Opinião

Algoritmos na persecução penal exigem controle institucional prévio

A utilização de sistemas de inteligência artificial pelo poder público tornou-se realidade concreta. Ferramentas de reconhecimento facial, mecanismos automatizados de triagem processual e modelos preditivos de análise de risco já integram rotinas administrativas e judiciais em diversos contextos.

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No campo penal, contudo, a incorporação dessas tecnologias demanda cautela redobrada. A persecução criminal envolve restrição de liberdade, produção de estigmas e impacto direto sobre direitos fundamentais. Qualquer instrumento que influencie decisões investigativas ou judiciais precisa submeter-se a critérios rigorosos de legitimidade, controle e transparência.

O debate não se limita à eficiência tecnológica. Trata-se de definir os limites institucionais do uso de algoritmos quando estão em jogo garantias constitucionais.

Influência algorítmica na tomada de decisão

Sistemas algorítmicos operam a partir de bases de dados e modelos estatísticos que identificam padrões e probabilidades. Ainda que não substituam formalmente o decisor humano, podem influenciar:

– priorização de investigações;
– classificação de risco;
– identificação de suspeitos;
– sugestão de conexões entre dados;
– triagem automatizada de processos.

Essa influência, mesmo indireta, pode afetar a formação da convicção do operador do direito.

Em matéria penal, qualquer elemento que interfira no convencimento deve ser passível de controle, contraditório e responsabilização.

Opacidade e viés

Dois problemas centrais emergem nesse cenário.

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O primeiro é a opacidade técnica. Muitos sistemas operam com modelos complexos cuja lógica interna não é plenamente acessível aos usuários finais. A dificuldade de compreensão dos critérios internos compromete a transparência decisória.

O segundo é o risco de viés estrutural. Algoritmos treinados com bases de dados historicamente enviesadas tendem a reproduzir padrões discriminatórios já existentes.

Sem mecanismos institucionais de auditoria, esses riscos podem se consolidar silenciosamente dentro do sistema penal.

Insuficiência do controle individual

O modelo tradicional de responsabilização pressupõe que o decisor humano é plenamente responsável pelos fundamentos da decisão. Contudo, quando há influência significativa de sistemas tecnológicos desenvolvidos por terceiros, essa lógica torna-se insuficiente.

Não é razoável exigir que cada magistrado ou membro do Ministério Público possua expertise técnica para avaliar a confiabilidade de modelos estatísticos complexos.

A validação não pode ser fragmentada nem informal. O controle deve ser estruturado.

Necessidade de validação colegiada

Diante desse cenário, propõe-se a criação de instância colegiada responsável por validar previamente sistemas algorítmicos utilizados na persecução penal.

Essa instância deveria:

– avaliar conformidade constitucional;
– examinar bases de dados e metodologia de treinamento;
– identificar riscos discriminatórios;
– estabelecer limites de uso;
– prever auditorias periódicas;
– definir protocolos de transparência.

O objetivo não é impedir a inovação tecnológica, mas assegurar que sua utilização observe padrões compatíveis com o devido processo legal.

Governança tecnológica e legitimidade

O processo penal moderno é estruturado sobre limites ao poder punitivo. Sempre que a capacidade estatal se expande, novos mecanismos de controle devem ser estabelecidos.

A inteligência artificial amplia a capacidade de processamento informacional do Estado. Essa ampliação exige contrapesos proporcionais.

Sem governança adequada, corre-se o risco de naturalizar decisões influenciadas por critérios técnicos pouco transparentes.

A legitimidade do sistema penal depende não apenas da decisão final, mas da confiabilidade do procedimento que a produz.

Conclusão

A incorporação de sistemas algorítmicos na persecução penal não é questão de futuro, mas de presente.

O desafio central consiste em compatibilizar inovação tecnológica com garantias fundamentais.

A criação de mecanismo colegiado de validação representa medida de prudência institucional. Trata-se de reforçar responsabilidade, transparência e controle democrático sobre instrumentos que podem influenciar decisões de grande impacto social.

A tecnologia pode aprimorar a atuação estatal. Contudo, no campo penal, sua utilização deve ser acompanhada de mecanismos estruturados de governança, sob pena de fragilização do próprio sistema de garantias que sustenta o Estado de Direito.

Thales Rangel

é perito em computação forense no Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, graduado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e em Investigação Forense e Perícia Criminal, pós-graduado em Tradução em Língua Inglesa e mestrando na Faculdade de Tecnologia da Universidade Estadual de Campinas (FT-Unicamp), especialista em investigação digital, análise de evidências eletrônicas e governança tecnológica aplicada ao sistema de Justiça.

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