Escalada de ameaças

Suprema Corte dos EUA pede aumento de verba para segurança de ministros

Houve um tempo, não muito distante, que os ministros da Suprema Corte dos Estados Unidos não precisavam de agentes de segurança para protegê-los. Dirigiam seus próprios carros para o trabalho; andavam nas ruas ou iam ao restaurante, ao cinema, ao parque e outros lugares públicos sozinhos ou com familiares. Assim também era a vida dos demais juízes federais.

Mas tudo mudou. Em 2022, por exemplo, a ministra Amy Coney Barrett, ameaçada de morte, teve de usar um colete à prova de balas ao ir para casa, sob a proteção de agentes de segurança. Seu filho a flagrou guardando o colete e queria saber o que era aquilo.

Pacamah/Wikimedia Commons

Sede da Suprema Corte dos Estados Unidos, Suprema Corte dos EUA, SCOTUS

Suprema Corte pediu ao Senado um aumento de 10% na verba para o próximo ano fiscal

“Não esperava que o cargo de ministra iria me colocar na posição de ter de explicar a uma criança o que era um colete à prova de balas e por que eu tinha de usar um”, disse ela em uma audiência no Comitê de Orçamento a Câmara dos Deputados, para defender a proposta orçamentária da corte para o ano fiscal de 2027.

A ministra Amy Coney Barrett e sua colega Elena Kagan foram ao Congresso com a missão de explicar aos deputados — e depois aos senadores — a razão pela qual a Suprema Corte vinha requisitando mais verbas para cumprir suas missões.

E há uma razão principal: a escalada de ameaças à vida e de outros tipos de violência contra os ministros. Em 2025, o U.S. Marshals Service, encarregado da segurança da Suprema Corte e dos ministros, investigou 807 ameaças consideradas sérias. Só no primeiro semestre de 2026, foram 512 investigações. A estimativa é que passem de mil até o final do ano).

Todas as ameaças têm o objetivo de intimidar os juízes. Algumas são veladas, outras escancaradas. Entre outros casos, um que se tornou repetitivo é a entrega de pizzas (não encomendadas) nas casas dos alvos. Uma delas foi endereçada ao filho da juíza federal Esther Salas que, aos 20 anos, foi assassinado a tiros, dentro de casa, por um homem que pretendia matar a magistrada.

Alguns atentados contra juízes federais foram registrados nos últimos anos. Mas nenhum contra ministros da Suprema Corte — a não ser uma tentativa de assassinato do ministro conservador Brett Kavanaugh, em sua casa em Maryland.

Em 2022, uma mulher transgênero chamada Sophie Roske decidiu que poderia resolver, com as próprias mãos, o problema da supermaioria conservadora da Suprema Corte: matar três ministros. A primeira vítima seria Kavanaugh. Roske foi condenada a oito anos de prisão.

Há também ataques que visam apenas perturbar a vida dos ministros. Em seu testemunho na Câmara dos Deputados, Amy Coney Barrett declarou que foi vítima de um “swatting attack” — assim chamado porque envolve a Swat, unidade de elite da polícia dos EUA.

A Swat (Special Weapons and Tactics) entra em ação quando os serviços de emergência recebem uma chamada para relatar um crime grave em andamento — como a presença de um atirador ativo, uma ameaça de bomba ou uma situação com reféns — no local onde se encontra uma vítima, que muitas vezes nem sabe o que está acontecendo.

Dezenas de viaturas policiais cercaram a casa da ministra, com o aparato alarmante de sempre, e assustaram sua família. Felizmente, ela disse, os agentes de segurança à frente de sua casa explicaram aos policiais que nada aconteceu. E isso evitou uma invasão de sua casa.

Efeito Trump

Em uma audiência subsequente no Senado, o senador democrata Jack Reed perguntou às ministras se o presidente Donald Trump teria alguma responsabilidade no aumento das ameaças aos ministros e demais juízes federais.

Para o senador, as respostas furiosas de Trump a decisões adversas na justiça federal, que incluem insultos às cortes e aos juízes, podem ter exercido alguma influência em parte de seu eleitorado, o mais radical.

Na campanha eleitoral de 2016, a candidata democrata, Hilary Clinton, chamou esse grupo de “a basket of deplorables” (um cesto de deploráveis).

A ministra Elena Kagan respondeu: “Críticas são legítimas. Sinta-se à vontade para fazê-las. A vida na cidade grande implica estar sujeito a todo tipo de crítica. Mas intimidação é algo completamente diferente. E quando figuras políticas de qualquer corrente tentam intimidar juízes, é aí que realmente cruzamos a linha”.

A ministra disse que as coisas começaram a mudar, no que se refere à segurança dos ministros da Suprema Corte, em 2017 — por coincidência, nos primeiros meses do primeiro mandato de Trump (20 de janeiro de 2017 a 20 de janeiro de 2021). O mandatário tem um histórico de insultos a juízes.

“Até 2017, eu não tinha uma equipe de segurança própria e só era acompanhada por agentes de segurança quando participava de eventos públicos relacionados ao trabalho. Começamos a expandir nosso programa de segurança de forma mais intensa em 2017, graças a iniciativas de membros do Congresso”, disse Elena Kagan.

Proposta orçamentária

A Suprema Corte está pedindo ao Congresso a alocação de US$ 228,4 milhões para o ano fiscal de 2027 — um aumento de quase 10% em relação aos US$ 207,8 milhões alocados para 2026. O aumento reflete gastos mais elevados com medidas de segurança, tanto para a proteção dos magistrados quanto para a cibersegurança.

O orçamento proposto pela Suprema Corte representa menos de um décimo de um por cento do orçamento de todos os tribunais federais. “Essas estatísticas parecem abstratas, mas vivenciá-las na prática não é”, disse a ministra Amy Coney Barrett ao Comitê de Orçamento da Câmara.

Elena Kagan acrescentou que, além da necessidade de montar um sistema que se tornou indispensável para a cibersegurança da corte, foi preciso mudar a reponsabilidade da segurança residencial dos ministros para a Polícia da Suprema Corte.

Com informações da National Public Radio (NPR), CNBC, BBC, PBS e News Nation.

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