflito familiar decorrente do término de uma relação amorosa pode intensificar os impactos dessa condição, gerando consequências ainda mais danosas para todos os membros da família. Nesse cenário, a mediação de conflitos surge como uma proposta de apoio, ao oferecer um espaço de diálogo qualificado e escuta empática, que possibilita a ressignificação de relações. Proporciona, ainda, um ambiente estruturado que fomenta o diálogo e permite a identificação de necessidades essenciais para enfrentar o burnout parental, tais como apoio, espaço pessoal, cuidado, autocuidado, empatia social, reconhecimento e validação.

Identificar e reconhecer essas necessidades não atendidas é essencial para ajudar as mães a superar sentimentos e experiências de sobrecarga e invisibilidade. A mediação familiar também permite desenhar planos de parentalidade mais detalhados, contendo uma divisão mais igualitária das responsabilidades de cuidado parental, promovendo um maior equilíbrio entre as demandas de cuidado parental e os recursos disponíveis para enfrentá-las, diminuindo a sobrecarga das mães.

Os planos parentais vêm sendo utilizados em diversos países como complemento aos procedimentos de resolução de disputas, tornando-se obrigatórios e mais detalhados, de forma a garantir o envolvimento de ambos os pais na gestão familiar, ou seja, nos cuidados diários com os filhos [7]. Esses planos podem servir para conter o burnout parental, especialmente ao considerar os desafios enfrentados por pais e mães em cenários de sobrecarga de tarefas.

Spacca

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Contudo, esclareça-se que a prática pode ser inefetiva em se tratando de mães solo, que enfrentam desafios imensos, não apenas devido às responsabilidades de cuidar dos filhos sozinhas, mas também pela sobrecarga emocional e física que essa tarefa acarreta. Além das mães solo, as que cuidam de crianças com necessidades de apoio e cuidados específicos [8] – também enfrentam muitos desses desafios e maior risco de apresentar bournout. Esses casos também evidenciam que o burnout pode permanecer “encoberto”, i.e., nem sempre se torna visível e perceptível ao mundo exterior.

Segundo dados do IBGE [9], as mulheres chefiam 49,1% dos lares brasileiros, muitas delas solteiras e com múltiplas responsabilidades. Este contexto frequentemente resulta em uma combinação de estresse crônico e burnout parental, com consequências para a saúde mental das mães e dos filhos. Além disso, a pressão social sobre o papel materno idealizado [10], pode gerar um sentimento de culpa [11] constante. Nesse cenário, uma maior valorização do trabalho doméstico, bem como o compartilhamento das responsabilidades de cuidado parental são essenciais para aliviar a sobrecarga das mães, garantindo que tenham tempo para o autocuidado e para o acesso a apoio emocional. A falta de políticas públicas adequadas e de uma cultura de apoio social, agrava a situação dessas mães, que precisam de soluções práticas e concretas.

Feitos esses apontamentos, o plano de parentalidade pode auxiliar na estruturação das responsabilidades parentais, clarificando o papel de cada cuidador e criando uma divisão mais equitativa das tarefas, o que pode reduzir significativamente a sobrecarga mental e emocional de todos os envolvidos. Esse planejamento busca alinhar as expectativas sobre o cuidado e a educação dos filhos, garantindo que as necessidades individuais de cada membro da família sejam atendidas. Em especial, para as mães, que frequentemente se veem sobrecarregadas e invisíveis em relação ao esforço diário, o plano oferece uma forma de concretizar a parentalidade equitativa, em consonância com o que já estabelece a Constituição Federal de 1988, o Estatuto da Criança e do Adolescente e o Código Civil, que não trazem diferenças entre papéis parentais.

Os planos de parentalidade representam um espaço fértil em que os pais podem tomar decisões conscientes e informadas, organizar as responsabilidades familiares e reduzir a sobrecarga de tarefas que está associada ao bournout parental. Esses planos podem promover o compartilhamento dos cuidados parentais que tem sido associado a um melhor bem-estar socioemocional, psicológico e físico dos filhos [12]. Estudos realizados em diversos países mostram que a divisão mais equitativa dos cuidados com os filhos – que pode ser assegurada através da elaboração de planos parentais detalhados – também está relacionada à maior satisfação com a vida por parte dos cuidadores e com melhores relações coparentais e menos conflitos interparentais [13].

Nesse cenário, faz-se urgente que as famílias assumam uma postura ativa, reconhecendo a necessidade de alinhar expectativas, dividir responsabilidades e priorizar o autocuidado. É essencial que os profissionais jurídicos ampliem o uso de práticas autocompositivas, como a mediação, para abordar conflitos familiares de maneira humanizada, garantindo um espaço seguro para a escuta e o diálogo. Plano parentais detalhados levam em conta diferentes dimensões da parentalidade e da coparentalidade, estando de acordo às necessidades dos filhos e possibilitando alterações futuras à medida que essas necessidades se alterem.

Por fim, é crucial que o poder público invista em políticas de suporte às famílias, incluindo a ampliação de redes de apoio, serviços de cuidado infantil acessíveis e programas voltados à saúde mental. Somente com a atuação conjunta desses atores será possível não apenas mitigar os efeitos do burnout parental, mas também fomentar um ambiente familiar mais equilibrado, onde pais, mães, criança e adolescentes possam se desenvolver de forma saudável e sustentável. Que este seja o ponto de partida para uma transformação que impacte positivamente não apenas as famílias, mas toda a sociedade.

 


REFERÊNCIAS

CAMINHA, Renato M. Mitos da Parentalidade: Livrando os Pais da Culpa Infundada. Porto Alegre: Grupo A, 2024.

CHAVES, F. N. R.; ANTUNES, R. M.; LEAL, M. A.; RIBEIRO, T. P. Burnout parental: um estudo abrangente das dinâmicas psicossociais, fatores de risco e estratégias de intervenção. Brazilian Journal of Health Review[S. l.], v. 7, n. 5, p. e73495, 2024. DOI: 10.34119/bjhrv7n5-404. Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BJHR/article/view/73495. Acesso em: 28 nov. 2024.

SCHMIDT, Eva‐Maria; DECIEUX, Fabienne; ZARTLER, Ulrike; SCHNOR, Christine. What makes a good mother? Two decades of research reflecting social norms of motherhood. Journal of Family Theory & Review, v. 15, n.1, p. 57-77, 2023.

IACONELLI, Vera. Manifesto Antimaternalista: Psicanálise e Políticas da reprodução. 1ª. Ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo 2022: IBGE revela composição familiar e óbitos informados na casa. 2023. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/41672-censo-2022-ibge-revela-composicao-familiar-e-obitos-informados-na-casa-brasil-ibge

KIDDLEPASS. Burnout Parental Report. Disponível em: https://burnoutparental.kiddlepass.com/report. Acesso em: 28 nov. 2024.

MATTOS, E. P Plano de Parentalidade: um novo paradigma para a reorganização familiar após a separação/divórcio. Revista IBDFAM Famílias e Sucessões, 59, p.  64-79. 2023.

[1] PATTY, Nathalie JS et al. Conceptualizing burnout from the perspective of parents of children with complex care needs. PEC innovation, v. 5, p. 100325, 2024.

MATTOS, E. Planos de Parentalidade Centrados nas Necessidades dos Filhos: Guia de Elaboração e Implementação. Proteja Editora, 2024.

MIKOLAJCZAK, Moïra; ROSKAM, Isabelle. Parental burnout: Moving the focus from children to parents. New directions for child and adolescent development, v. 2020, n. 174, p. 7-13, 2020.

PATTY, Nathalie JS et al. Conceptualizing burnout from the perspective of parents of children with complex care needs. PEC innovation, v. 5, p. 100325, 2024.

PIOTROWSKI, Konrad; BOJANOWSKA, Agnieszka; SZCZYGIEŁ, Dorota; MIKOLAJCZAK, Moïra; ROSKAM, Isabelle. Parental burnout at different stages of parenthood: Links with temperament, Big Five traits, and parental identity. Frontiers in Psychology, v. 14, 2023. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/psychology/articles/10.3389/fpsyg.2023.1087977. Acesso em: 28 nov. 2024. DOI: 10.3389/fpsyg.2023.1087977.

ROSKAM, Isabelle; BRIANDA, Maria-Elena; MIKOLAJCZAK Moïra. A step forward in the conceptualization and measurement of parental burnout: The Parental Burnout AssessmenT. Frontiers in psychology, v.9, p. 758, 2018.

VEJA. Pesquisa exclusiva: nove em 10 mães sofrem ‘burnout parental’ no Brasil. Disponível em: https://veja.abril.com.br/comportamento/pesquisa-exclusiva-nove-em-10-maes-sofrem-burnout-parental-no-brasil. Acesso em: 27 nov. 2024.

[1] MIKOLAJCZAK, Moïra; GROSS, James J.; ROSKAM, Isabelle. Parental burnout: What is it, and why does it matter? Clinical Psychological Science, v. 7, n. 6, p. 1319-1329, 2019.

[2] CHAVES, F. N. R.; ANTUNES, R. M.; LEAL, M. A.; RIBEIRO, T. P. Burnout parental: um estudo abrangente das dinâmicas psicossociais, fatores de risco e estratégias de intervenção. Brazilian Journal of Health Review, [S. l.], v. 7, n. 5, p. e73495, 2024. DOI: 10.34119/bjhrv7n5-404. Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BJHR/article/view/73495. Acesso em: 28 nov. 2024.

[3] ROSKAM, Isabelle; BRIANDA, Maria-Elena; MIKOLAJCZAK Moïra. A step forward in the conceptualization and measurement of parental burnout: The Parental Burnout AssessmenT. Frontiers in psychology, v.9, p. 758, 2018.

[4] VEJA. Pesquisa exclusiva: nove em 10 mães sofrem ‘burnout parental’ no Brasil. Disponível em: https://veja.abril.com.br/comportamento/pesquisa-exclusiva-nove-em-10-maes-sofrem-burnout-parental-no-brasil. Acesso em: 27 nov. 2024.

[5] IACONELLI, Vera. Manifesto Antimaternalista: Psicanálise e Políticas da reprodução. 1ª. Ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.

[6] SCHMIDT, Eva‐Maria; DECIEUX, Fabienne; ZARTLER, Ulrike; SCHNOR, Christine. What makes a good mother? Two decades of research reflecting social norms of motherhood. Journal of Family Theory & Review, v. 15, n.1, p. 57-77, 2023.

[7] MATTOS, E. P Plano de Parentalidade: um novo paradigma para a reorganização familiar após a separação/divórcio. Revista IBDFAM Famílias e Sucessões, 59, p.  64-79. 2023.

[8] PATTY, Nathalie JS et al. Conceptualizing burnout from the perspective of parents of children with complex care needs. PEC innovation, v. 5, p. 100325, 2024.

[9] INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo 2022: IBGE revela composição familiar e óbitos informados na casa. 2023. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/41672-censo-2022-ibge-revela-composicao-familiar-e-obitos-informados-na-casa-brasil-ibge. Acesso em: 29 nov. 2024.

[10] IACONELLI, Vera. Manifesto Antimaternalista: Psicanálise e Políticas da reprodução. 1ª. Ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.

[11] CAMINHA, Renato M. Mitos da Parentalidade: Livrando os Pais da Culpa Infundada. Porto Alegre: Grupo A, 2024.

[12] MATTOS, E. P Plano de Parentalidade: um novo paradigma para a reorganização familiar após a separação/divórcio. Revista IBDFAM Famílias e Sucessões, 59, p.  64-79. 2023.

[13] MATTOS, E. Planos de Parentalidade Centrados nas Necessidades dos Filhos: Guia de Elaboração e Implementação. Proteja Editora, 2024.

Juliana Ribeiro Goulart

é advogada, professora da Unisociesc, doutoranda pela Universidade Federal de Santa Catarina e conselheira da Comissão de Mediação e Conciliação do Conselho Federal da OAB.

Elsa de Mattos

é psicóloga clínica e jurídica, mestre e doutora em Psicologia com pós-doutorado pela UFBA, perita ad hoc no TRF da 1ª Região/seção Bahia e assistente técnica em processos de família no TJ-BA, TJ-DF, TJ-SP, TJ-PR e TJ-GO, mediadora judicial e extrajudicial, membro da Association for Family and Conciliation Courts e presidente da Comissão de Práticas Colaborativas do IBDFam-DF.

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