O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que um dos desafios para o Brasil alcançar um crescimento sustentado em ganhos de produtividade da economia é se integrar de forma mais eficiente às cadeias globais de valor de inteligência artificial.
Para Gabriel Galípolo, integração mais eficiente do Brasil às cadeias globais terá impacto em ganhos de produtividade
Segundo ele, as expectativas de ganho de produtividade existentes hoje no mercado relativas à IA estão produzindo uma projeção futura de cenário com maior abertura e flexibilidade e um mercado de trabalho menos apertado.
“Esses ganhos de produtividade vão botar menos pressão sobre a inflação e vão permitir uma política monetária não tão apertada no longo prazo e no médio prazo. O Brasil, ainda que não esteja ‘linkado’ com uma cadeia global de valor de AI (artificial intelligence), tem esse benefício que se passa para o mundo todo, enquanto se permanecer essa visão de uma curva de juros bastante mais bem comportada, com um dólar desvalorizado, o que colabora bastante para a economia brasileira”, afirmou o chefe da autarquia nesta terça-feira (3/6) durante participação remota no XIV Fórum de Lisboa.
Dissonância global
No painel intitulado “Os rumos da economia brasileira: reflexões internacionais”, Galípolo também discorreu sobre a dissonância global entre a inflação medida pelo BC e a percepção do custo de vida pela população. Ele afirmou que, no Brasil, apesar de a soma entre inflação e desemprego estar no nível mais baixo da história, o sentimento da população ainda é diferente, principalmente porque a renda não cresceu na mesma velocidade do que o nível de preço.
“Isso decorre primeiro do fato de que existe uma divergência entre o que é o mandato do Banco Central e o que as pessoas sentem”, disse. “As pessoas estão muito mais relacionadas com o nível de preço enquanto o Banco Central está mirando a inflação.”
De acordo com Galípolo, a sensação das pessoas é de que tudo ficou mais caro, porque, com a mesma renda recebida, elas conseguem comprar menos coisas. A percepção dissonante, segundo ele, não é exclusiva do Brasil e vem sendo apontada em papers internacionais que tratam do custo do custo de vida (affordability), tema frequente em discussões eleitorais nas principais economias do mundo, e do misery index, indicador que mede o nível de conforto e desconforto da população com a economia, somando o desemprego e a inflação.
O presidente do BC destacou o desempenho da economia brasileira frente a quatro grandes choques globais, casos da pandemia de Covid-19, da Guerra da Ucrânia, dos choques tarifários conduzidos pelo governo Trump e do conflito no Irã, e classificou o segundo tarifaço a ser aplicado pelos Estados Unidos como “mais intenso” em relação ao primeiro.
Galípolo disse ainda que, por conta da atuação mais diversificada, com uma cadeia de valor menos vinculada aos Estados Unidos, a economia brasileira ficou, de certa forma, mais protegida diante dos grandes choques globais.
Ajuste fiscal
No mesmo painel, o presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Isaac Sidney, compartilhou da mesma avaliação do chefe do BC sobre o bom comportamento da economia frente aos choques globais e elogiou a credibilidade da autarquia brasileira no cenário internacional. No âmbito regulatório doméstico, ele defendeu os fortalecimentos do BC e da Comissão de Valores Mobiliários para que haja maior autonomia técnica e ressaltou a necessidade de enfrentamento às fraudes financeiras no ambiente digital.
Isaac ainda disse que o processo de ajuste fiscal em curso no país deve ser mais profundo e efetivo para que a economia caminhe rumo a um cenário de maior estabilidade na relação dívida/PIB. Ele também defendeu uma retomada de reformas econômicas estruturais como agenda complementar.
Nelson Barbosa, diretor de Planejamento e Relações Institucionais do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), destacou os bons índices da economia brasileira no evento e, assim como Sidney, disse haver um reequilíbrio fiscal gradual em curso. A avaliação dele é que esse movimento vem sendo realizado na velocidade em que a política e a sociedade brasileira aguentam.
Barbosa também afirmou que há uma expectativa de que a inflação caia rápido no início do ano que vem. “O Galípolo não pode falar por razões óbvias, mas eu posso. Provavelmente, lá para março e abril, estaremos discutindo uma queda mais rápida da Selic.”
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, corroborou as falas de Barbosa sobre os bons índices econômicos da economia brasileira, citando o desemprego decrescente no país. Em relação ao Judiciário brasileiro, ela destacou que as discussões sobre a tributação monofásica, regime no qual a cobrança do tributo é concentrada em uma única etapa da cadeia produtiva, são importantíssimas para a garantia do abastecimento nacional de combustíveis no país.
O diretor sênior de Políticas Públicas do Nubank e CEO da Zetta, Eduardo Lopes, também participou do painel.
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