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Opinião

Caso Vitória: mulheres e o permanente estado de medo

Lido todos os dias com casos de violência extrema. Recentemente, fiz um júri em que o pai e mãe haviam matado o próprio filho, um bebê de cinco meses, por espancamento. Ainda assim, desde a primeira vez que li sobre o “caso Vitória”, fiquei imensamente comovido.

Reprodução

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Não entendi bem a razão de esse crime, em especial, não sair da minha mente, levando em conta que feminicídios não são nada raros no Brasil. Pensei que poderia ser a forma como o corpo da menina de 17 anos foi encontrado. Dilacerado, usado, torturado, desfigurado. Ou o local do fato, muito próximo de onde moro. Poderia, ainda, ser o ar de mistério envolvendo o delito, aparentemente sem motivação clara.

No entanto, nenhuma dessas características é singular, tratando-se de crimes contra a mulher.

Então, por que bem esse caso chamou tanto minha atenção?

Cheguei a uma conclusão: esse delito tornou transparente, para mim, como as mulheres brasileiras se sentem todos os dias, andando pelas ruas, indo até o trabalho, saindo de casa, ou seja, vivendo. É o que chamei de “permanente estado de medo”.

E sim, nunca havia entendido integralmente a dimensão desse estado de espírito tão mencionado por elas, mesmo lidando com casos de violência doméstica contra a mulher todos os dias.

Explico.

Vitória Regina, ao sair de seu trabalho e esperar seu ônibus, mandou áudios para sua amiga dizendo que estava com medo, pois dois homens estavam no ponto de ônibus com ela. Às 23h53, sobe no ônibus. Percebe que um deles também subiu. O medo continua, em razão disso. Informa a amiga desse fato. Desce do ônibus sozinha e nenhum dos homens desce no mesmo ponto. Vitória diz que “então tá de boaça, não tem problema nenhum”. Ela se acalma.

O perigo, materializado na forma de homens desconhecidos, aparentemente, teria ido embora.

Ocorre que a menina, após descer do ônibus, precisava caminhar a pé até sua casa, aproximadamente a 1 km dali. Seu pai costumava buscá-la no local. Neste dia, o carro estava na oficina.

Assim, o medo, desfeito poucos minutos atrás, retorna, às 23h59. Vitória manda outro áudio para a amiga: “Passou uns cara no carro, e eles falaram: e aí, vida, tá voltando? Ai meu Deus do céu, vou chorar. Saiu até lágrima dos meus zoio agora, até me arrepiei. Acontece essas coisas eu não consigo correr, eu paraliso, eu fico parada”. Segundos depois, ela se acalma um pouco, pois o carro havia se distanciado.

A partir desse momento, não há mais comunicação da vítima.

Spacca

Spacca

Logo após, presume-se que Vitória passou por situações de terror. O medo a que foi submetida, desde quando sumiu, é difícil descrever ou imaginar.

O que até agora foi apurado é que ela teria sido obrigada a entrar em um carro.

Foi sequestrada, torturada e morta.

Mas uma coisa é certa. Somente nesse minúsculo recorte dos momentos que antecederam o crime, em menos de 15 minutos, Vitória sentiu, por pelo menos três vezes, medo profundo, e chorou antes mesmo de saber seu destino.

E um medo completamente justificado.

Alerta permanente

Uma amiga, também juíza, me relatou recentemente que precisou para em um posto de gasolina na estrada, ao voltar do trabalho, perto das 19h. Estava escuro. Disse que parou o veículo no estacionamento do posto e ao lado havia um carro com um homem dentro. Somente reparou no homem depois que estacionou o carro. Refletiu se deveria sair do carro. Mas estava com pressa, decidiu sair ali mesmo, sem mudar de vaga. Me falou que se arrependeu depois, ficou com medo de voltar para o carro. Entrou rápido e trancou as portas no mesmo momento. Nada aconteceu. Foi embora.

É uma situação em que eu jamais sentiria medo. Por sinal, não sentiria nada, seria como acender a luz apertando o interruptor. Um ato mecânico.

No entanto, o estado permanente de alerta e de medo atinge todas as mulheres, independentemente de idade, classe social, etnia.

Vitória, de 17 anos, da área rural de Cajamar, com as mensagens e áudios que mandou para sua amiga, me ensinou como o estado de medo que as mulheres são submetidas diuturnamente afeta suas vidas, rotinas e sensações.

Sentir medo é paralisante, como disse Vitória.

A partir da minha visão — míope — de mundo, não tinha a real dimensão disso. Possivelmente nunca venha a ter completamente.

A reflexão advinda desse monstruoso caso é tomarmos consciência sobre esse estado permanente de medo que existe somente em desfavor das mulheres. Também, acredito que é obrigação de todos lutarmos para que esse medo não seja normalizado. Especialmente dos homens, dado que os medos aqui examinados sempre estavam intrinsecamente ligados com a existência deles — de nós — no ambiente.

Como faremos isso? Ainda não sei, mas consultarei quem entende verdadeiramente do tema para tratar disso em um eventual próximo texto.

De qualquer forma, essa reflexão foi importante em minha vida e queria compartilhá-la. Me tornou mais sensível e mais empático para a questão. Espero que essas considerações sejam relevantes na vida de mais alguém.

Justiça por Vitória.

Davi Mancebo Coutinho Fernandes

é juiz de Direito na Circunscrição Judiciária de Jundiaí (TJ-SP), graduado e pós-graduado na Universidade Estadual de Londrina (UEL).

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