Estudantes ruins não são como o “fenômeno” do restaurante de especialidade nipônica caracterizado por ser muito barato, estar sediado em ponto “nobre” e ter comida de alta qualidade. Afinal, os primeiros existem. Na era em que o discurso politicamente correto (forma) e de críticas direcionadas contra certas instituições e indivíduos é aplaudido independentemente de seu mérito (conteúdo), talvez, quem labore no ambiente acadêmico evite tratar da temática do discente inapto.
Para muitos, é como aquela imperfeição no acabamento de uma delicada obra que demorou bem mais do que o esperado: incomoda o olhar crítico-clínico, mas protela-se propositalmente o enfrentamento diante de outros problemas imediatos. Ainda, há o risco reputacional de “cancelamento” às (a) instituições de ensino ou aos (b) professores, desde que apontem a falta de melhores esforços de parte do polo mais frágil [1] — (c) aluno — da relação trilateral. “Cadê a empatia?”, perguntarão os aliados.
Este texto é o derradeiro da trilogia que enfrentou algumas das mazelas (b) do corpo docente [2] e (a) das instituições de ensino [3], no contexto monográfico. Ou seja, a cronologia da escrita observou uma específica ordem dos fatores — na mitigação das crises relacionais durante a edificação de um texto científico. Fato é que por menos habilidoso que seja (c) o aluno, o melhor funcionamento das autoridades acadêmicas pode minimizar as consequências acadêmicas de um orientando ruim. Antes de tudo, a autocrítica [4] é necessária.
Aliás, fosse o regime educacional realmente rigoroso, alunos ruins tenderiam a não completar o curso, já que patamares intermederiários de avaliação deveriam conduzir ao esmero e ao desenvolvimento intelectual. A conjugação de monografia/dissertação/tese e aluno despreparado, então, seria genuinamente paradoxal, já que os trabalhos de conclusão de cursos são a derradeira etapa dos anos de vínculo educacional.
Estereótipos
Os exageros retóricos podem ser mais úteis para erigir contrastes, forjar modelos e facilitar a comunicação do que para formular reflexões precisas. São algo como “tipos-ideais”. Para alguns, trabalhar com estereótipos nada mais é do que uma forma de implementar o fetiche iluminista [5] de simplificação de temas complexos.

Reconhece-se ser raro o encaixe perfeito e unívoco em alguma das categorias abaixo, bem como haver protagonismo da (b) pessoa orientadora, e da (a) instituição educacional na orientação. Ademais é possível que um (c) mau aluno cumule itens distintos da seguinte classificação:
a) O ‘reciclador’ – talvez pela “lei do menor esforço”, o orientando dessa sorte evite a fadiga intelectual [6]. Se minutou um memorando no estágio, sobre esse tema buscará reproduzir o produto-profissional na monografia. Ainda, se já escreveu sobre a temática investigada no trabalho de término de curso na graduação, então aproveitará idêntica minuta na especialização ou dissertação. Se a hipótese já fora enfrentada no mestrado, tentará enveredá-la no doutorado. Sua investigação é sempre reciclada, repaginada, de modo que se evite o ineditismo, a evolução e a variedade do repertório. “Originalidade é algo para ‘mais tarde’ [7]” Por vezes, a (b) orientadora e (a) a instituição não são avisados sobre o dejá vù Cuida-se de uma versão piorada da prática de certos restaurantes à quilo: quarta-feira — bife, quinta-feira — picadinho, sexta-feira — croquete, sábado — sopa de entulhos. O insumo nunca perece [8]!
b) O aluno laudatório – Em uma versão do século 21 do aluno Armando Volta da “Escolinha do Professor Raimundo”, o orientando não poupa adjetivos em seu texto. “Preclaro autor”, “saudoso mestre” e “irrepreensível autora” são alguns dos vocábulos do texto dessa “figura” mítica. Mantendo a coerência em tudo o que faz, tal tipo de orientando mais se preocupa em trazer bombons ao orientador (e a bajular a banca) do que a pesquisar e escrever com técnica e profundidade. Busca-se manipular o ego alheio e a economizar a própria massa cinzenta.
c) ‘O que é proatividade?’ – esse tipo de aluno não sabe aonde fica a biblioteca da escola, da universidade ou do centro de pesquisas. A não ser que alguém o conduzisse pela mão, provavelmente ele teria cumprido seus anos de pesquisa sem ter tocado em um exemplar de um livro. Quando busca orientação, não sabe o tema que quer pesquisar. Quando já sabe o tema que irá pesquisar, jamais leu uma obra sobre o assunto. Se o orientador não faz lista de leituras, ele não sabe por onde começar. Jamais se deu ao trabalho de “mastigar” o que o orientador publicou sobre o assunto, já que clicar no “link” da plataforma Lattes seria fatigante. Não lhe ocorre ser proativo, já que enxerga na orientação uma versão contemporânea d(o)a “babá”.
d) O plagiador – picaretas de carteirinha “habitam” o mundo desse estereótipo. Por vezes contratam “serviços” de escritores fantasma, quando são tão capitalistas quanto preguiçosos, hipótese em que se pode cogitar, inclusive, de atuação em coautoria no ilícito (artigo 29 c/c artigo 184, §1º, CP). Outras vezes, evitam um coautor no crime, mas seguem com a preguiça mental e usurpam ou imitam as formas de expressão alheias [9], sem lhes atribuir o crédito da autoria. Esse tipo de (c) orientando gera enorme risco reputacional — e jurídico, por solidariedade (artigos 186 e 942 do CC/2002) — ao (b) orientador e à (a) instituição. Quando, além de desonestos, são “ferozes” [10], flagrados pelo ilícito tendem a deslocar a responsabilidade pela própria conduta, imputando à orientação acadêmica ou às exigências institucionais a causa do desvio. Há grande coincidência entre o raciocínio do plagiador e o pensamento daqueles que, se pudessem, comprariam diplomas a prestação (ao invés de conquistá-los).
e) ‘Eu tenho convicções’ – dogmático e com tendências autoritárias, esse tipo de estudantes já tem “a resposta” antes que se formule uma pergunta. Se fosse o contexto de uma investigação criminal, bastaria um “power-point” com algumas setas que a pessoa por ele acusada estaria em apuros com “tamanha prova” [11] de culpabilidade. Adepto ao Realismo Jurídico, tal tipo de aluno “decide” antes e fundamenta a pesquisa depois. Se o país fosse monárquico, ele seria o absolutista, o Imperador beneficiado pelo artigo 99 [12] da Constituição do Império.
f) Turista – esse perfil de aluno é visto, somente, em três oportunidades. Na primeira delas, com o formulário de orientação, uma postura simpática, sorrisos e promessas dignas de um vereador. Na segunda delas, às vésperas do depósito do trabalho, justificando sua ausência durante o semestre; e pedindo que o orientador leia um catatau de laudas em parcas horas. O turista não resiste a procrastinar para “entrar na última chamada no aeroporto”, gerando tensão e até frustração no orientador. Na terceira delas, no dia da banca, tece mil elogios sobre o próprio trabalho. Como alguém que anda em meandros apartados à realidade, poderá se sentir ofendido se não ganhar encômios ao final.
g) O desrespeitoso – aqui não se adstringe à mera falta de polidez, ao denominado “grosseirão”. Ser respeitoso com o processo da monografia tem a ver com observância aos rituais de leitura (“missão dada é missão cumprida”), de honestidade epistêmica (se a premissa implícita era falsa, ele o reconhece incidentalmente), de previsibilidade (pacta sunt servanda) e de rotina. Respeitar a orientadora significa: (1) vir preparado para a reunião, (2) adaptar o texto após as revisões, para evitar retrabalho e reiteração dos apontamentos, (3) é oportunizar antecedência ao interlocutor na leitura do que foi produzido, de dar tempo para que as próprias ideias vicejem [13], (4) é valorizar o dinheiro do contribuinte (ou dos pais) e caprichar na pesquisa, e (5) é saber trabalhar em grupo harmonicamente, já que é bem provável que haja outros orientandos da mesma orientadora.
Com raras exceções, um mau orientando é percebido apenas ao longo do processo, mas não antes de seu início. Sua inadequação não se revela de imediato, mas vai se insinuando progressivamente, à medida que o trabalho avança e as fragilidades metodológicas, éticas ou intelectuais começam a emergir. Nisso, ele se assemelha ao instituto jurídico do vício redibitório: um defeito oculto que, embora já presente desde a origem, somente se torna perceptível com o uso continuado da coisa, frustrando a legítima expectativa de qualidade e utilidade que justificou a relação inicialmente estabelecida (artigos 441 e ss. do CC/2002; artigos 18 e 26 do CDC). Ou, por outra, o orientando ruim já “nasce” assim, o que não significa que ele não possa piorar com o tempo.
Conclusões
Levando-se em conta o fato de que houve uma ampliação da pós-graduação no Brasil, é bem possível que um (c) mau orientando possa vitimar novos (a) docentes, em outras (b) instituições.
Em uma hipótese mais otimista, nada veda que um aluno “mediano” se redima [14] e aproveite nova experiência de orientação, em outro contexto. Como o encadeamento das titulações conquistadas pode sofrer com interstícios (tempo de experiência, alguns anos de trabalho, outros anos de escrita autônoma), sempre há oportunidade para revoluções pessoais positivas.
Essa trilogia não se propôs a “elevar” os autores a função de parquet ou ombudsman do mundo acadêmico. Instituições, professores e alunos são peças diferentes na engrenagem da pesquisa e do saber, todos falíveis e, como regra, sobrecarregados de afazeres e do cansaço da pós-modernidade.
Todo diagnóstico serve como primeiro passo, espécie de humildade cognitiva para o início de uma transformação, um processo de cura. Fato é que os processos monográficos, mesmo nos mais renomados centros acadêmicos, não se encontram em uma “fase próspera”. À comunidade acadêmica lança-se a pergunta – “estamos dispostos a nos tornar uma versão melhor de nós mesmos?”.
[1] “Mesmo assim tão frágeis, sonham grandes travessias os pequenos barcos” LEITE NETTO, Wanderlino Teixeira. Asas na Pedra. Rio de Janeiro: Editoração, 2009, p. 106.
[2] BARBOSA, Pedro Marcos Nuns & CITTADINO, Gisele. Pecados Capitais na Orietação de um Trabalho Acadêmico. Migalhas: 06.01.2026, disponível aqui.
[3] BARBOSA, Pedro Marcos Nuns & CAPECCHI, Daniel. Monografias – As Instituições. Migalhas: 24.02.2026, disponível aqui.
[4] “Nós somos todos leprosos! E o mal é que ninguém reconhece a própria lepra” RODRIGUES, Nelson Falcão. O Casamento. 2ª Edição, Rio de Janeiro: Nova Fronteira 2016, p. 258.
[5] GROSSI, Paolo. Mitologias Jurídicas da Modernidade. Traduzido por Arno dal Ri Júnior. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2007, p. 63.
[6] “Mesmo porque, só lia os livros que já conhecia e amava” VERISSIMO, Luiz Fernando. A Velhinha de Taubaté. 12ª Edição, Porto Alegre: L&PM, 1998, p. 94.
[7] “”Levei uma vida desdentada”, pensou. “Uma vida desdentada”. Nunca mordi; esperava, preservava-me para mais tarde — e acabo de perceber que não tenho mais dentes” SATRE, Jean-Paul Charles Aymard. A idade da Razão. Traduzido por Sérgio Milliert. 2a Edição, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011, p. 294.
[8] “Vicente de Carvalho, poeta santista, parnasiano com jaças, publica Poemas e Canções. Alcança inúmeras reedições em que vai piorando cada vez mais, tanto que Mário de Andrade implora: “Vicente, não faça mais versos… Ou faça, se quiser, mas não publique.” RIBEIRO, Darcy. Aos Trancos e Barrancos – como o Brasil deu no que deu. 2ª Edição, Rio de Janeiro: Editora Guanabara,1985, p, 169.
[9] “De tudo o que se escreve, aprecio somente o que alguém escreve com seu próprio sangue. Escreve com sangue; e aprenderás que o sangue é espírito” NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. 19ª Edição, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011, p. 66.
[10] “Ah, os piratas! Os piratas! A ânsia do ilegal unido ao feroz” PESSOA, Fernando António Nogueira. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017, p. 72.
[11] “The trial was a spectacle, a farce, a ridiculous way to search for the truth. But as I learned, the truth was not important. Perhaps in another era, a trial was an exercise in the presentation of facts, the search for truth, and the finding of justice. Now a trial is a contest in which one side will win and the other side will lose. Each side expects the other to bend the rules or to cheat, so neither side plays fair. The truth is lost in the melee” GRISHAM, John. The Racketeer. Nova York: Doubleday, 2012, p. 75.
[12] Art. 99. A Pessoa do Imperador é inviolavel, e Sagrada: Elle não está sujeito a responsabilidade alguma.
[13] “Mil vezes a experiência tem demonstrado, mesmo em pessoas não particularmente dadas à reflexão, que a melhor maneira de chegar a uma boa idéia é ir deixando discorrer o pensamento ao sabor dos seus próprios acasos e inclinações, mas vigiando-o com uma atenção que convém parecer distraída” SARAMAGO, José. O Evangelho Segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 90.
[14] “Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me fago passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir as minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio” MÁRQUEZ, Gabriel Garcia. Memória de minhas putas tristes. Tradução Eric Nepomuceno. 23ª Edição, Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 74.
Seja o primeiro a comentar.
Você precisa estar logado para enviar um comentário.
Fazer login