Há uns 20 anos, em um congresso daqueles grandes (bons tempos), estava eu na primeira fila esperando minha vez de fazer a conferência e ouvi um jovem pulando no palco, dizendo em uma imitação aos pastores pentecostais: “Não há verdade; tudo é relativo”. Ele vestia se enquadrava no kit carreira jurídica (terno Hugo Boss e Audy A4). Recém fizera mestrado em um de tantos mestrados espalhados em Pindorama.
Foi aplaudido freneticamente. No final de sua vibrante fala, ainda declamou parte do poema de Campoamor: “En este mundo traidor/nada es verdad ni mentira/todo es según el color/del cristal con que se mira”. Bingo. Fecho de ouro.
Quando iniciei minha conferência, disse: “Não acreditem em nada do que o jovem falou. Afinal, se tudo é relativo, se não há verdades, isso tudo que ele acabou de dizer não é verdade. Se não é verdade, é mentira. Logo, ele é um mentiroso”. Calou fundo. Poucos entenderam.
Expliquei, então, por meio de um pequeno escorço histórico, o caminho dos gregos até nossos dias. Do Crátilo até Gadamer. Se quer dizer algo sobre um texto (evento), deixe primeiro que o texto lhe diga algo”. Eis o resumo. O restante desta coluna ajudará a entender o que quis e quero dizer.
Umberto Eco sempre foi um ferrenho crítico do relativismo, o que me faz gostar ainda mais de suas obras. Lembro que em 1984 passei um semestre todo esmiuçando O Nome da Rosa, no seminário de Teoria do Direito ministrado por Luiz Alberto Warat (no mês passado visitei a Abadia de Melk, na Áustria, de onde saiu o personagem Adso). Bons tempos aqueles. Lia-se livros e havia tempo para discutir. Sentávamo-nos ao sol no inverno…lendo livros.
Sigo com Eco. Em vários livros e textos isso aparece claramente. Na obra mais recente, publicada em 2019 (post-mortem), Crônicas de Uma Sociedade Líquida, Eco pergunta: O que quer dizer “relativismo”?

– Que nossas representações do mundo não esgotam sua complexidade, mas são sempre visões perspectivas, contendo cada uma um germe de verdade? E responde: existiram e existem filósofos cristãos que sustentaram esta tese.
– Que estas representações não devem ser julgadas em termos de verdade, mas em termos de correspondência a exigências histórico-culturais? Eco responde: é o que sustenta, por exemplo, um filósofo como Rorty em sua versão do “pragmatismo”.
– Que aquilo que conhecemos é relativo ao modo como o sujeito o conhece? E diz Eco: estamos, com isso, no velho e caro kantismo.
– Que qualquer proposição só é verdadeira no interior de um dado paradigma? Chama-se “holismo”, diz.
– Que os valores éticos são relativos às culturas? Isso começou a ser descoberto no século 17.
– Que não existem fatos, apenas interpretações? É o que dizia Nietzsche.
– Pensamos na ideia de que, se não existe Deus, tudo é permitido? Estamos no niilismo dostoievskiano.
Mas deveria ficar claro, segue Eco, que, se alguém é relativista no sentido kantiano, não o é no sentido dostoievskiano (o bom Kant acreditava em Deus e no dever); o relativismo nietzschiano tem pouco a ver com o relativismo da antropologia cultural, pois o primeiro não acredita nos fatos e o segundo não duvida deles; o holismo à moda de Quine é firmemente ancorado num sadio empirismo, que deposita grande confiança nos estímulos que recebemos do ambiente e assim por diante.
Em suma, parece que o termo “relativismo” pode se referir a formas de pensamento moderno muitas vezes opostos entre si e algumas vezes são considerados relativistas pensadores solidamente ancorados a um profundo realismo e se diz “relativismo” com o ardor polêmico com o qual os jesuítas oitocentistas se referiam ao “veneno kantiano”. Mas se tudo isso é relativismo, então só existem duas filosofias que escapam completamente desta acusação e seriam um neotomismo radical e a teoria do conhecimento no Lenin de Materialismo e empiriocriticismo. Estranha aliança, conclui Eco.
Em outro texto, Eco resume a temática fazendo três afirmações muito diferentes entre si:
não existem fatos, apenas interpretações;
conhecemos todos os fatos por meio de nossa interpretação;
a presença dos fatos é demonstrada pelo fato de que algumas interpretações realmente não funcionam e, portanto, deve existir alguma coisa que nos obriga a descartá-las.
O relativismo radical só se manifesta quando se aceita a afirmação número (i) — para a qual, digam o que disserem, Nietzsche se inclinava perigosamente. Quem, ao contrário, aceita a afirmação número (ii) diz uma coisa óbvia. É natural que, ao ver uma luz no fundo de um gramado, à noite, preciso realizar um esforço interpretativo para decidir se é um vaga-lume, o brilho de uma janela distante, de um sujeito acendendo um cigarro ou até de um fogo-fátuo e assim por diante. Mas, e aqui vai o enunciado III, se por acaso resolver que se trata de um vaga-lume a dez metros de distância e vá até lá para tentar pegá-lo, descobrindo ao chegar ao fim do gramado que, por mais que siga adiante, a luz permanece distante, sou obrigado a descartar a interpretação “vaga-lume” como equivocada (talvez me incline para a luz distante, mas depende). Em todo caso, estou diante de uma coisa que é independente da minha interpretação e a torna insustentável. Este algo que desafia minha interpretação é o que chamo de “fato”.
E encerra: os fatos são aquelas coisas que resistem às minhas interpretações. As ideias sobre os fatos não dizem respeito apenas à natureza, mas também aos textos. Os fatos são aquelas coisas que, assim que os interpretamos de modo equivocado, dizem-nos que não iremos adiante se insistirmos nesse caminho. Como definição dos fatos, esta pode descontentar muita gente, no entanto, os filósofos e também os cientistas procedem desta maneira. Quando se trata de ir à Lua, a interpretação de Galileu funciona melhor que a de Ptolomeu.
Sempre tenho trazido essa discussão para o direito. Há um conjunto de teses relativistas que povoam o imaginário jurídico. É a tese mais fácil. Descompromissada. As formas de relativismo são tentações irresistíveis. Por vezes, o jurista tenta disfarçar o relativismo dizendo “não acredito em verdade absoluta, só acredito em verdade relativa”. O que seria isso? O que seria o livre convencimento nesse cenário? O motivado, que vem depois de que o convencimento já esteja “feito”, não seria apenas um adereço, um discurso justificador do “decido e depois fundamento”, problemática que está muito forte na era dos prompts. Dá-se um prompt e a IA encontra a justificativa.
Eis minha homenagem ao grande Umberto Eco. Meu preferido é o O Nome da Rosa; mas tem Kant e o Ornitorrinco. E o que dizer de Nos Ombros de um Gigante? Neste último Eco volta a “brincar” com o conceito de “nada” e “niilismo”, que ele chama de hermenêutica selvagem. Se só existem interpretações, Nietzsche não seria ele mesmo, só uma interpretação?
Se você tiver convicção de que aquela parede tem uma porta (você desenhou-a) e pode atravessá-la, experimente. Seu nariz quebrado será apenas uma interpretação?
É simples. Se a verdade é relativa, a própria frase “a verdade é relativa” é, também ela, relativa. E eu posso optar por continuar sendo um antirrelativista radical, sem dar a essa frase a mínima importância.
Dito de outro modo, o relativismo é como o Barão de Münchhausen ao contrário. É como, já se disse por aí, o lenhador que corta o galho no qual estava sentado. Será que o tombo dele é relativo? Pois é. Ninguém sustenta o relativismo num hospital. Simples assim. E complexo.
Meu novo livro tratará de tudo isso. Está em fase de “tirando as bordinhas”.
Quanto ao jovem que dizia que tudo era relativo e que não havia fatos (e tudo é conforme o cristal com que se olha), nunca mais ouvi falar. Eco perguntaria: seria ele apenas uma interpretação?
Feliz Páscoa!
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