O bom romance histórico tem que ter romance e tem que ter história. Uma história bem fundamentada e documentada, a ponto de iludir o leitor, que julga ler um texto didático, pode resolver a fragilidade do romance. Ainda que muitos enredos e vidas sejam verdadeiros romances, a exemplo da singular história de Simón José Antonio de la Santísima Trinidad Bolívar Ponte y Palacios Blanco. Refiro-me a Simón Bolívar, o Libertador das Américas, o herói criollo que sonhou o panamericanismo.
O general em seu labirinto, de Gabriel García Márquez (Gabo), trata dos últimos dias da vida de Bolívar. É certamente o romance histórico mais meticuloso que li. Assim como o Novo Testamento narra, na essência, os últimos dias da vida do Salvador, o escritor colombiano num texto enxuto, sublime e esmiuçador narra o fim da vida de Bolívar. Um triste fim, como triste também foi o fim de Gabo.
O autor estudou Direito e Ciência Política em Bogotá. Não concluiu os cursos. Dedicou-se ao jornalismo e à literatura de ficção. Memorialista também, aproximou passado e presente, mediando o encanto de uma prosa simples e ao mesmo tempo hermética, com raízes e lembranças que se perdem e que remontam à Guerra dos 1.000 Dias, travada intestinamente na Colômbia entre 1899 e 1902.
García Márquez remete-nos, assim, aos tempos de Rafael Nuñez, Miguel Antonio Caro, Manuel Antonio Sanclemente, José Manuel Marroquin e outros personagens da República Granadina. Liberais e conservadores reproduziram na Colômbia a saga dos “tories” e ‘whigs”, porque os há em todos os lugares, inclusive no Brasil dos saquaremas e luzias.
Os conservadores colombianos assimilaram as ideias do tradicionalismo europeu. Juan Donoso Cortés e José de Maistre foram os heróis intelectuais dos publicistas colombianos que se reuniam em torno do jornal La Civilización. Contra eles, os liberais, que compunham a trupe do jornal El Aviso, ideário que circundou em torno de nomes como Ezequiel Rojas e Vicente Azuero.
É nesse mundo que viveu o avô de García Márquez, o coronel Nicolás, que lutou ao lado do caudilho Uribe. O avô é alguma inspiração a José Arcadio Buendía, fundador de estirpe de personagens, que confunde o leitor menos atencioso, ao lado da não menos real e ao mesmo tempo imaginária Úrsula Iguarán. Não por acaso a avô de Gabriel chamava-se Tranquilina Iguarán.
Literatura e realidade, reminiscências e referências, ideias e fatos, são instâncias que se confundem e que se apartam nas páginas de literatura de primeiríssima qualidade que nos legou García Márquez. Ativista político, amigo de Fidel Castro, de Jorge Amado, elogiado por Bill Clinton (que o comparou a William Faulkner), Gabriel García Márquez é o intelectual latino-americano que transcendeu o trauma do europeu colonizador, a quem se culpou pela espada, pela cruz e pela fome, que dizimaram as famílias selvagens.
Essa obsessão com temas latino-americanos é o eixo condutor do argumento de O general em seu labirinto. A exemplo dos Evangelhos, que suscitam referências a toda a vida do Mestre, O general em seu labirinto é uma permanente alusão a vários momentos da trajetória do Libertador.
O narrador onisciente parece ser a voz de Bolívar, e aí há uma certa dose (altíssima) de realismo fantástico. Por exemplo, ainda que tratando do fim da vida de Bolívar, García Márquez refere-se até a infância do general. Perceba-se o rigor de pormenores: “O doente [Bolívar] piorou ainda mais no fim de semana, por causa de um copo de leite de jumenta que tomou por sua conta e risco, escondido dos médicos. Sua mãe o tomava morno, com mel de abelhas, e assim lhe dava quando muito criança, para aplacar a tosse”.
O general em seu labirinto é um roteiro de ambições, traições, emboscadas. O fim de Bolívar é um fim de ressentimentos. O herói está em constante movimento, parece que nem dorme, ou que dorme pouco, ou que é um sonâmbulo. É um desassossego perpétuo. Bolívar, como descrito por Gabo, é uma figura lírica, que chama as lágrimas quando se faz referência à orfandade e a viuvez. Ficou órfão ainda menino. E ficou viúvo aos 20 anos.
A exatidão (ou pretensa exatidão) da narrativa é impressionante. O autor refere-se a uma conversa entre Bolívar e um Bispo, que teria ocorrida exatamente em 14 minutos. Há referências a visitas de Garibaldi (que andou pelo Brasil e pela Argentina), que morreu festejado como o “herói dos dois mundos” e de Herman Melville, o autor de Moby Dick, que morreu esquecido na mais completa obscuridade. É singular uma comparação subliminar entre o fim desses três personagens, o que sugere uma previsão intuitiva do fim de García Márquez, já sem memória, como descreve seu filho Rodrigo em Gabo & Mercedes.
O escritor aproveita para acertar contas com várias figuras históricas, a exemplo de Benjamin Constant, que Gabo chama de “vira-casaca”, na suposta voz de Bolívar. Benjamin Constant serviu e criticou a todos os regimes. Sua relação com Napoleão é um exemplo de amor e ódio na política. O título do livro, não se preocupe leitor, é explicado praticamente na última página.
A sessão de agradecimentos, ao fim do livro, é um roteiro de crítica genética, isto é, aquela crítica literária que se ocupa em saber os caminhos que o autor trilhou para construir seu livro. A leitura dessa sessão final sugere que O general em seu labirinto pode ser muito mais um livro de história do que um romance.
E se o realismo fantástico fantasia a realidade com absoluto senso de realidade, o romance histórico dessa vertente literária realiza a fantasia com absoluto senso de historicidade. Bolívar, na criação de García Márquez é exemplo de uma “infinita capacidade de esperança”.
Não li esse livro, mas li *Cem Anos de Solidão* em 1981 quando estava no quarto ano da Faculdade de Direito. Desde que entrei na faculdade, só lia livros de Direito (eram tantos livros para ler !). Trabalhava num lugar onde vários colegas já haviam lido o livro e eu sempre ficava por fora. Comecei a ler o livro e parei tudo o que estava lendo para ler até o fim, mudou a minha cabeça. Na época, não conhecia o gênero literário *realismo fantástico* e li algumas críticas sobre o livro. Um crítico atribiui o sucesso de Gabo nesse gênero à *dosagem* dos episódios fantásticos no curso da narrativa, tanto em quantidade quanto em intensidade (mais especificamente, de curta duração). Só que eu acho que não era só por causa disso, porque, quando cheguei no episódio da chacina que não foi noticiada, percebi imediatamente que era verdade, então, acho que ele fazia a narrativa de tal forma que, quando narrasse um fato real, seria imediatamente reconhecido como tal. Sem dúvida, ele foi magnífico nesse gênero literário. Vou ler o livro sobre Bolívar, sempre vale a pena ler certos autores. Boa semana, Dr. Godoy.
Não li esse livro, mas li *Cem Anos de Solidão* em 1981 quando estava no quarto ano da Faculdade de Direito. Desde que entrei na faculdade, só lia livros de Direito (eram tantos livros para ler !). Trabalhava num lugar onde vários colegas já haviam lido o livro e eu sempre ficava por fora. Comecei a ler o livro e parei tudo o que estava lendo para ler até o fim, mudou a minha cabeça. Na época, não conhecia o gênero literário *realismo fantástico* e li algumas críticas sobre o livro. Um crítico atribiui o sucesso de Gabo nesse gênero à *dosagem* dos episódios fantásticos no curso da narrativa, tanto em quantidade quanto em intensidade (mais especificamente, de curta duração). Só que eu acho que não era só por causa disso, porque, quando cheguei no episódio da chacina que não foi noticiada, percebi imediatamente que era verdade, então, acho que ele fazia a narrativa de tal forma que, quando narrasse um fato real, seria imediatamente reconhecido como tal. Sem dúvida, ele foi magnífico nesse gênero literário. Vou ler o livro sobre Bolívar, sempre vale a pena ler certos autores. Boa semana, Dr. Godoy.
Que texto lindo! Já na minha infância, aprendi a gostar de ler. Eu lia de tudo, gibi, o que aparecia. O Cortiço, de Aluísio Azevedo, me impressionou muito! De Gabo, li Crônica de uma Morte Anunciada, cujo texto associo muitas vezes ao vários feminicídios e mortes em decorrência de inundações causadas pelas chuvas no Brasil. Depois, com o passar do tempo, com os compromissos e falta de tempo, passei a ler menos, precisei focar nos livros de Direito. Já faz um tempo, que descobri a Bíblia, como fonte de leitura maravilhosa, e agora, me divido lendo comentários bíblicos sobre os evangelhos, de Charles R. Swindoll.
Parabéns, Dr. Arnaldo!
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