Sessão de vitimismo

Alcunha de ‘american gestapo’ atribuída ao ICE incomoda governo Trump

Um dirigente do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos, conhecido como ICE, fez um pedido inesperado na abertura de seu depoimento no Comitê de Segurança Nacional da Câmara dos Deputados: “Parem de comparar o ICE com a gestapo”.

O nome da gestapo, a polícia secreta oficial da Alemanha nazista, tem sido usado pela população norte-americana para definir o ICE, a agência federal dos EUA responsável por aplicar leis de imigração.

RS / Fotos Públicas

Protesto contra o ICE, o serviço de imigração dos EUA, em Minneapolis

O órgão, criado em 2003, teve um salto de pessoal e financiamento no governo de Donald Trump. Com crescentes casos de violência e abuso de poder, passaram a ser alvo de protestos nas ruas.

O diretor interino do ICE, Todd Lyons, afirmou na sessão no Congresso, na última terça (13/2), que a comparação com os nazistas está relacionada “ao aumento acentuado de ameaças e agressões aos agentes do ICE e suas famílias”. Autoridades do Departamento de Segurança Nacional, o DHS, têm feito a mesma queixa.

A alcunha

O governador de Minnesota, Tim Walz, foi provavelmente o primeiro político de peso a se referir ao ICE como “A gestapo dos tempos modernos de Donald Trump”. O governador de Illinois, JB Prizker, e a prefeita de Boston, Michelle Wu, fizeram analogias similares.

Mas quem criou a denominação “american gestapo” foi o escritor Stephen King, que caracterizou as táticas do ICE como autoritárias, em uma postagem na plataforma de mídia social X, em janeiro de 2026.

Tal comparação não vem só de democratas. Por exemplo, o influenciador republicano Joe Rogan, um defensor de Trump, comparou as táticas do ICE às da gestapo, no mês passado. E perguntou, em seu podcast, se os EUA está se tornando algo parecido com a Alemanha nazista.

O músico Bruce Springsteen expressou um sentimento semelhante, criticando a invasão de tropas de agentes federais armados e mascarados a cidades americanas, usando táticas similares às da gestapo. Diversos parlamentares democratas fizeram a mesma comparação.

Trumpistas arrependidos

O que se lê nos jornais e se vê em vídeos na mídia social, um ano depois da posse de Trump, são seguidas histórias de eleitores trumpistas afetados pelo que se define, nos EUA, como “remorso de comprador” (buyer’s remorse).

Inicialmente, a expressão se referia a consumidores que compraram algum produto por impulso e, logo depois, passaram a sentir arrependimento, culpa ou ansiedade. Com o tempo, passou a ser aplicada a qualquer pessoa que se arrepende amargamente de alguma coisa que fez.

Hoje, é o que estão sentindo eleitores que votaram em Trump por duas ou três vezes, mas agora se sentem ludibriados pela promessa que fez na campanha eleitoral de 2024 – a de prender e deportar apenas “imigrantes ilegais criminosos”.

Não é o que está acontecendo. O ICE tem perseguido imigrantes mesmo que estejam sem qualquer problema na documentação, especialmente quando não são brancos.

Alguns casos

A cantora Janet Correa participou ativamente da última campanha eleitoral de Trump. Nos comícios, ela cantou o hino “Vote Trump”. Mas, recentemente, ela publicou um vídeo, em que contou chorando que estava desesperada, porque o ICE prendeu seu marido e seu sobrinho em Miami. Ambos foram expulsos do país.

Reprodução / YouTube

Momento em que o ICE mata Renee Nicole Good, em janeiro de 2026

Uma portorriquenha, que é cidadã americana por nascimento, contou arrependida que votou em Trump três vezes (em 2016, 2020 e 2024). Mas ela e suas três filhas foram presas pelo ICE. “Eu tenho uma aparência caucasiana, por meus cabelos vermelhos, mas minhas filhas, com cabelos e olhos escuros parecem latinas. É absolutamente apavorante”, ela disse em um vídeo publicado no Facebook.

A canadense Cintia Oliveira foi presa por agentes do ICE quando foi à entrevista para receber residência permanente (green card). Seu marido, Francisco Oliveira, que até então foi eleitor fervoroso de Trump e acreditou piamente em sua promessa de só prender e deportar imigrantes criminosos, está desesperado: os três filhos do casal vão ficar sem a mãe. Ele sequer está medindo as palavras: “Eu quero meu voto de volta”, ele disse a uma emissora de TV na Califórnia.

O caso gerou uma discussão, no entanto. A Casa Branca declarou que qualquer pessoa que vive nos EUA ilegalmente é um criminoso sujeito à deportação imediata. Há dois problemas nesse entendimento. Primeiro, qualquer pessoa tem direito ao devido processo legal; segundo; estar ilegalmente no país é uma infração civil, não uma violação da legislação penal.

Uma cidadã americana de origem latina do Sul da Flórida, que agora se declara ex-eleitora de Trump, fez um vídeo para expressar sua raiva, depois que agentes do ICE prenderam seu pai, que tem uma doença terminal e pode morrer na prisão – e que seu pedido para libertá-lo foi negado:

“Lamento profundamente meu voto. Não foi apenas um erro. Foi a maior traição ao meu próprio povo. Sinto que, vivendo no Sul da Flórida, cercada por vozes republicanas, fui manipulada a pensar que era uma delas. Caí na propaganda, na normalização da crueldade, e acreditei nas mentiras que me deram uma falsa sensação de segurança e pertencimento”.

O remorso atingiu uma comunidade inteira de venezuelanos que ocupam uma área de Miami. Cerca de 40% deles são eleitores, que se autodenominavam MAGAzuelanos. Junto com eles, os venezuelanos ilegais fizeram campanha pró-Trump, colocaram placas de apoio a ele na frente de suas casas. Eles foram os primeiros a serem deportados em massa para El Salvador.

Falsas promessas

O site hispânico “Somos Votantes” publicou recentemente uma pesquisa, segundo a qual mais de um terço dos latinos que votaram Trump, em 2024, agora se declaram arrependidos e prontos para votar em candidatos democratas ou independentes nas próximas eleições – nunca mais em republicanos.

Documentos internos do Departamento de Segurança Nacional, obtidos pela CBS News, mostram que apenas 14%, dos quase 400 mil imigrantes presos pelo ICE no primeiro ano do segundo mandato do governo Trump, foram acusados ou condenados por crimes violentos.

Assassinos, estupradores e integrantes de gangues, por exemplo, seriam os alvos de deportação, de acordo com as promessas eleitorais de Trump.

As estatísticas contidas nos documentos mostram que outros tantos imigrantes têm antecedentes criminais, mas não por crimes violentos, segundo a CBS News. Cerca de 40% dos presos pelo ICE não têm qualquer antecedente criminal.

A sessão no Congresso

Os deputados democratas do comitê de segurança nacional do Congresso questionaram duramente as táticas agressivas do ICE em audiência na última terça (10/2).

As ações do ICE são frequentemente criticadas por serem, às vezes, letais e, muitas vezes, ilegais, por negarem aos presos seus direitos constitucionais.

Para os deputados democratas, as ações do ICE justificam a comparação com as táticas usadas por “regimes muito nefastos” – especialmente por uma prática comum: a de abordar as pessoas, em qualquer lugar, e ordenar que mostrem seus documentos (para comprovar cidadania).

O deputado Dan Goldman disse a Lyons: “As pessoas estão simplesmente fazendo observações válidas sobre suas táticas, que são antiamericanas e totalmente fascistas. Então, tenho uma sugestão simples. Se vocês não querem ser chamados de regime fascista ou polícia secreta, parem de agir como tal.”

A declaração de Todd Lyons é um reconhecimento oficial de que as denominações atribuídas ao ICE, tais como “american gestapo”, “polícia secreta” e “SS” (a organização paramilitar do Partido Nazista alemão), estão na boca do povo, inclusive de políticos e celebridades.

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