Trabalho Contemporâneo

IA, generalistas criativos, os prediction markets e o novo mundo do (ou sem) trabalho

Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro…(…) A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação.  (…) Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade de sua existência”.
Machado de Assis, no conto O Espelho

Atualmente muitos (muitos, mesmo!)  de nós do mundo jurídico utilizamos ferramentas de inteligência artificial para alcançar produtividade, eficiência e eficácia no desenvolvimento do seu trabalho. Parece-nos – afora algumas “alucinações” que volta e meia ocorrem e algumas práticas de má-fé que pululam lá e cá em nossos grupos de WhatsApp como exemplos de estrepolias – que esse tipo de ferramenta teria implacavelmente vindo para ficar e ponto final.

Parece…

“Para o americano Ian Beacraft, tido como um dos maiores especialistas em implementação de ferramentas de IA no mundo do trabalho, a nova era começa com a ascensão de uma categoria de trabalhadores: os generalistas criativos[1].

Segundo ele “um generalista é alguém que não é especialista em um só domínio” (…). Ele lida com vários assuntos/temas, fazendo, depois, “um grande cruzamento de interesses, hobbies, especialidades e ferramentas” [2].

Consequência?

A substituição total dos profissionais especialistas.

E, claro, com total apoio da IA, que pilotará essa substituição pelo timão da adoção de diversas e diferentes competências tecnologias a serviço da aceleração da produtividade, a fim de orientá-los nesta navegação pelo mar de trabalho (pelo menos por uma determinada estação temporal) rumo ao oceano azul generalista criativo, num singrar sem volta — como a digitalização dos serviços.

“No SXSW 2024 (festival de tecnologia, música e cinema ,ocorrido em Austin entre 8 e 15 de março), Beacraft deu um exemplo de como um generalista criativo operaria. Uma pessoa sem habilidade de desenho poderia ir a um gerador de imagem, como o Midjourney ou Dall-E 2. Na ferramenta, daria comandos detalhados por texto, descrevendo como deve ser a ilustração final, que então fica pronta em minutos. O resultado não vai ser igual ao de um profissional humano (que fica encarregado de tarefas mais complexas), mas pode quebrar um galho  e ganhar tempo no dia a dia do escritório” [3] (destaque do colunista).

Quebrar um galho…

Falando em navegação, há de se lembrar, como alguém já se disse – e se não disse digo eu agora – que a construção de uma canoa exige um tronco robusto e inteiro e não apenas galhos. Muito menos: galhos quebrados…

Esse quebra-galho – especificamente para nós do mundo jurídico – pode transformar o profissional, cujo ofício exige-lhe ser criativo, numa figura “vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra” refletida no Espelho do conto machadiano.

Spacca

Pergunta-se: para onde irá a essência do ato de trabalhar (dando o seu melhor) na busca de uma solução segura, criativa e juridicamente confiável “quebrando galho”?

Afinal de contas, nosso processo criativo não está subordinado à construção de uma matriz de solução tão somente fincada em elementos advindos de dados colhidos de algo que já fora antes realizado, ainda que à época com a obtenção de resultados positivos.

Lembremos que IA, ainda que batizada de inteligência, “não é inteligente, nem artificial”, mas, em realidade, um processamento intensivo de dados. Ela não possui inteligência real (humana ou animal). Trata-se de um instrumental que parece inteligente. Porém, não o é.

Cumpre destacar, ainda, que nem sempre o que foi ainda é ou poderá continuar a sê-lo. Criar vai além de copiar e/ou dar um jeitinho com o que se tinha ou se teve.

As perguntas em IH (inteligência humana) persistem…

Esse quebra-galho serve para auxiliar-nos com velocidade e produtividade ou pode, diferentemente, nos estimular à uma espécie de preguiça-estruturante-mental-laboral?

Esse quebra-galho traz elementos investigativos importantes e apropriados à elaboração da solução ou — pelo viés dessa preguiça-estruturante-mental-laboral — pode fazer com que a “alma exterior” machadiana acabe por ultrapassar limites éticos?

Esse quebra-galho nos ajuda ou nos encobre os olhos com névoas aprisionantes dentro bolhas de algoritmos que nos envelopam, fazendo-nos acreditar que aparência e realidade se fundem como se a mesma coisa fossem fazendo com que percamos a capacidade de profissionalmente sermos criativos, tal e qual se perfaz na feliz expressão de T. S. Eliot, em que o correlato objetivo se transforma num processo subjetivo?

Não estou aqui dizendo que não devamos utilizar essas ferramentas, muito menos fazendo enfadonha e saudosa apologia a um passado analógico que não existe mais.

O novo sempre vem. E vem para melhorar.

A questão é outra.

Ela está relacionada a não perder a individualidade da nossa personalidade. Não abandonar ou substituir nossa alma interna por uma alma externa do e para os outros (personificada por vieses algorítmicos), que não traduz o que somos, representando apenas a ilusão da aparência de uma dimensão especulativa.

Isso é muito sério e preocupante.

Pasteurizam-se temas, teses, formatações, argumentos, como se fossem únicos e apropriados a tudo e todos. Com isso relega-se às calendas a disciplina, relativiza-se a ética, reduz-se a importância do esforço e sublima-se a responsabilidade de fazer e entregar o nosso melhor.

Longe de mim defender de forma saudosista ou melancólica um passado que não existe mais, tão pouco, me lamuriar, como Schopenhauer “que acreditava que o mundo como experimentamos, na qualidade de coisas, pessoas, árvores e cachorros, é apenas uma aparência artificial ou, nas palavras dele, uma representação” [4].

Estamos tratando se outra coisa. Criatividade tem a ver com a capacidade de gerar ideias novas, originais por meio de um processo mental/subjetivo. Logo, a IA pode, é claro, servir de apoio, porém, nunca como mecanismo-único de substituição.

Querem ver um bom exemplo?

As pessoas são diferentes. A capacidade cognitiva de cada qual igualmente diversa. Por que todos têm de aprender da mesma forma? Por que não se estudar filosofia assistindo desenho animado?

A filosofia vai muito além do aparente…

Se nos valêssemos apenas de uma IA e lhe perguntássemos quem é mais virtuoso no seriado dos Simpsons, o Bart ou a Lisa, que resposta teríamos?

Ei-la aqui:

Se a gente comparar Bart Simpson e Lisa Simpson, a resposta mais consistente é: Lisa é a mais virtuosa — e não é nem muito disputado 😄.

Por quê?

1. Consciência moral

– Lisa tem um senso ético muito forte: ela se preocupa com justiça, meio ambiente, direitos dos animais e honestidade.

– Bart, por outro lado, frequentemente quebra regras por diversão ou rebeldia.

2. Empatia

– Lisa demonstra empatia genuína pelas pessoas e causas (como quando defende colegas ou luta por algo justo).

– Bart até tem momentos de bondade, mas eles são mais raros e muitas vezes vêm depois de ele causar algum problema.

3. Disciplina e responsabilidade

– Lisa é dedicada aos estudos, à música e aos seus princípios.

– Bart é impulsivo, preguiçoso com a escola e vive metido em confusão.

4. Intenção vs. evolução

– Um ponto interessante: Bart cresce em vários episódios e mostra coração bom no fundo.

– Mas Lisa já parte de um padrão moral alto e consistente.

Resumo:

Lisa é mais virtuosa porque suas ações são guiadas por princípios sólidos e constantes. Bart não é “ruim” — ele só é muito mais imaturo e caótico.

Quem realmente é imaturo? Bart ou a IA?

As pessoas são complexas. O mundo é complexo. Logo, as soluções têm de se dar pela linha da complexidade.

‘Meninas boazinhas e meninos maus’

Você conhece as histórias: ele cortou a cabeça da estátua de Jebediah Springfield; queimou a árvore de Natal da família; roubou um videogame de uma loja; colou num teste de QI e acabou entrando numa escola para gênios; enganou a cidade inteira, fazendo todo mundo pensar que havia um garotinho preso num poço etc., etc., etc. Bart Simpson não é do tipo de pestinha adorável que vive se metendo em encrenca; ele não é um rebelde com coração de ouro. É, isto sim, um delinquente, um bad boy em calças azuis, um destruidor (…).

Provavelmente você acha que a irmã dele, Lisa, é a virtuosa da família. Ela é brilhante, talentosa, muito lógica e racional, sensível. Ela tem princípios: combate a injustiça quando a vê; é vegetariana porque acredita nos direitos dos animais; enfrenta o ganancioso Sr. Burns; e tem amor e compaixão por sua família e seus amigos, e por todos os menos afortunados. Ela é a garotinha que todos amamos. Provavelmente você diria que ela é a única admirável no desenho.

Bem, deixe-se contar sobre outro menino mau, o menino mau da Filosofia (o quê? Você não achava que a filosofia tinha meninos maus?). O nome dele é Friedrich Nietzsche, e – filosoficamente – era mau, mau de verdade. Também era tido como um delinquente esperto. Despreza autoridade e foi uma espécie de destruidor. (…) Parecia detestar tudo, todos os ideais que a maioria das pessoas ama e quer seguir – e mais ainda, ele derrubava por terra esses ideais, mostrando astutamente como eles eram ligados a coisas que as mesmas pessoas odeiam. Ele rechaçava a religião e ria da piedade. Dizia que Sócrates era um bufão que se levava a sério. Chamou Kant de decadente. Descartes de superficial e John Stuart Mill de cabeça-oca. (…)

Será que, do ponto de vista nietzschiano, estamos admirando (com apoio na IA!) o personagem errado? Será que a Lisa Simpson é a parte do que Nietzche chama de cansaço do mundo, decadência, moralidade de escravo, ressentimento?” [5].

Insisto. O profissional do direito não é um simples casmurro, adjetivo advindo do árabe cadzur, passando pelo espanhol cazurro que significa insociável. A alma interna é sociável, única e criativa.

Temos de dar-lhe (muito) valor para no seu dia a dia valorizar e aplicar essa prática humana, fugindo da tentação do divertissementdigital (diversão, distração, desvio) que nos atrai via poderosos imãs às facilidades de uma realidade-aparente.

Caso contrário, o que nos resta é um mundo jurídico aprisionado a mercados de previsão (prediction markets) que se movem por meio de bolsas onde os participantes negociam contratos baseados no resultado de eventos futuros.

Em 2026, esse setor deixou de ser um nicho experimental para se tornar uma categoria financeira global, processando mais de US$ 20 bilhões em volume mensal.

Será mesmo que negócios (amparados em contratos jurídicos), ações, defesas, recursos, decisões devem se limitar a esse tipo de “apostas”, fazendo com que o trabalho reste diminuto ou até mesmo desnecessário, diante da sua pouca importância?

Será que a Lisa é a virtuosa e o Bart não tem como ser analisado humanamente de outro modo?

Será que essa dualidade “humano-digital” que tem a pretensão de transformar profissionais de direito e/ou trabalhadores em simples “traders” com diferentes crenças e aptidão para negociar (apostar) pagamentos relacionados ao futuro desconhecido, sendo que os preços do mercado dos contratos relacionam-se como crença agregada irá prevalecer?

Será?

Termino, como comecei, com O Espelho de Machado de Assis:

“(…) ficou-se uma parte mínima de humanidade”.

 


[1] Disponível aqui.

[2] Ob. Cit.

[3] Ob. Cit.

[4] Os Simpsons e a filosofia. Coletânea de Aeon J. Skoble, Mak T. Conard e William Irwin, tradução Marcos Malvezzi Leal.  – São Paulo: Madras, 2004, pag. 67.

[5] Os Simpsons e a filosofia. Coletanea de Aeon J. Skoble, Mak T. Conard e William Irwin, tradução Marcos Malvezzi Leal.  – São Paulo: Madras, 2004, pag. 66.

Antonio Carlos Aguiar

é advogado, mestre e doutor em Direito do Trabalho pela PUC-SP, professor da Fundação Santo André (SP) e diretor do Instituto Mundo do Trabalho.

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