Embargos Culturais

Noturno do Chile, de Roberto Bolaño

Noturno do Chile, de Roberto Bolaño (1953-2003), é um livro desconcertante [1]. O autor trata a história chilena recente, de um modo diferente e inteligente. O narrador (o livro é em primeira pessoa) é um padre muito mais interessado em literatura e em crítica literária do que nos grandes problemas da Teologia e da salvação das almas.

O livro flui em forma de reflexão. São memórias que vazam num curtíssimo tempo, como se decorrentes de uma noite de insônia. Algo meio proustiano. As lembranças e ideias vão se amalgamando e ao mesmo tempo se separando, em fluxo contínuo. O leitor tem a impressão de que o autor retoma e descreve conversas interessantes. Do ponto de vista do estilo, pela forma da pontuação, de construção e extensão dos parágrafos, e também pela ordem do pensamento, o autor me lembrou José Saramago, especialmente em Intermitências da Morte.

O narrador conta que foi abordado para que aceitasse um patrocínio oficial para visitar catedrais europeias e estudar como os europeus mantinham e cuidavam de suas igrejas. O padre (que nesse passo do livro vira um misto de arquiteto e de pesquisador) visita Pistoia, na Itália, e conhece a Igreja da Santa Maria do Amor Perpétuo, onde o padre local lhe informa que o maior problema que enfrentavam era a proliferação de pombos, que deveriam ser dizimados.

O padre narrador se incomodou com o método, lembrando que o pombo é emblematicamente a própria representação do Espírito Santo. No entanto, aprendeu que se combatiam os pombos com o uso de falcões, tomando conhecimento da sutil arte da falcoaria. Visitou também Turim e Estrasburgo, verificando que o método era mais ou menos idêntico. Os falcões respondiam por seus nomes: Turco, Xenofonte, Rodrigo. Havia também lugares nos quais simplesmente não se cuidavam das igrejas.

Quando retornou para o Chile, Salvador Allende havia sido deposto pelo golpe do General Pinochet. O país estava absolutamente transformado. Havia um tenebroso toque de recolher. Como se entenderiam intelectuais e artistas que geralmente se reuniam pela noite adentro?

Spacca

Num primeiro momento o padre parece alheio e distante, refastelando-se com literatura grega. Leu (ou releu) todos os clássicos que conhecia desde os tempos do seminário. Lembrei-me dos poetas parnasianos, obcecados pela forma, cúmplices de uma arte pela arte, a exemplo do famoso soneto de Alberto de Oliveira, Vaso Grego. Lembrei-me dos tempos do ensino médio “Esta, de áureos relevos, trabalhada/De divas mãos, brilhante copa”.

Personagens sinistras

Retomando o livro, os mesmos agentes que concederam ao padre a oportunidade de visitar e estudar as catedrais europeias convocaram o convocaram para uma nova missão, muito mais desafiadora. O padre deveria lecionar o marxismo para o General Pinochet e para os demais membros da junta que governava o Chile. O alto comando queria conhecer o inimigo, estudá-lo, prever suas ações e reações. Por isso, a demanda por tão inusitado curso.

O padre não era marxista. Insistia que não era comunista até como uma forma de proteção pessoal. A turma da esquerda estava apanhando no estádio. Aceitou a tarefa, lecionou dez aulas. Há uma página com a descrição de uma conversa do padre com Pinochet, a propósito dos livros e autores que o general teria estudado, lido ou escrito. Essa página vale o livro, especialmente pelas comparações com Eduardo Frei, o democrata-cristão que também fora opositor de Allende.

Há várias personagens sinistras nesse livro: um importante crítico literário, um norte-americano que se dizia diretor de uma companhia norte-americana quando na verdade colaborava com as forças de repressão, inclusive participando de sessões de tortura, sua esposa, que recebia intelectuais e artistas em sua casa, a mesma onde nos quartos mais distantes os opositores do regime eram torturados. Pablo Neruda é recorrente no livro. O grande poeta chileno frequentava o grupo intelectual do mentor do padre narrador.

O relato memorialístico, ainda que ficcional, parece franco. O padre narrador enfatizava a necessidade de ser sincero. Há uma obrigação moral que temos (ou que devemos ter) em relação a nossas palavras e ao nosso silêncio. Segundo o padre narrador, “os silêncios também ascendem ao céu e Deus os ouve, e só Deus os compreende e os julga”. Esse postulado de sinceridade me remeteu diretamente a Mersault, o protagonista central de O Estrangeiro, de Albert Camus. A sinceridade, parece-me, produz heróis absurdos. E aí o leitor tem que correr para ler No Café Existencialista, de Sarah Bakewell.

Certamente me falta muito conhecimento sobre a história chilena para compreender as entrelinhas desse belíssimo livro. Uma aula de história, um encantamento literário, em forma de testemunho bem próximo.

 


[1] Dedico essa resenha a Fábio Coutinho, Roberto Rosas e Paulo Castelo Branco, da Academia Brasiliense de Letras, a propósito de uma animadíssima conversa em torno das deliciosas empadinhas do Gilberto Salamão, sempre comandadas pelo superlativo Roberto Rosas.

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

é livre-docente pela USP, doutor e mestre pela PUC- SP e advogado, consultor e parecerista em Brasília, ex-consultor-geral da União e ex-procurador-geral adjunto da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

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