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Embargos Culturais

Caderno de Ossos, de Julia Codo

Caderno de Ossos, de Julia Codo, é leitura que comprova que feridas e traumas do tempo da ditadura ainda perturbam. A autora, jovem paulistana, não é testemunha dos fatos que narra, de triste memória. No entanto, e aqui o ponto mais alto desse belíssimo livro, compartilha historicamente os efeitos da memória histórica sobre a personalidade coletiva, se possível essa abstração. Não é um livro de memórias do tempo (a exemplo dos livros do Gabeira, do Sirkis e do Tavares), porém é um livro de memórias (reais ou fabuladas) de quem somos filhos desse tempo. É, assim, um registro de memória coletiva.

A personagem/narradora deixou a Inglaterra, onde vivia com o marido. Ambos brasileiros. Ele, arquiteto. Ela, sem ocupação definida e por isso espremida pela necessidade (sobremodo pessoal) de uma definição no trabalho e nos projetos de vida. É uma personagem à deriva.

Volta para São Paulo (a princípio transitoriamente). Fica na velha casa do avô, na Mooca. A avó faleceu. O avô está num deplorável estado de demência. Parece que tudo parou no tempo. É aquela sensação que temos quando vamos para a casa de nossos avós. Aquele corredor que parecia infinito torna-se tão curto e tão apertadinho. O leitor já viveu isso? Um buraco em algum lugar da casa será uma metáfora recorrente sobre o tema do esquecimento, que me parece ser o tema central do livro. Havia manchas negras e restos de ferrugem, bonecas esquecidas, fragmentos de memória. Encantado, o leitor devora a estória, até a última página.

O enredo é construído com referência a uma tia da narradora, que fora presa, torturada e desaparecida pela repressão. A ossada da tia estaria na vala comum do cemitério do Perus, em São Paulo. É fato. A vala foi oficialmente descoberta e revelada em 4 de setembro de 1990. Sugiro que o leitor consulte os jornais da época. A terra foi cavada, os ossos (muitos) apareceram em sacos plásticos. Luiza Erundina era prefeita de São Paulo. É mórbida a descrição dos esqueletos.

A narradora conhece um arqueólogo forense, um dos responsáveis pela identificação dos ossos. O projeto não andava por falta de verbas. A autora critica políticas públicas (do governo de 2019 a 2023). Parte do livro se passa ao longo da Covid-19. O arqueólogo falava com os esqueletos, e tentava situar as ossadas em alguma trajetória que fizesse sentido. Os três pontos centrais do livro, na minha leitura, são: o cemitério de Perus (as ossadas e a tia), a casa do avô e a persistência da memória. Nas palavras da narradora, voltar a uma casa do passado é sempre apavorante. Aviso: o leitor vai se apavorar.

A tia desparecida é um mistério. A autora evoca o delicado tema da tortura fazendo coro com o “nunca mais”. No contexto das reminiscências da infância a autora problematiza a indefinição que as palavras “política” e “tortura” têm para as crianças. A autora critica uma resistência oficial à verdade, escudada no terrível e abominável mantra: “quem procura ossos é cachorro”.

Spacca

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A relatividade do tempo é um eixo que também flui na narrativa. O avô carrega no pulso um relógio que há muito não funcionava e que marcava eternamente que eram 11 horas e 17 minutos. A autora imagina arqueólogos do futuro. O que restará de uma civilização que se desmaterializa e que recolhe todas suas referências e informações em nuvens virtuais. E se as nuvens desaparecerem? O leitor já perdeu uma foto armazenada no celular?

Com habilidade a autora intercala o seu passado (década de 1980), o presente (início dos anos 2020), o tempo da tia desaparecida (1968-1969), acrescentando sonhos intrigantes. A relação com a mãe (que é médica), com o avô (que tanto ama, mas que já não a reconhece) e com o marido, contextualizam um núcleo humano cujos laços se fragmentam. Pode ser o destino de muitas famílias.

Caderno de Ossos é um título engenhoso. A narradora encontrou cadernos antigos e amarelados da tia desaparecida, o que fixa os limites do passado. Os ossos do cemitério do Perus, que complementam o título, fixam a extensão do presente. Caderno de Ossos é de longe um dos melhores livros brasileiros de 2025.

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

é livre-docente pela USP, doutor e mestre pela PUC- SP e advogado, consultor e parecerista em Brasília, ex-consultor-geral da União e ex-procurador-geral adjunto da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

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