Opinião

Fenômeno dos cartéis mexicanos não deve se repetir no Brasil

El Mencho morreu! Viva, El Mencho! Era o mais violento dentre aqueles que são considerados os mais violentos do mundo. Ninguém sentirá saudades dele. Exceto seus comparsas do cartel Jalisco Nova Geração (CJNG).

Divulgação

A reação dos “compadres” foi duríssima, mais de 70 mortos, cenas de pânico no aeroporto de Guadalajara, escolas sem aulas, ruas fechadas, enfrentamentos em praça pública. Veio então a pergunta: isso poderia ocorrer no Brasil? A resposta é não.

Para entendermos é preciso conhecer a história do crime organizado no mundo e no México em particular. Assim como na Sicília, os cartéis mexicanos já existiam antes de o país ter seu Estado consolidado. O tráfico no México teve suas origens no último quarto do século 19.

A Califórnia crescia em ritmo geométrico e linhas de trens eram construídas para que o “Oeste Selvagem” fosse integrado ao país. Milhares de imigrantes chineses, fugindo da fome e de um país em crise vieram como operários, quase escravos, para trabalhar nas construções das linhas de trem.

Trouxeram consigo uma planta conhecida como papoula, da qual extraiam o ópio. Era um produto desconhecido, não havia repressão e sua produção e consumo não sofriam restrição alguma. Mas os efeitos desastrosos logo se fizeram sentir. Viciados faziam qualquer coisa para obter a droga, mulheres da alta sociedade aceitaram prostituir-se pelo ópio. Veio a repressão. Os chineses por este e outros motivos encontraram um lugar ainda melhor para cultivar a papoula: o México, com o atrativo adicional de que o país ainda se convulsionava politicamente, variando entre ditaduras e revoluções, incluindo o famoso Pancho Villa.

Os chineses em pouco tempo dominaram o norte do México sem qualquer resistência, pagamentos em dólar e violência, além da exploração dos miseráveis os tornaram os primeiros barões da droga. Isso até a revolução de Emiliano Zapata, o socialismo mexicano chegou e em apenas um dia multidões mataram todos os chineses que encontraram pela frente. E os que sobraram foram colocados em trens e enviados para a Califórnia.

Surgiram os barões da droga mexicanos

Com o Estado do México ainda estava se formando como nacionalidade, os barões da droga participavam ou influenciavam o novo governo. O Estado, ainda em formação, não possuía forças policiais ou um Exército com identidade nacional. Isso explica porque os cartéis dominam especialmente o norte do México e por qual razão estão dentro do Estado, até porque, historicamente, participaram da construção de uma identidade nacional.

No Brasil é completamente diferente. As facções surgiram quando o Estado brasileiro já estava totalmente consolidado, com executivo, legislativo e judiciário desenvolvidos, forças policiais atuantes e com a figura do Ministério Público. Assim, não é possível que as facções assumam o mesmo papel ou tenham a mesma força que os cartéis mexicanos.

Lá os cartéis enfrentam o Exército no mesmo nível. Aqui isso é impensável. Mesmo os ataques de 2006 são pífios e nada parecidos com o que ocorre no México. Vamos ilustrar: seria mais ou menos a mesma coisa que afirmar que o PCC tivesse participado da ditadura de Getúlio Vargas e que Gregório Fortunato, chefe de sua guarda pessoal e mentor da tentativa de homicídio de Carlos Lacerda, fosse membro do PCC. Essa é a comparação possível.

Concluindo: a história dos cartéis mexicanos, sua evolução e poder, não são comparáveis com as facções. Existe uma exceção que admite certo comparativo: o Rio de Janeiro, mas é uma especificidade dentro do Brasil. Mas essa análise fica para depois.

Márcio Sérgio Christino

éprocurador de Justiça do MP-SP, vice-presidente da Associação Paulista do Ministério Público e professor universitário.

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