Opinião

Incrementando a inovação tecnológica acionada pela ciência

Uma crítica à atividade acadêmica de ensino e pesquisa que aparece frequentemente, até mesmo entre congressistas, é que “a universidade se comporta como uma torre de marfim”, com quase nenhuma interação com o setor produtivo não acadêmico. Segundo os críticos, os pesquisadores conduzem suas pesquisas motivados apenas por seus próprios interesses e questionamentos científicos, sem se preocuparem com a aplicação de seus resultados para o desenvolvimento tecnológico, em benefício da sociedade. Felizmente, dados mais recentes indicam que essa visão anacrônica já não se sustenta mais em nosso país.

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A tendência positiva para reverter esse cenário teve origem mais recente, motivada por ações proativas do governo, não somente através de medidas legislativas, como a Lei do Bem (Lei nº 11.196/2005), que reduziu o risco financeiro empresarial ao permitir deduções fiscais em pesquisa e desenvolvimento, e o Novo Marco Legal de Ciência e Tecnologia (Lei nº 13.243/2016).

Outras ações impactantes também tiveram papel seminal, como a criação, em 2013, da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), por uma ação conjunta do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e do Ministério da Educação, e o forte investimento da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) na inovação em empresas, através do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). Aliás, a inovação empresarial e a reindustrialização em novas bases tecnológicas fazem parte essencial da nova Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (Encti), a ser lançada pelo presidente Lula neste início de ano. A missão fundamental da estratégia é “apontar os caminhos para transformar o conhecimento em tecnologias a serviço da sociedade e a inovação em instrumento de justiça social, promovendo um Brasil justo, desenvolvido e soberano”.

Economia do Conhecimento

Um indicador importante da capacidade de um país em utilizar o conhecimento na promoção do “avanço tecnológico soberano acionado pela ciência”, em uma interação virtuosa entre o setor acadêmico e o setor produtivo não acadêmico, é o número de artigos científicos e tecnológicos publicados em colaboração entre esses dois setores.

Em artigo de divulgação publicado recentemente no blog LSE, da The London School  of Economics and Political Science, o professor Carlos Brito Cruz, ex-reitor da Unicamp e ex-diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), apresenta dados interessantes e, até certo ponto, inesperados do crescimento do número de autores de artigos científicos de países de baixa e média renda — low-and middle-income countries (LMIC), na nomenclatura do Banco Mundial —, em comparação com o mesmo número para países de alta renda — high-income countries (HIC).

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Entre 1994 e 2024, a fração do número de artigos científicos catalogados na base Scopus da Elsevier e de autores dos países LMIC cresceu de 13% para 56%. Isso certamente demonstra que os países de baixa e média renda perceberam a importância da pesquisa científica em seu desenvolvimento sustentável, dentro do moderno cenário da Economia do Conhecimento.

No artigo, o professor Brito Cruz discorre sobre a colaboração entre a academia e o setor produtivo não acadêmico na produção de inovação acionada pelo conhecimento científico. Enquanto nos países LMIC apenas 2% dos artigos publicados têm autores no setor de negócios e coautores na academia, esse número sobe para 3,6% nos países HIC, de certa forma demonstrando maior empenho destas nações em transformar conhecimento científico em inovação tecnológica.

No entanto, quando se considera o papel de instituições de pesquisa de relevância na publicação de artigos com autores da indústria, o Brasil está bem colocado. Com efeito, três países LMIC destacam-se nesse quesito, Brasil, China e Turquia, em que autores das instituições de pesquisa aparecem em mais de 70% dos artigos publicados pela indústria; o maior percentual mundial. O êxito brasileiro é particularmente visível em setores estratégicos como o aeroespacial, o agronegócio e o energético, onde a sinergia entre universidades e empresas encontra-se materializada.

Espera-se que essa tendência positiva se consolide, dentro da Encti, para que avancemos substancialmente na inovação de fronteira, com domínio soberano do conhecimento tecnológico estratégico para o país. Há condições para isso; somos o 13º país na produção de artigos científicos, mas apenas o 52º em inovação tecnológica. A Encti busca principalmente ampliar e fortalecer os canais de interação entre as instituições de ciência, tecnologia e inovação, ICTs, e o setor produtivo não acadêmico para alcançar esse objetivo.

Ricardo Galvão

é cientista, pesquisador e deputado federal.

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