Existe um ditado mexicano que afirma que “dois erros não fazem um acerto”. Ele serve para mostrar que, por maior que tenha sido o erro cometido, não há justificativa para cometer outro erro na tentativa de corrigi-lo.

No caso da reforma judicial no México, o ditado foi completamente superado. Isso porque, embora a corrupção e o nepotismo no Poder Judiciário constituíssem um grave erro, a reforma que pretendia resolver esse problema acabou gerando uma série de novos erros, sem alcançar qualquer acerto.
Corrupção na Justiça
Comecemos pelo erro a ser corrigido: o sistema judicial mexicano, como toda a estrutura estatal, sofria com um problema sério de corrupção. Dado que o México ocupa a posição 140º lugar entre 180 países mais corruptos do mundo, seria ingênuo imaginar que o Poder Judiciário escaparia dessa estatística.
Era moralmente difícil sustentar que o Poder Judiciário não precisava de reformas. O órgão encarregado de disciplinar e sancionar seus membros corruptos, que dependia do próprio Poder Judiciário, destacou-se justamente por sua omissão.
Uma prova disso foi o caso de uma ministra da Suprema Corte de Justiça, que teve 100% de sua tese plagiada, segundo revelações da imprensa nacional e internacional. E não só a tese de graduação, a de doutorado também! Surpreendentemente, nem mesmo esse duplo plágio foi suficiente para que ela renunciasse ou fosse removida do cargo. O Judiciário a protegeu de tal forma que nem mesmo sua universidade de origem pôde cassar seu título de bacharel em direito, e, assim, afastá-la do cargo de ministra.
Essa foi a prova cabal de que o Poder Judiciário mexicano, além de corrupto, era intocável, pois os membros se protegiam entre eles mesmos. Por isso, o apelo do Judiciário para que a população saísse às ruas em sua defesa, diante da reforma, resultou em um fracasso retumbante. Quem defenderia isso? Só poucos.
Oportunismo para renovação no Judiciário
Esse foi o cenário perfeito para que os Poderes Executivo e Legislativo (ambos controlados pelo partido hegemônico no México) avançassem para acabar com o Poder Judiciário. Aproveitando-se de uma situação indefensável, decidiram “renová-lo”, especialmente por ele ter se oposto repetidas vezes a leis, reformas e decretos.

Para tanto, o governo teve uma ideia que, à primeira vista, parecia até razoável: substituir os juízes por meio de uma eleição democrática. Aqueles que desejassem permanecer poderiam se candidatar. Dessa forma, se o povo os considerasse bons juízes, votaria por sua permanência. Caso contrário, seriam demitidos pelo voto popular.
Ademais, para sustentar essa via do novo Poder Judiciário, o governo mencionava que, nos Estados Unidos, alguns juízes também eram eleitos.
Daí surgiu o primeiro erro da reforma: abrir a eleição em um país onde, diferentemente dos EUA, não existe uma ordem de advogados com exame obrigatório para o exercício da profissão. Nos Estados Unidos, é preciso passar pelo “Exame de Ordem” (bar examination), o que assegura um nível mínimo de qualificação, independentemente da universidade frequentada.
No México, por outro lado, há muitas instituições de ensino de reputação duvidosa que vendem diplomas para pessoas sem a menor qualificação. E muitos desses diplomados acabaram como candidatos na eleição judicial.
Confusão em sistema eleitoral
O segundo problema foi a complexidade da eleição: muitos candidatos em disputa, regras confusas e mal explicadas. Os eleitores precisavam escolher candidatos para 39 vagas diferentes. Nem mesmo os advogados compreendiam as regras e os procedimentos para votar.
Esse segundo problema levou ao terceiro: a baixa participação popular. Apenas 13 milhões de pessoas votaram. Para efeito de comparação, 60 milhões de eleitores votaram na última eleição presidencial.
Esse cenário, por sua vez, gerou o quarto problema: a baixa participação fez com que os candidatos apoiados pelo governo varressem a eleição. Eles contavam com o voto coordenado de militantes do partido no poder, que receberam instruções claras sobre como votar. Em muitos locais, e de forma vergonhosa, foram encontradas cartilhas impressas idênticas com os nomes dos candidatos indicados.
O mais inacreditável? Os nove vencedores para ocupar cargos na Suprema Corte eram justamente os indicados nas cartilhas. De um universo de 63 candidatos para ministros, os 9 escolhidos foram exatamente os 9 promovidos nessas cartilha. Coincidência? Difícil de acreditar.
E o quinto problema, talvez o mais grave: lembram-se da ministra que plagiou duas teses, uma na graduação e outra no doutorado? Aquela que usou o Poder Judiciário para impedir qualquer investigação sobre seus plágios? Pois ela foi eleita novamente, já que era uma das candidatas mais alinhadas ao regime.
Legitimação da corrupção
Essa é a prova definitiva do maior erro da reforma: ela não resolveu o problema da corrupção no Poder Judiciário. Apenas o legitimou, por meio de um processo supostamente democrático, que fortaleceu ainda mais a corrupção.
O único ponto positivo, se é que se pode chamar assim, é que ao menos o problema da corrupção foi exposto publicamente, e não se adotou uma postura passiva, como tantas vezes acontece. Embora dois erros não façam um acerto, não fazer nada diante de um problema nunca é a solução
Um dos efeitos concretos da reforma foi tornar autônomo o órgão responsável por disciplinar e punir os juízes. Ele não está mais subordinado ao Poder Judiciário. Com isso, é necessário continuar trabalhando por um sistema de justiça melhor, com menos corrupção e menos nepotismo. E como as novas vagas de juízes continuam abertas para futuras eleições, os eleitos de hoje não estarão blindados das críticas populares, como estavam seus antecessores.
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