Recebo muitas mensagens de leitores da coluna. Vejamos uma que simboliza a angústia contemporânea:
“Pensei em comentar o texto no próprio site da revista CONJUR, mas desisti porque fica meu nome completo lá. Melhor é não ficar visado.
A realidade, nua, crua e triste, é que as diretivas internas dos TJs são para incentivar o uso da IA. Só se fala disso. São cursos, palestras, guias etc.
Os próprios servidores dizem ‘faço pelo copilot o resumo do processo, e peço para a IA fazer uma sentença como se fosse assessor’. Bingo, como o senhor diria, professor.
Questionei alguns sobre eventuais erros, jurisprudências fictícias etc. A resposta foi a de que essa parte era ‘manual’. E se a IA erra, pergunto. Faz parte, respondem. ‘Para isso existem os recursos. É do jogo’, concluem.
Professor, o Judiciário virou isto: números, produtividade. No lugar em que se trabalha com processos, já não se gosta da matéria prima: os processos. ‘Livremo-nos deles logo’.
Muita gente compactua da minha indignação. Trata-se de produtivismo. Um taylorismo. Antigamente era de um jeito. Já hoje a bola está com a IA. O pior, a meu ver, é que essa busca por produtividade, ainda que malfeita, passível de recursos por erros evitáveis, está superando qualquer busca por uma entrega minimamente razoável para o jurisdicionado.
Claro, o jurisdicionado é sempre bastante exaltado e reverenciado nas páginas institucionais do poder judiciário, em palestras sobre direitos humanos, e afins, mas esquecido, ocultado atrás de números (seja dos autos, da produtividade ou o que for).
Em palestras de ministros, ouve-se coisas como ‘senhor caso concreto’. ‘Distinguishing é direito fundamental’. Mas, como o senhor vem dizendo, o dispositivo que trata do distinguishing é mais desobedecido. Na prática, os casos concretos ficam absolutamente escondidos pelas teses ou temas.
Esquece-se do ser humano; esquece-se do caso concreto; é tudo tese, como nos tais ‘precedentes’, nascidos para vincular, à revelia do caso concreto, que pouco importa.
É isso, professor. Brincando com o que o senhor costuma dizer, ‘I rest my case’.”
Recebo seguidamente esse tipo de desabafo. Resolvi publicar esse, face à fidelidade do leitor. Ele está coberto de razão. Hermes, vou chamá-lo assim, coloca o dedo na ferida. E isso que ele não falou do paradoxo da IA: o primeiro grau julga com IA; o causídico recorre e, no segundo grau, quem julga é a IA. Qual será o resultado? Pior: como fazer subir um REsp disso? E como escapar da IA que examinará o recurso?
O que sobra para os causídicos? Dia desses me contaram que, em uma palestra sobre precedentes, fez-se ironia com os críticos, dizendo-se que tudo isso que se objeta à “cultura de precedentes” é blá, blá, blá. Enfrenta-se as críticas com onomatopeias. Difícil a vida da doutrina.
A chance de diálogo é quase zero.
Mas seguiremos peleando. Só pararei no dia em que me convencerem que estou equivocado. Quero que me convençam que precedentes são feitos para o futuro e que jurisprudência pode dispensar o caso concreto. Em síntese, pararei no dia em que me mostrarem — e provarem, epistemologicamente — que teses são precedentes. Ou que precedentes são teses. Naquilo que se entende por precedentes.
E, agora, como disse o leitor Hermes, há uma tempestade perfeita: o precedentalismo aliado ao uso da IA.
Aliás, a IA “apronta” todos os dias. A última foi a do sistema Gaia, do RS. Segundo o jornal Zero Hora, o robô andava dando dicas de como se compra armas e ensinava sonegar impostos. E outras coisas. Agora o “admoestaram” e parece que vai se comportar. Até a próxima alucinação.

Em breves dias lanço, pela Editora Contra Corrente, o livro Robô Não Desce Escada e Trapezista Não Voa – Os Limites dos Aprendizes de Feiticeiro. Bom, robôs ainda não descem escadas (dizem); já o trapezista quando se acha tão perfeito pensa que voa e morre… Assim é a IA.
E os aprendizes de feiticeiro? Goethe sacou isso muito bem. Até Walt Disney tratou do tema em um episódio em que Mickey usa a vassoura encantada (que se volta contra ele). Assim é a IA…! Que até mesmo se revolta e ensina como sonegar impostos…! A história do precedentalismo também começou assim. Hoje sabemos bem o significado de teses gerais e abstratas. Ou não?
A propósito, um dos capítulos do livro fala de um texto de Nick Bostrom chamado Superinteligência: caminhos, perigos e estratégias para um novo mundo. Nick Bostrom abre a obra trazendo a fábula inacabada dos pardais. Ei-la:
Começa na estação de construção dos ninhos, em que, após longos dias de trabalho árduo, os pardais se sentaram sob o luar, relaxando e gorjeando. Eis que um comenta: “Nós somos tão pequenos e fraquinhos… Imagine como a vida seria fácil se tivéssemos uma coruja que nos ajudasse na construção de nossos ninhos!”.
Disse o outro pardal, dando uma baforada no seu charuto: “Sim… E nós poderíamos ter a ajuda dela para cuidar dos pardais mais velhos e dos mais novos”. Acrescentou um terceiro: “Ela poderia nos aconselhar e ficar de olho no gato do vizinho”.
Foi então que o pássaro mais velho disse: “Vamos enviar olheiros para procurar em todos os lugares uma corujinha abandonada, ou talvez um ovo. Um filhote de corvo ou de doninha também serviria. Isso poderia ser a melhor coisa que já nos aconteceu, pelo menos desde a abertura do Pavilhão do Grão Ilimitado, no quintal ao lado”. Foi aplaudido de pé.
Final: conta-se que o bando estava radiante e os pardais começaram a gorjear com toda a força. Apenas Scronkfinkle, o pardal rabugento e de um olho só, não estava convencido da prudência daquela empreitada. Disse ele:
“Será, com certeza, nossa destruição. Não deveríamos pensar um pouco sobre a arte da domesticação e do adestramento das corujas ou dos corvos antes de trazer criaturas desse tipo para o nosso meio?”
Bingo! Scronkfinkle estava certo, mas não foi ouvido pelo bando. A coruja se banqueteou. Por isso, é preciso primeiro saber adestrar corujas antes de trazê-las como solução.
A fábula de Nick Bostrom oferece uma reflexão rica para refletir sobre os desafios e riscos do uso indiscriminado da inteligência artificial na práxis jurídica.
E serve também para falar dos perigos de termos precedentes que servem de estoque de normas para o futuro. Não é o legislativo que deve fazer isso?
Outra vez: o que sobra para os causídicos?
Como se diz no Rio Grande Sul, é duro nadar de poncho e mergulhar de guarda-chuva. Essa é a tarefa diária do advogado. Nadar de poncho. No mínimo. Enfrentar os robôs, as súmulas (7, 182 etc.), as teses aplicadas subsuntivamente, a ficta divisão entre “precedentes qualificados e persuasivos” e assim por diante. Nadar de poncho não é fácil.
Precisamos falar sobre isso.
Assim como precisamos falar sobre segurança pública, depois do que ocorreu no Rio de Janeiro.
O problema não é a IA, mas o seu uso. Normal! Não é assim também com o YouTube e tantas outras ferramentas tecnológicas. Ficar demonizando a IA com analogias lúdicas não ajuda em nada. Aliás, a maioria dos tribunais utiliza IA desde 2018. Lênio passou a falar de forma mais incisiva há menos de um ano. São quatro anos de atraso. Tudo bem que queira divulgar o livro novo. Enfim, demonizar uma ferramenta tecnológica gera barulho, mas não contribui em absolutamente nada. Quem de fato está preocupado está trabalhando pela regulamentação, assim como ocorreu na União Europeia no ano passado.
Concordo com o prof: advogado sofre..
O jornal Nacional denunciou a entrega de cartões na porta do INSS. E agora? Como vamos conseguir clientes? Esperar cair do céu?
Alô, Prof, faça-nos um lobby aí...
Outro caso: o Jeffrey atacou de novo no Supremo... É preciso ter cuidado com gente que tem trejeitos.. aponta o dedo e tudo mais.. essa pirotecnia é perigosa pra enganar.. idiotas!
Hipérbole perfeita para retratar a vida de causídico. Principalente a minha, que iniciei ao tempo da Justiça 1.0, tudo analógico, tudo físico e onde a leitura, principalmente do processo, era obrigação. Quando, na audiência de instrução e julgamento, o magistrado ditava a sentença ao datilógrafo.
É realmente ótimo ver um texto bem redigido! Parabéns a pessoa que mandou a mensagem.
Existe algo muito mais pueril e prejudicial. O CPC garante a rapidez na solução dos processos judiciais e obriga os juízes a praticarem atos num determinado prazo. Os juizes raramente cumprem esse prazo. Inundado por reclamações fundamentadas na violação do art. 4 do CPC e no descumprimento do prazo para prática de atos judiciais, o CNJ decidiu que um atrazo de 100 dias é considerado admissível. Nenhum juiz pode ser punido se demorar 100 dias para, por exemplo, determinar que o cartório providencie o mandado para cumprir uma liminar que foi concedida. Até aí tudo bem... Mas agora, com o uso de IAs esse padrão pode ser incorporado no sistema automatizado de andamento dos processos pelos gerentes de TIs. Voilà... problema resolvido. Somente após 99 dias o funcionário do cartório será realmente alertado de que deve fazer algo no processo para evitar que sua excelência seja representada no CNJ com grande possibilidade de levar um puxão de orelha. A IA vai solucionar todos os problemas dizem os barões dos dados. Eles só não dizem quem serão os prejudicados pelas soluções oferecidas àqueles que consomem seus produtos.
Lá em casa se usa escorredor de macarrão. É um objeto útil, deixa ir a água que não queremos e segura o macarrão que queremos. A utilidade do judiciário é para dentro. Serve a seu público. Magistrados de todos níveis servidores e advogados. O mundo "lá fora" é um detalhe de baixo interesse.
Como na canção:
"A minha alucinação é suportar o dia a dia
E meu delírio é a experiência com coisas reais"...
A alucinação das teses sendo precedentes um dia cederá espaço às coisas reais do caso concreto?
Excelente texto. O Professor Lênio é basicamente um John Connor do Direito.
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