Opinião

Apatheia, ataraxia e o paradoxo da produtividade: a decisão qualitativa na cultura dos números

A obsessão contemporânea por produtividade judicial costuma apresentar-se como sinal inequívoco de modernidade institucional. Metas, rankings e indicadores são tratados como instrumentos neutros de racionalização. No entanto, o dilema que se esconde por trás dessa engrenagem não é novo. A tensão entre decidir rapidamente e decidir corretamente — entre eficiência e prudência, entre quantidade e qualidade — acompanha a história do pensamento ocidental desde muito antes de qualquer planilha estatística. O que hoje se formula como conflito entre metas de produtividade e fundamentação adequada já foi enfrentado sob outras categorias, outras linguagens e outras angústias.

Spacca

Os estoicos, como Epicteto e Marco Aurélio, elaboraram o ideal da apatheia: não a ausência de emoção, mas o governo racional das paixões que distorcem o juízo. Para eles, o erro não nascia da ação em si, mas do juízo precipitado que a antecede. A decisão justa exigia imunidade às pressões externas e às perturbações internas. Em chave contemporânea, apatheia pode ser compreendida como a capacidade institucional de resistir ao pathos produtivista — à ansiedade por resultados numéricos que, sob o pretexto de eficiência, ameaça capturar o conteúdo da decisão. Não se trata de negar a relevância da gestão; trata-se de impedir que a lógica instrumental substitua o critério de correção jurídica.

No epicurismo de Epicuro e no ceticismo de Pirro de Élis, encontramos o ideal complementar da ataraxia: tranquilidade da alma, serenidade diante da incerteza e suspensão do juízo precipitado. A boa decisão não nasce da agitação, mas da maturação. A ataraxia não é passividade; é estabilidade cognitiva. Aplicada à teoria da decisão, ela indica que conflitos humanos complexos exigem tempo deliberativo, escuta real e enfrentamento argumentativo consistente. Decidir sob pressão pode produzir relatórios satisfatórios; dificilmente produzirá decisões estruturalmente sólidas.

Arquitetura qualitativa

O processo civil brasileiro, especialmente a partir do Código de 2015, institucionalizou essa exigência qualitativa. O artigo 489 não concebe fundamentação como ornamento retórico, mas como estrutura racional da decisão: é preciso enfrentar argumentos capazes de infirmar a conclusão, explicitar premissas, evitar fórmulas genéricas e reconstruir precedentes. O artigo 926 impõe estabilidade, integridade e coerência jurisprudencial — dever que exige trabalho hermenêutico e não mera repetição. Os artigos 9º e 10 consagram o contraditório substancial e vedam decisões-surpresa, enquanto o artigo 6º inaugura a lógica cooperativa e o artigo 357, §3º, prevê saneamento compartilhado. Trata-se de um modelo normativo que pressupõe densidade argumentativa, diálogo processual e responsabilidade institucional.

O paradoxo emerge quando essa arquitetura qualitativa convive com uma cultura organizacional centrada na mensuração constante. Indicadores são instrumentos legítimos de gestão; tornam-se problemáticos quando passam a operar como critério implícito de excelência. A decisão deixa de ser avaliada pela integridade da razão pública e passa a ser aferida pelo volume produzido. A racionalidade argumentativa cede lugar à aceleração mecânica.

A historiografia demonstra que a absolutização da eficiência instrumental tende a empobrecer o conteúdo normativo das instituições. Desde Aristóteles, a phronesis — prudência prática — indicava que decidir não é aplicar automaticamente regras, mas deliberar racionalmente à luz das circunstâncias. A técnica pode orientar; apenas a prudência legitima. A aceleração pode ser necessária; a superficialidade, nunca.

Modernidade processual brasileira

Conhecer essa tradição filosófica não é um luxo acadêmico. É reconhecer que a crise contemporânea da decisão — frequentemente descrita como crise de integridade, estabilidade e coerência — não será resolvida exclusivamente por métricas. Metas de celeridade são legítimas em um sistema sobrecarregado. Contudo, a qualidade da jurisdição depende de algo que a filosofia já ensinava: imunidade às paixões desordenadas (apatheia) e serenidade diante da complexidade (ataraxia).

A modernidade processual brasileira talvez não resida na invenção de um modelo decisório radicalmente novo, mas na tentativa de traduzir, em linguagem normativa, exigências antigas: fundamentação estruturada, coerência sistêmica e contraditório efetivo. Celeridade e qualidade não são categorias incompatíveis por natureza; tornam-se antagônicas quando a quantidade se converte em valor autossuficiente.

A história do pensamento revela que não há dilemas absolutamente inéditos, apenas novas configurações de tensões permanentes. Reaproximar a prática jurisdicional de sua tradição filosófica não significa retroceder, mas compreender que eficiência sem fundamentação é rapidez vazia, e que qualidade sem gestão é inviável. O desafio contemporâneo consiste em harmonizar ambas: produzir decisões céleres, mas sustentadas por integridade argumentativa. Isso não é ruptura paradigmática. É, em larga medida, a redescoberta — sob nova gramática institucional — de uma sabedoria antiga.

Leonardo Zehuri Tovar

é procurador do Município de Vitória (ES), advogado e doutor e mestre em Direito.

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