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Opinião

The New York Times: ‘O Brasil desafiou Trump e venceu’

*artigo publicado originalmente no The New York Times

“Que pena.”

Foi uma resposta reveladora do presidente Trump neste sábado (22/11), quando soube por repórteres que seu antigo aliado, o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, acabara de ser preso.

Ele teve alguma ideia?
“Não”, respondeu Trump . “Acho uma pena.”

Que diferença alguns meses podem fazer.

Ricardo Stuckert

Ricardo Stuckert

Em julho, Trump enviou uma carta furiosa ao então presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, exigindo que as autoridades retirassem as acusações de que Bolsonaro havia tentado um golpe de Estado. Trump impôs tarifas de 50% sobre as importações brasileiras e sanções a um ministro do Supremo Tribunal Federal para tentar manter Bolsonaro — um político de direita às vezes chamado de Trump dos Trópicos — fora da prisão.

Cinco meses depois, Trump praticamente admitiu a derrota.

Jair Bolsonaro, de 70 anos, está preso, cumprindo pena de 27 anos . E Donald Trump — após um encontro cordial com o presidente Lula — acaba de remover as tarifas mais significativas contra o Brasil.

O resultado destaca o contraste impressionante nos destinos de Trump e  Bolsonaro, depois de ambos tentarem se manter no poder após perderem uma eleição.

É também um exemplo claro das limitações da capacidade de Trump de dobrar governos estrangeiros à sua vontade e da sua disposição em abandonar aliados e ficar do lado de um rival quando considera que isso lhe é vantajoso.

Sua intervenção no Brasil foi uma tentativa extraordinária de influenciar o caso jurídico mais importante de um aliado em décadas, utilizando algumas das ferramentas mais poderosas à sua disposição. Mas as instituições brasileiras o ignoraram completamente. A aparente capitulação de Trump demonstra que seus esforços foram basicamente em vão.

Na verdade, pode-se argumentar que as tarifas brasileiras tiveram o efeito contrário. Elas aumentaram os preços da carne bovina, do café e de outros produtos nos Estados Unidos, justamente quando a Casa Branca enfrenta crescente pressão para reduzir os preços para os americanos. Lula — um líder da esquerda latino-americana — saiu do conflito com Washington ainda mais forte politicamente do que quando entrou.

Muitos analistas acreditam que o Supremo Tribunal Federal do Brasil aumentou a pena de Bolsonaro devido à intervenção de Trump. E o filho de Bolsonaro, Eduardo — um dos congressistas mais proeminentes do Brasil e potencial sucessor político do pai — agora enfrenta acusações criminais por seus esforços para influenciar a Casa Branca no caso.

Quando Trump interveio, Bolsonaro foi visto como um grande vencedor. Agora está claro que ninguém envolvido perdeu mais.

Bolsonaro foi preso inesperadamente no sábado, após as autoridades receberem um alerta de que ele havia adulterado a tornozeleira eletrônica que usava em prisão domiciliar. (Ainda está esgotando os recursos.) O ex-presidente disse à polícia que tentou queimar o dispositivo com um ferro de solda. Mais tarde, ele culpou a medicação que lhe causou alucinações.

Alexandre de Moraes, o ministro do Supremo Tribunal Federal responsável pelo caso, ordenou a prisão de Bolsonaro por considerá-lo um risco de fuga, observando que Bolsonaro morava perto da Embaixada dos Estados Unidos, onde poderia ter solicitado asilo. (o New York Times revelou que Bolsonaro dormiu na Embaixada da Hungria no ano passado, numa aparente tentativa de obter asilo.)

Após a condenação de Bolsonaro, autoridades americanas prometeram retaliação. Mas ela nunca aconteceu

Em vez disso, Trump iniciou uma relação com o adversário de Bolsonaro, Lula da Silva.

Em seu discurso nas Nações Unidas em setembro, Donald Trump improvisou sobre um texto preparado no qual criticava o processo contra Bolsonaro, dizendo que ele e Lula tiveram uma “ótima química” quando se encontraram momentos antes.

Um mês depois, Trump e Lula se reuniram para conversar. Antes do encontro, um repórter perguntou a Trump sobre Bolsonaro. “Eu sempre achei que ele fosse honesto, mas…”, respondeu Trump, deixando a frase incompleta. “Ele passou por muita coisa.”

Após a reunião, Trump mencionou apenas . Lula : “Ele é um cara muito enérgico, na verdade. Fiquei muito impressionado”, disse. Em seguida, desejou feliz aniversário ao presidente brasileiro, que completou 80 anos no dia do encontro. Lula busca um quarto mandato no próximo ano.

Na quinta-feira passada (20/11), Trump assinou uma ordem executiva removendo as tarifas mais significativas que havia imposto para proteger Bolsonaro, incluindo as tarifas sobre a carne bovina e o café brasileiros, citando progresso nas negociações com Lula. Os preços da carne bovina e do café subiram acentuadamente nos Estados Unidos.

Como parte das negociações, analistas esperam que Washington busque maior acesso às reservas brasileiras de minerais críticos, incluindo metais de terras raras. O governo Trump já incluiu essa exigência em acordos com outros países da América Latina.

Ainda assim, Washington não suspendeu as sanções contra o ministro Moraes , o juiz que processou Bolsonaro. As táticas agressivas do ministro para processar Bolsonaro e seus aliados — incluindo a ordem para que as redes sociais bloqueassem pessoas com pouca margem para recurso — levantaram preocupações sobre se eles próprios representam uma ameaça à democracia.

Neste domingo (23/11), Lula foi questionado sobre a reação de Trump à prisão de Bolsonaro. O presidente minimizou a questão: “Trump precisa entender que somos um país soberano”.

Jack Nicas

é chefe da sucursal do The Times na Cidade do México, liderando a cobertura do México, América Central e Caribe. Ex-correspondente no Brasil, acompanha a relação entre o presidente Trump e Bolsonaro desde 2021.

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