Alfredo de Assis Gonçalves Neto, advogado militante em Curitiba, autor de diversas obras jurídicas, foi professor doutor e diretor da Faculdade de Direito da UFPR, presidente da Ordem dos Advogados do Paraná, do Instituto dos Advogados do Paraná e da Academia Paranaense de Letras Jurídicas. A tudo isto se soma sua jovialidade e bom humor, apesar de o calendário insistir em lembrar-lhe que já entrou nos 80 anos. Agora, com a mesma disposição de sempre, escreveu Desabotoando a Beca, em que narra casos pitorescos e engraçados de sua longa trajetória profissional [1].
A importância do humor
O mundo dos profissionais do Direito, por si só, é difícil. Ninguém procura um advogado ou promotor de Justiça, e muito menos vai aos tribunais, para divertir-se. Conflitos envolvendo a liberdade, patrimônio, guarda de filhos, penhoras, abusos, geram tensão, insatisfação. Essa rotina impõe momentos de relaxamento, atenção a outros interesses, amizades com pessoas e experiências diversas.
Mas nem sempre o humor é bem-visto. Umberto Eco, na genial obra O Nome da Rosa, que se passa na Idade Média, narra a discussão entre os monges Guilherme e Jorge, a respeito do caráter lícito do riso e se Jesus Cristo riu alguma vez em sua vida. As posições opostas, Guilherme favorável e Jorge contra o riso, defendidas com inteligência ímpar e argumentos que invocavam os mais cultos filósofos e religiosos, não chega a uma posição conciliadora [2].
No mundo contemporâneo, as disputas travadas na Idade Média cederam espaço a uma posição favorável ao riso. Os religiosos daquele tempo jamais imaginariam que o Papa Francisco, no início do século 21, publicaria um artigo no New York Times sustentando que “o humor tem a capacidade de unir as pessoas e aliviar as tensões, especialmente em tempos de dificuldade” [3].
Daniel de Barros, em livro comentado por Ivanir Ferreira, lembra que “o humor pode ser uma ferramenta para amenizar adversidades da vida e fortalecer relacionamentos, o que levaria o indivíduo a uma melhor saúde física e mental” [4].
O humor na obra de Assis Gonçalves
O livro contém narrativas sobre os tempos de aluno no curso de Direito da UFPR, de desafios profissionais na docência e na advocacia, julgamentos, casos curiosos praticados por terceiros, todos contados com habilidade e refinado humor. Deles, seleciono dois, expondo-os em brevíssimo resumo, para que se tenha uma ideia da obra completa.

O primeiro caso escolhido passa-se nos tempos de estudante. O autor e seus colegas do terceiro ano eram tratados com menosprezo pelos colegas mais adiantados, que adoravam fazer-lhes exibição de conhecimento das leis e da melhor doutrina. Cansados daquilo que hoje seria um “bullying erudito”, resolveram pregar uma peça no mais atrevido deles.
Uma manhã começaram a discutir, na presença dele, a doutrina de um imaginário Demétrio Gestala, afirmando que seria um consagrado professor doutor vinculado à Universidade Complutense de Madri, autor do “Tratado das Nações”. Foi o suficiente para o sabichão dar sua opinião sobre o “jurista” Gestala, fruto de visita feita no ano anterior à famosa universidade madrilenha. E, segundo ele, o jurista espanhol era um grande penalista e autor de reconhecido livro nesta área, cujo nome esquecera. A verdade não foi exposta pela turma do 3º ano no ato, mas rendeu muitas risadas e, logo depois, à boca pequena, o caso espalhou-se por toda a Faculdade de Direito. O “erudito” quintanista, envergonhado, desapareceu, formou-se e estabeleceu-se em outro estado. Nunca se soube se por causa deste episódio ou porque a vida preparou-lhe outro destino.
O segundo caso é o do autor um processo de investigação de paternidade em uma Vara de Família. Na época ainda não havia sido adotado o processo eletrônico, portanto os autos eram de papel, sendo a capa mais forte. Nela, um carimbo enorme decretava “SIGILOSO”, despertando a curiosidade dos que o avistassem. Assis Gonçalves não atuou no caso, mas a ele teve acesso através de ou como um “curioso”.
O autor, devidamente registrado com pai, tinha conhecimento de que seu pai verdadeiro não era o que constava no registro de nascimento. Assim foi que propôs uma ação de investigação de paternidade contra um terceiro, atribuindo-lhe a condição de seu pai biológico. Ocorre que o exame técnico (DNA) concluiu que o demandado não era seu pai. A inesperada verdade levava a algumas desagradáveis conclusões contra a senhora sua mãe e à conclusão de ser um filho de… O autor então, discretamente, peticionou desistindo da ação.
Lição de vida na obra de Assis Gonçalves
Somente ingênuos ou portadores de Q. I. inferior ao dos chipanzés verão no livro Desabotoando a Beca apenas passagens engraçadas. Na verdade, no mesmo grau de relevância, está o exemplo de vida que o seu autor passa e as consequências disto em termos de felicidade. O profissional de sucesso, com todos os predicados curriculares e vida bem organizada, ao chegar na fase de amadurecimento, por vezes da aposentadoria, sente ao seu redor os reflexos de sua vida.
Tal afirmação nada tem de piegas e ingênua. É o resultado de pesquisa feita pela Universidade Harvard, por cerca de 80 anos, no projeto Harvard Study of Adult Development. Em suas conclusões, o estudo revelou que relacionamentos próximos, mais do que dinheiro ou fama, são o que mantém as pessoas felizes ao longo da vida [5].
Bons amigos, saúde, família organizada, reconhecimento social, são os fatores que levam a um estado próximo da felicidade, uma vez que esta nunca é completa. Não se pode crer que o investigado pelo escândalo do Rioprevidência no Banco Master que, ao chegar a Polícia Federal em diligência no apartamento que ocupava em Balneário Camboriú (SC) jogou pela janela sua mala com R$ 429 mil [6], seja ou será uma pessoa feliz.
O exemplo de Assis Gonçalves ao escrever, aos 80 anos, boas passagens de sua existência, revela, mais que tudo, a felicidade pela trajetória adotada. E vem em boa hora, bem no momento em que a corrupção no Brasil alcança índices alarmantes no ranking da Transparência Internacional, descendo para a 107ª colocação, atrás de países como o Senegal, Jamaica, Albânia e Argentina [7]. Também no momento em que, no âmbito das carreiras jurídicas, os maus exemplos surgem em notícias diárias que revelam total ausência de princípios. Da prática de transloucadas abordagens sexuais ao recebimento de valores gigantescos.
Conclusões
O livro Desabotoando a Beca leva a duas conclusões: a) lembrar que o bom humor torna nossas vidas mais leves, auxiliando na superação dos inevitáveis maus momentos; b) abrir mentes para a miragem da vitória profissional e do enriquecimento a qualquer custo, que levam a um sucesso sem bases sólidas que, mais cedo ou mais tarde ruirá, deixando no seu espaço uma amarga solidão.
[1] GONÇALVES NETO, Alfredo de Assis. Desabotoando a beca. Curitiba: Ed. Instituto Assis Gonçalves de Direito, 2025.
[2] ECO, Umberto. O Nome da Rosa. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1983, pp. 157-161.
[3] G1 MUNDO. Yoanna Stavracas. ‘Há fé no humor’: Papa Francisco publicou artigo sobre bom humor no jornal ‘The New York Times’ em dezembro. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/04/22/ha-fe-no-humor-papa-francisco-publicou-artigo-sobre-bom-humor-no-jornal-the-new-york-times-em-dezembro.ghtml. Acesso em: 14 fev. 2026.
[4] Jornal da USP, Ivanir Ferreira. “Rir é preciso”: conheça a ciência por trás do humor. Disponível em: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/rir-e-preciso-conheca-a-ciencia-por-tras-do-humor/. Acesso em: 14 fev. 2026.
[5] The Harvard Gazette. Good genes are nice, but joy is better. Disponível em: https://news-harvard-edu.translate.goog/gazette/story/2017/04/over-nearly-80-years-harvard-study-has-been-showing-how-to-live-a-healthy-and-happy-life/?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc. Acesso em: 15 fev. 2025.
[6] O Estado de São Paulo, Economia e Negócios. Investigado em aportes do Rioprevidência no Master joga mala com R$ 429 mil pela janela. Em 12 fev. 2026, p. B2.
[7] TRANSPARÊNCIA INTERNACIONAL. Índice da percepção da corrupção 2025, pp. 4-5. Disponível em: https://comunidade.transparenciainternacional.org.br/indice-de-percepcao-da-corrupcao-2025. Acesso em: 14 fev. 2026.
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