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Opinião

Atlas e o fardo das instituições globais

Atlas, condenado por Zeus a carregar o céu sobre os ombros, simboliza a fadiga das estruturas que sustentam o equilíbrio do mundo. Assim parecem as instituições internacionais: criadas para evitar o retorno ao caos, mas hoje ameaçadas de irrelevância. O que antes era triunfo da cooperação tornou-se sinal de fragilidade.

Spacca

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O Direito Internacional Econômico nasceu da convicção de que a estabilidade global exigia coordenação. O FMI, o Banco Mundial, a ONU e, mais tarde, a OMC foram desenhados para garantir previsibilidade. Charles Kindleberger demonstrou que a Grande Depressão não se agravou apenas pela crise financeira, mas pela ausência de uma liderança capaz de prover bens públicos internacionais. Daí a lição central: sem árbitros legítimos, prevalece a lei da selva.

Esse arranjo do século 20, porém, entrou em erosão. O Conselho de Segurança da ONU tornou-se refém de vetos cruzados. A OMC permanece paralisada pelo bloqueio de seu órgão de apelação. FMI e Banco Mundial sofrem resistência em países emergentes, que veem em seus condicionantes a perpetuação de assimetrias. Já a governança climática não consegue conciliar urgência ambiental e desigualdade social, revelando-se lenta e ineficaz.

As consequências econômicas são imediatas. A ausência de árbitros confiáveis amplia riscos regulatórios, dificulta o comércio e encarece investimentos. Relatório da OCDE mostra que disputas tarifárias entre potências corroem cadeias globais de valor. O Banco Mundial estima que incertezas institucionais podem reduzir em até 5% o PIB acumulado das economias emergentes nesta década. Para o Brasil, dependente da previsibilidade normativa e do acesso a mercados diversificados, trata-se de um obstáculo adicional ao desenvolvimento.

Lei da selva pode deixar de ser metáfora

O contraste internacional é evidente. A União Europeia construiu mecanismos internos robustos de supervisão — Corte de Contas Europeia, Banco Central Europeu —, enquanto a América Latina permanece refém de arranjos regionais frágeis e descontinuados. Essa diferença mostra como instituições sólidas são decisivas para sustentar a confiança e amortecer choques.

O dilema jurídico-econômico é nítido: quanto mais frágil a cooperação global, maior a tentação de soluções unilaterais. Tarifas, subsídios, manipulação cambial e sanções extraterritoriais são sintomas de um mundo que regride à lógica da força. Para empresários, o resultado é um ambiente mais volátil, em que decisões de investimento dependem da geopolítica tanto quanto da economia.

Atlas segue sustentando o céu, mas seus ombros vacilam. Se as instituições internacionais não recuperarem legitimidade e eficácia, o peso recairá sobre cada país isoladamente. E, sem arbitragem confiável, a lei da selva deixará de ser metáfora para tornar-se a realidade concreta da economia global. O Brasil, que aspira protagonismo, não pode assistir de fora: precisa contribuir ativamente para a reforma dessas estruturas, sob pena de ser mero espectador do jogo que definirá o futuro do comércio, do clima e do desenvolvimento.

Camila Funaro Camargo Dantas

é CEO da Esfera Brasil e do Instituto Esfera de Estudos e Inovação.

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