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Opinião

Afinal, para quem serve uma operação com mais de 100 mortos?

A megaoperação policial deflagrada nos Complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, marcou um recorde sombrio: foi a mais letal da história do estado. O número de mortos ultrapassou a centena.

Eusébio Gomes/TV Brasil

Eusébio Gomes/TV Brasil

Nas redes sociais e nas ruas, o que se viu foi um país dividido entre aplausos e espanto. Parte da população — exausta com o domínio do crime e o medo diário — saudou a ação como uma resposta tardia do Estado. Outra parte se perguntou: qual o verdadeiro objetivo de uma operação desse porte, se o Comando Vermelho segue operando normalmente?

Antes de tudo, é preciso deixar claro: este texto não é uma crítica às forças policiais. Policiais cumprem ordens, colocam a vida em risco e lidam com uma guerra que o Estado insiste em travar de forma desigual e repetitiva.

Tampouco se trata de condenar a população que vibra com a promessa de “retomada do território”. O que se questiona aqui é a inteligência e a finalidade política dessas ações. Porque, se cem mortos não enfraquecem uma facção, é preciso perguntar: a quem interessa a contagem de corpos?

Espetáculo da força

Hannah Arendt, em seu ensaio clássico Sobre a Violência, faz uma distinção essencial: o poder e a violência não são sinônimos.

Para ela, o poder nasce do consentimento, da legitimidade e da ação conjunta entre governantes e governados. A violência, ao contrário, é sempre instrumental — um meio usado quando o poder vacila.

“Onde o poder é absoluto, a violência desaparece. Onde a violência irrompe, o poder já fracassou”, escreveu Arendt.

Sob essa lente, uma operação que mobiliza milhares de agentes, helicópteros e blindados, mas que pouco altera a estrutura do crime organizado, não demonstra poder — demonstra fragilidade política.

É a tentativa de reafirmar, pela força, uma autoridade que não consegue se sustentar pelo convencimento, pela política pública ou pela justiça.

Spacca

Spacca

A cada novo confronto, o Estado repete o ritual: entra, mata, ocupa por alguns dias e sai. O tráfico reorganiza-se, a população volta a viver sob o medo e o ciclo se reinicia. É um teatro caro, sangrento e previsível.

E, no entanto, parece funcionar — não para o combate ao crime, mas para a opinião pública.

Política do resultado imediato

Operações espetaculares produzem uma sensação de eficiência instantânea. O cidadão comum, sufocado pela violência cotidiana, precisa ver ação, movimento, resposta.

E é justamente esse efeito visual — o helicóptero, o blindado, o noticiário, o número de mortos — que gera dividendos políticos.

Não é coincidência que ações de grande impacto ocorram em momentos de desgaste de imagem de governadores ou secretários de segurança. Em contextos eleitorais ou de baixa aprovação, uma operação “histórica” serve para reposicionar o discurso: o Estado volta a parecer forte, decidido, presente.

Mas é uma força performática — e não transformadora.

Como diria Maquiavel, a política exige pragmatismo, isto é, escolher meios que de fato conduzam aos fins desejados. Se o fim é reduzir o poder do crime organizado, não há pragmatismo em repetir estratégias que fracassam há décadas.

Matar soldados de facção é fácil; desarticular o fluxo de dinheiro é o que realmente atinge o coração do crime.

Exemplo do PCC e ausência de operações financeiras

Recentemente, o país acompanhou a operação “carbono oculto”, que mirou o braço financeiro do PCC — um esquema de lavagem de dinheiro bilionário. Essa operação não produziu imagens de tiroteios, mas teve impacto real: atingiu o capital, o combustível que sustenta a engrenagem criminosa.

Por que, então, o mesmo tipo de investigação não se vê com frequência contra outras facções?

Porque investigar o dinheiro é lento, complexo e, muitas vezes, politicamente perigoso.

Rastrear fluxos financeiros exige cruzar dados bancários, enfrentar empresários, doleiros e, em alguns casos, figuras com trânsito em esferas políticas.

Já o confronto armado é mais simples, mais visível e, acima de tudo, mais vendável.

A verdade é que o crime não sobrevive porque tem armas. Sobrevive porque tem financiadores, lavadores, cúmplices de colarinho branco — os mesmos que raramente aparecem nos noticiários de operações letais.

Enquanto se mata na favela, o dinheiro circula em contas no exterior e em empresas com fachada legal.

Perspectiva da justiça

John Rawls, filósofo da justiça, defendia que uma sociedade justa é aquela cujas instituições básicas garantem igualdade de oportunidades e proteção aos direitos de todos.

Para ele, a justiça não é apenas punir o mal, mas corrigir as condições que o produzem.

Uma política de segurança que só atinge o elo mais fraco — os jovens das comunidades, facilmente substituídos no tráfico — não é justa, nem eficaz.

É uma política que administra o sintoma, mas não enfrenta a causa.

Rawls lembraria que a verdadeira segurança nasce da equidade institucional: educação, emprego, saúde, oportunidades.

Sem isso, a violência estatal vira apenas mais uma forma de injustiça.

Paradoxo da segurança

Há um paradoxo cruel em curso: quanto mais o Estado mata, mais inseguro o cidadão se sente.

Não há paz duradoura que possa brotar de cem corpos.

A cada operação, a mensagem transmitida é dupla: de um lado, o Estado mostra poder de fogo; de outro, mostra sua incapacidade de construir paz.

E quando a paz não vem, o ciclo recomeça — até a próxima “operação histórica”.

A repetição dessas ações revela que a segurança pública, no Brasil, se tornou refém da política do espetáculo.

Cada operação é uma narrativa pronta para o horário nobre: o inimigo está nas favelas, o herói veste farda, o governador aparece em coletiva, e o problema segue igual — ou pior.

O que de fato queremos?

Cem mortos não enfraquecem uma facção, mas fortalecem a descrença na inteligência do Estado.

Uma sociedade que confunde violência com segurança está fadada a viver em guerra permanente.

O verdadeiro desafio do Rio — e do Brasil — é romper esse círculo.

É investir em inteligência, investigação financeira e políticas de longo prazo, e não em operações que se esgotam no noticiário.

A filosofia de Arendt nos lembra que o poder legítimo nasce do consentimento, não da força.

Rawls nos ensina que a justiça começa na estrutura básica das instituições.

E Maquiavel, o realista de Florença, nos advertiria que não há pragmatismo em repetir o erro.

Se o fim é a paz, é preciso escolher meios que a tornem possível.

O resto — por mais ruidoso, por mais sangrento — é apenas encenação.

Frederico G. Fleischer

é advogado e professor universitário.

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