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Opinião

Tarifas contra a democracia: programa de proteção ao ditador de Trump

*artigo publicado originalmente no Substack

Daniel Torok/White House

Donald Trump, presidente dos EUA
Daniel Torok/White House

Normalmente não faço posts noturnos. Um por dia no café da manhã acho o suficiente ou mais do que suficiente. Mas a última carta de Donald Trump, impondo uma tarifa de 50% ao Brasil, marca um novo rumo, e acho que merece um boletim especial. Afinal, é tanto perversa quanto megalomaníaca.

Observe que Trump mal finge que há uma justificativa econômica para essa ação. Trata-se apenas de punir o Brasil por levar Jair Bolsonaro a julgamento.

Bolsonaro, como a maioria dos leitores provavelmente sabe, é o ex-presidente do Brasil, que perdeu a última eleição — mas tentou se manter no poder por meio de um golpe que anulou a eleição. Claro que isso soa familiar.

Ora, esta não seria a primeira vez que os Estados Unidos utilizam a política tarifária para fins políticos. Pelo contrário, o sistema de comércio internacional que estabelecemos após a Segunda Guerra Mundial foi, em parte, motivado pela crença das autoridades americanas de que o comércio, além de ser economicamente benéfico, era uma força para a paz e fortaleceria a democracia em todo o mundo. Eles provavelmente estavam certos e, de qualquer forma, era um objetivo nobre.

Agora, Trump está tentando usar tarifas para ajudar outro aspirante a ditador. Se você ainda achava que os Estados Unidos eram um dos mocinhos do mundo, isso deve lhe dizer de que lado estamos hoje em dia.

Por que digo que é megalomaníaco? O Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes. Veja para onde vão suas exportações:

fonte: Organização Mundial do Comércio

Essas exportações para os EUA representam menos de 2% do PIB brasileiro. Trump realmente imagina que pode usar tarifas para intimidar uma nação enorme, que nem sequer depende muito do mercado americano, a abandonar a democracia?

Então, como eu disse, perverso e megalomaníaco. Se ainda tivéssemos uma democracia em funcionamento, essa manobra do Brasil seria, por si só, motivo para impeachment. É claro que teria que ficar na fila atrás de todos os outros motivos.

De qualquer forma, não ignore isso. Estamos diante de mais um passo terrível na espiral descendente do nosso país.

Clique aqui para ler a íntegra da carta do governo Trump ao Brasil

Paul Krugman

é economista, vencedor do Nobel de Economia de 2008, autor de diversos livros e também desde 2000 colunista do The New York Times.

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