Quatro mulheres por dia. Em 2025, o Brasil alcançou o maior número de feminicídios desde que o crime passou a ser tipificado: 1.470 vidas interrompidas pela violência de gênero, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O número é parcial — estados como Alagoas, Paraíba, Pernambuco e São Paulo não enviaram dados de dezembro, o que significa que a realidade pode ser ainda mais brutal. Desde 2015, já são 13.448 mulheres mortas por serem mulheres. Não há eufemismo possível para esse genocídio silencioso que acontece dentro de casas, em relações de intimidade, por mãos que deveriam acolher.

Diante dessa carnificina cotidiana, a cultura produz uma resposta. Não por acaso, 2025 também viu o lançamento de “The Housemaid” (A Empregada) e a série “All Her Fault” (Tudo Culpa Dela) — duas produções que subvertem radicalmente a narrativa tradicional da violência contra a mulher. Nelas, as mulheres não são apenas vítimas passivas à espera de salvação institucional. Elas se tornam aliadas, estrategistas, agentes da própria justiça. A empregada e a patroa se unem contra o marido abusador. As mães julgadas e culpabilizadas pela vizinhança param de se destruir mutuamente e começam a investigar por conta própria.
Essas histórias de vingança e sororidade não surgem no vácuo. Elas são sintomas de algo muito mais profundo: a frustração coletiva diante de um sistema de proteção que chega tarde demais, quando chega. São narrativas que perguntam, implicitamente: se a justiça formal não protege, se as instituições falham em sua função mais básica de preservar vidas, o que resta às mulheres senão se protegerem umas às outras? Quando a ficção precisa criar heroínas que fazem justiça com as próprias mãos, não estamos apenas diante de entretenimento — estamos diante de um espelho incômodo que reflete nossas falências institucionais e sociais.
Obras como diagnóstico social
“The Housemaid” e “All Her Fault” não são apenas thrillers bem construídos. São termômetros culturais que medem a temperatura de uma sociedade que assiste, impotente ou conivente, à violência sistemática contra mulheres. O que essas narrativas captam — e que os dados estatísticos não conseguem expressar — é a dimensão subjetiva do terror: o gaslighting que faz a vítima duvidar da própria sanidade, o controle financeiro que transforma a casa em prisão, o isolamento social meticulosamente construído pelo abusador.
Em “The Housemaid”, o que inicialmente parece ser uma rivalidade clássica entre empregada e patroa se revela uma armadilha narrativa deliberada. Millie e Nina não são inimigas, elas são duas mulheres presas nas teias do mesmo predador. Andrew, o marido abusador, é o arquétipo do narcisista violento que domina a série histórica de feminicídios: charmoso em público, monstruoso em privado. Usa táticas de manipulação psicológica que não deixam marcas visíveis, o tipo de violência que não gera boletim de ocorrência até que seja tarde demais. O filme expõe a pergunta que a sociedade insiste em fazer à vítima — “por que ela não vai embora?” — como a pergunta errada.
“All Her Fault” ataca outra camada dessa violência: a culpabilização materna. O título da série já é uma provocação: quando uma criança desaparece, quando algo dá errado, é sempre culpa dela. Da mãe. A vizinhança julga. A mídia disseca. As outras mães se afastam, com medo de contaminação social. A série mostra que por trás das fachadas impecáveis dos subúrbios de classe média existem segredos podres – violência doméstica, controle, abuso.
Essas narrativas funcionam porque tocam em algo que toda mulher brasileira reconhece: o desamparo institucional. Quando Millie e Nina percebem que não podem contar com a polícia, com a justiça, com ninguém que chegue a tempo, elas fazem o que milhares de mulheres reais fazem todos os dias, criam redes clandestinas de proteção. A diferença é que na ficção essa rede culmina em vingança; na vida real, frequentemente culmina em mais uma estatística.
A vingança ficcional surge, portanto, não como celebração da violência, mas como sintoma de uma falência. Quando a audiência torce para que Millie execute seu plano meticuloso, quando celebramos a queda de Andrew, não estamos aplaudindo a justiça pelas próprias mãos, estamos expressando a frustração coletiva com um sistema que chega sempre um corpo tarde demais.
Sororidade como resistência e sobrevivência
A genialidade dessas obras está em subverter uma das táticas mais antigas do patriarcado: dividir para conquistar. Millie e Nina deveriam ser inimigas, a esposa traída e a “outra mulher”, a patroa de classe alta e a empregada vulnerável. As mães de “All Her Fault” deveriam estar competindo pelo status de “mãe perfeita”, julgando umas às outras, isoladas em suas casas impecáveis. Essa é a narrativa esperada, o roteiro social que mantém mulheres desconfiadas e separadas umas das outras.

Mas algo se rompe quando elas identificam o verdadeiro inimigo. Não é a outra mulher. É o sistema de violência que se beneficia da nossa desunião. Quando Millie e Nina param de brigar entre si e começam a comparar suas histórias, os padrões emergem com clareza assustadora: as mesmas táticas de controle, as mesmas mentiras, o mesmo ciclo de violência.
A sororidade retratada nessas obras não é o feminismo romantizado de frases de efeito em redes sociais. É sororidade como estratégia de sobrevivência. É crua, urgente, nascida do desespero e da necessidade. É a única trincheira que resta quando todas as outras linhas de defesa falharam. Não há idealismo nisso, há pragmatismo de quem entendeu que sozinha ela morre, mas juntas elas têm chance.
E isso espelha movimentos muito reais. Pense nos grupos de whatsApp onde mulheres compartilham o nome e a foto de agressores conhecidos. Nas redes de vizinhas que combinam sinais de socorro discretos. Nas amigas que criam códigos para pedir ajuda durante ligações aparentemente banais. Nas mães que se revezam para acolher a filha da outra quando ela precisa sair de casa com urgência. Nas colegas de trabalho que mentem para o chefe violento sobre o paradeiro da funcionária que fugiu.
Essas práticas cotidianas de proteção mútua raramente viram notícia. Não há dados estatísticos sobre quantas mulheres foram salvas por outras mulheres. Mas toda mulher conhece essas histórias porque já viveu uma, já foi salva por uma ou já salvou alguém.
A resposta real tem sido a criação de redes informais de apoio que funcionam apesar do Estado, não por causa dele. Grupos de acolhimento. Casas de passagem clandestinas. Advogadas que atendem de graça. Psicólogas que burlam as listas de espera do SUS. Vizinhas que “não viram nada” quando a mulher some com os filhos no meio da noite.
Essa sororidade de trincheira expõe uma verdade incômoda: quando o sistema institucional falha sistematicamente, as mulheres não ficam esperando. Elas constroem o que podem com o que têm. E o que têm, muitas vezes, é apenas uma à outra.
Problema da vingança como solução
Aqui chegamos ao ponto mais incômodo da reflexão: por mais satisfatória que seja a vingança na tela, ela revela uma falência que não podemos romantizar. Quando a narrativa cultural precisa colocar mulheres executando seus próprios abusadores, não estamos diante de uma celebração estamos diante de uma denúncia brutal ao Estado.
A catarse que sentimos ao ver Andrew receber o que “merece”, ou ao assistir as mulheres de “All Her Fault” expondo publicamente seus agressores, não é apenas entretenimento. É a expressão de uma frustração coletiva e profunda: a justiça formal não está chegando. As medidas protetivas são concedidas e descumpridas. Os agressores são processados e voltam para casa. As vítimas denunciam e são mortas dias depois.
Trabalho há anos no sistema de justiça e conheço as limitações por dentro. Sei do esforço diário de promotoras, delegadas, defensoras e juízas que tentam fazer a máquina funcionar com recursos escassos. Sei também das medidas protetivas concedidas às 22h de uma sexta-feira, quando não há efetivo policial suficiente para fiscalizar o cumprimento. Sei das audiências que demoram meses para serem marcadas, enquanto a mulher segue dormindo a metros do agressor.
A ficção da vingança, portanto, expõe não a solução, mas o tamanho do problema. Mas a vingança como prática, não como catarse ficcional, mas como ação real — é uma solução falsa e perigosa. Primeiro, porque opera na mesma lógica de violência que deveria combater. Segundo, porque resolve o problema individual mas não toca na estrutura que produz milhares de outros. Terceiro, porque coloca nas costas das vítimas mais um fardo impossível.
A pergunta correta não é “a vingança é justificada?”. A pergunta correta é: “Por que chegamos ao ponto em que a vingança parece ser a única alternativa viável na imaginação cultural?” E a resposta a essa pergunta não está nas vítimas, está nas instituições.
Quando Millie precisa se tornar uma justiceira serial porque o sistema não protege mulheres, o filme não está propondo um modelo a ser seguido, está gritando que algo está profundamente errado. A popularidade dessas narrativas é um termômetro social: quanto mais aplaudimos a vingança ficcional, mais estamos confessando nossa descrença na justiça real. E essa descrença não é infundada. É construída sobre 13.448 corpos de mulheres que confiaram no sistema e não sobreviveram para contar a história.
Do espelho à transformação
“The Housemaid” e “All Her Fault” nos mostram quem somos: uma sociedade que falha sistematicamente em proteger mulheres da violência. Essas obras funcionam como espelhos porque refletem verdades que preferíamos não ver, o desamparo institucional, a culpabilização das vítimas, a necessidade de criar redes paralelas de proteção porque as oficiais não funcionam.
A sororidade retratada na ficção, aquela rede urgente de proteção mútua entre mulheres, não pode continuar sendo a única linha de defesa. Ela é necessária, vital até, mas é insuficiente. E mais: é injusto que recaia sobre as próprias vítimas a responsabilidade de se protegerem umas às outras enquanto o Estado se ausenta de sua função básica.
O que essas narrativas nos exigem não é aplaudir a vingança, mas transformar as estruturas que a tornam imaginável como única saída. Transformar esse cenário exige mais do que boa vontade. Exige investimento em estrutura: delegacias especializadas que funcionem 24 horas, com equipes capacitadas. Exige sistemas integrados de informação para que uma medida protetiva concedida no fórum seja imediatamente comunicada à polícia, à saúde, à assistência social. Exige monitoramento eletrônico real de agressores. Exige casas-abrigo suficientes, com localização sigilosa e suporte integral.
Mas a transformação não é apenas técnica, é cultural. Precisamos parar de perguntar “por que ela não saiu?” e começar a perguntar “por que nós, como sociedade, permitimos que ele a mantivesse presa?”. Precisamos parar de julgar as mães e começar a investigar os pais. Precisamos entender que violência doméstica não é “briga de casal” é crime, e crime que mata.
A sororidade que vemos nas telas precisa se traduzir em política pública. Aquelas redes informais de mulheres que se protegem mutuamente? Elas deveriam ser desnecessárias porque o Estado cumpriu seu papel, mas já que existem, deveriam ser reconhecidas, fortalecidas, até institucionalizadas. Grupos comunitários de mulheres que identificam casos de violência no bairro e fazem a ponte com os serviços de proteção. Redes de empresas que oferecem emprego prioritário para mulheres em situação de violência.
E para nós, operadores do sistema de justiça, o desafio é ainda mais direto: cada processo que demoramos a analisar pode ser uma vida. Cada medida protetiva concedida que não fiscalizamos pode ser o intervalo entre a denúncia e o feminicídio. Cada vez que naturalizamos a violência ou duvidamos da palavra da vítima, estamos sendo cúmplices do sistema que produz quatro mortes por dia.
As 1.470 mulheres assassinadas em 2025 não precisavam de heroínas vingadoras. Elas precisavam de um Estado que funcionasse. De instituições que chegassem a tempo. De uma sociedade que acreditasse nelas antes do corpo aparecer nas estatísticas. A ficção nos deu o diagnóstico. Agora a realidade exige a cura. E essa cura não virá de mulheres fazendo justiça pelas próprias mãos, virá de instituições fazendo o trabalho para o qual existem.
O espelho está diante de nós. Resta saber se teremos a coragem de transformar o que ele reflete.
Seja o primeiro a comentar.
Você precisa estar logado para enviar um comentário.
Fazer login