Há algo de profundamente simbólico no futebol contemporâneo, e não me refiro a esquemas táticos ou a estatísticas. Refiro-me a uma mudança de mentalidade. De imaginário.
Lembro-me de quando a regra que proibia o goleiro de agarrar com as mãos o recuo deliberado do companheiro foi saudada como uma revolução. Seria o fim da cera, da acomodação, do jogo burocrático. Durante algum tempo, pareceu funcionar.
Mas o futebol, como as instituições, também aprende a contornar as regras. O velho recuo transformou-se em outra coisa. Hoje ele não precisa mais ser dado ao goleiro. Basta fazê-lo horizontalmente. O resultado é semelhante: posse de bola estéril, circulação interminável, um “tiki-taka” no meio do campo que confunde movimentação com criatividade e controle com coragem.
A grande jogada ofensiva do futebol atual parece resumir-se a um cruzamento para a área. Dribles? Cada vez menos. Jogadas agudas? Raríssimas. Improviso? Quase uma heresia. Por isso, viva, Messi!
O jogador que parte para cima do marcador parece ter sido substituído pelo funcionário que cumpre protocolo. O futebol produziu seus próprios burocratas.
1. Chego, então, ao Brasil: a derrota, a desclassificação.
Não basta dizer que perdemos. É preciso compreender como se perde. Contra a Noruega, assistimos a um espetáculo de resignação. Os noruegueses trocavam passes lentamente. O Brasil aguardava pacientemente em seu próprio campo. Como se recuperar a bola fosse um detalhe secundário.

Onde estava a pressão imediata? Onde estava aquilo que os alemães chamariam, metaforicamente, de uma blitzkrieg para recuperar a posse?
Nada. Os jogadores apenas cercavam, acompanhavam, observavam. Espirravam em torno da bola. Pateticamente. O resultado foi quase pedagógico.
Dois gols. Porque quem espera permanentemente acaba premiando o adversário. Mas talvez o problema nem seja exclusivamente tático. O problema é anterior. É cultural. Falta vigor. Falta dedicação. Falta sangue nos olhos.
A seleção brasileira parece ter se transformado em uma atividade paralela. Comercial.
O técnico divide seu tempo entre convocações e campanhas publicitárias de cerveja. Isso que, segundo noticiou a imprensa, recebe 4 milhões por mês. E renovou até 2.030. E precisa do comercial da Brahma. Que coisa, não?
Há jogadores com dezenas de contratos comerciais. Diz-se que um empresário sozinho possui um terço dos jogadores da seleção na sua carteira.
Um anuncia bancos. Outro promove casas de apostas. Outro vende cerveja. Outro se jacta (adoro essa palavra) de ter R$ 200 mil em perfumes e cremes para pele e cabelo. E, pior, diz que a Copa lhe tirou as férias. Sim, foi Raphinha quem disse tal absurdo. E ainda faz propaganda dos produtos usados por sua esposa.
E o que dizer de Neymar, que, conforme se noticiou e mostrou, levou relógios avaliados em 22 milhões. E a malta pintando ruas de verde e amarelo. Pobre povo.
2. Perdeu o jogo, frustrou a torcida, colocou dois brincos de diamante em cada orelha e foi ao cinema
É a paráfrase do clássico Matou a Família e Foi ao Cinema, de 1969, dirigido por Júlio Bressane, obra marco do cinema marginal. Poucos, à época, souberam ler o niilismo ali escancarado, manifestado no grito de revolta e descrença frente às utopias políticas da época e à opressão da ditadura militar.
Niilismo, bem entendido, vai além de agir mal sem demonstrar peso na consciência: é o esvaziamento dos valores que davam sentido à própria coisa. No filme, o protagonista mata a família e vai ao cinema. Lembra Raskolnikov, de Crime e Castigo. Só que, atenção, não o Raskolnikov de depois do crime, devorado pela culpa até a confissão; o de antes, aquele que se convenceu de que cometera um gesto extraordinário e que o homem extraordinário está acima do julgamento comum.
É esse Raskolnikov de antes que vejo nos jogadores da seleção. Perdem o jogo e saem sorrindo. Vini Jr coloca dois brincos em cada orelha (devem valer alguns milhões) e abre o sorriso e vai para o jantar. Ou ao cinema, como no filme. Remorso zero. Culpa nenhuma. Isso se repete em Ancelotti. Com seu chiclete incansável. Aliás, não entendi por qual razão os fabricantes de goma de mascar não contrataram Ancelotti.
Não há pecado algum em ganhar dinheiro. O problema começa quando a profissão principal parece transformar-se em atividade acessória. A seleção deixa de ser o centro. Passa a ser uma plataforma de exposição para marcas.
A pergunta inevitável é simples. Em que momento há tempo para pensar futebol?
Jogadores milionários que pouco se importam com o que a torcida pensa. Não é moralismo. É prioridade. Pelé, Zico, Beckenbauer, Zidane faziam publicidade. A diferença é que a publicidade era consequência. Hoje ela parece ser o projeto principal.
O futebol virou intervalo comercial. Como venho insistindo há anos a respeito do Direito, que de prática interpretativa foi convertido em gerenciamento de procedimento, a burocracia engole tudo. O futebol não escapou; há apenas mapas de calor, GPS, métricas, algoritmos… e muita frescura. Enfim, parece que o futebol imita o Direito.
Tem de tudo. Só falta o futebol. O ludopedismo. A propósito: já não há cobradores de faltas. Dizem que treinar cobranças prejudica o joelhinho. Pobre gente. Que pena que eu tenho.
Fundamentalmente, falta justamente aquilo que fazia alguém levantar do sofá. Os jogadores jogam passando a bola para o lado e para trás. O dinizismo venceu. Aliás, deveriam ter deixado Diniz na seleção. Encaixaria melhor. E sem o chiclete do mister.
Em algum momento convencemos nossos jogadores de que errar tentando é pior do que acertar sem criar.
Talvez aí esteja a verdadeira derrota. Não apenas da seleção. Mas da própria ideia de futebol.
Enfim, esculhambaram (com) o futebol. Apatifaram-no, cobrindo-o de ouro e diamantes. E de Rolexes. Patek Philippes, Richard Milles etc. De empresários. De assessorias de imprensa que blindam determinados jogadores de quaisquer críticas. Claro, e de jornalistas amigos.
E o que dizer dos influencers transformados em comentaristas? Nada menos do que patético. E os repórteres entrevistando o pipoqueiro e o guarda de trânsito? O pré-jogo virou uma disputa de palhaçadas sem graça.
No fim, é o que resta: perderam o jogo, puseram os brincos, os relógios… e foram ao cinema. Sem remorso. Sem culpa. Como no filme. E no livro.
Sobre as regras, näo é diferente do que o PJ faz com nossas leis. Lei dos crimes hediondos, lei de improbidade administrativa, regra CONSTITUCIONAL de acúmulo de cargos e funcöes, etc. Quem faz lob para isso acontecer? Todos sabemos, näo precisa falar. Semana que vem falaremos sobre um certo juiz que apresentou um certo laudo médico para se defender de acusacäo de abuso? ou vamos nos esconder falando de IA?
Caro Professor Lenio, bom dia! Eu sou de uma geração que não viu uma seleção brasileira encantadora. Sou de 1994. O primeiro contato que tive com o futebol de seleções foi em 2006. Já estava em declínio. Não somos mais o país do futebol. Somos o país do meme, da desilusão, da descrença, da descredibilidade! A solução para esse quadro existe, mas ninguém tem coragem de mudar. Assim como está acontecendo no futebol. Abraços!
O uso do "Raskolnikov de antes", como chave de leitura para a falta de remorso técnico e a indiferença simbólica após a derrota é um insight muito bom.
Ironicamente correto; parece com o saudoso Stanislaw Ponte Preta e o FEBEAPAF - um estival de besteiras que assola o país do futebol. Lenio acertou o alvo de novo, com seu humor acridoce. Sarcasticamente adequado...parabéns mais uma vez.
Excelente crônica. O que mais me tocou não foi a crítica aos brincos ou aos contratos publicitários (isso é sintoma), mas a distinção entre os dois Raskólnikov. O problema não é a culpa disfarçada, é a ausência de luto: perde-se e segue-se em frente como se nada tivesse de peso. A casca do futebol continua de pé, mas o sentido que a sustentava evaporou.
A frase que resume tudo é aquela sobre convencermos os jogadores de que errar tentando é pior do que acertar sem criar. Vale para o passe horizontal, vale para o Direito virado gestão de procedimento, vale para quase tudo hoje. Trocamos a coragem pelo controle e chamamos isso de maturidade.
É grave saber que os jogadores não utilizarão essa derrota como força para melhorar e chegar mais fortes na próxima Copa. Continuam batendo no peito com orgulho para dizer que têm cinco estrelas no escudo, e parecem satisfeitos como quem diz “já fizemos tudo que deveria ter sido feito”. Deveria haver vontade para mais. Talvez haja nos mais novos.
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