Trabalho Contemporâneo

Acontecente: meu chefe é um robô. E agora?

ENFRENTE PARA IR EM FRENTE
Essa frase não é apenas um jogo de palavras. É uma diretriz existencial.
O que evitamos nos controla. O que enfrentamos nos liberta.
Walter Longo [1]

Esta semana fui tomar café com um querido amigo e uma nova amiga que ele me apresentou. Conversamos sobre o projeto que os dois estão desenvolvendo na área de educação voltado a CHRO (chief human resources officer) e/ou diretor de recursos humanos, executivos de nível C (C-level), responsáveis pela estratégia de gestão de pessoas e capital humano de uma empresa.

O foco do trabalho educacional deles por si só é disruptivo, na medida em que faz com que esse profissional tenha um mindset corporativo voltado ao negócio como negócio, com viés de participação tangível, com capacidade assertiva para uma demonstração clara e efetiva de valor (não só ético, mas, também financeiro) dos atores laborais — inclusive, com demonstração do ROI ou return on investiment (retorno sobre o investimento) — métrica financeira que mede o quanto de dinheiro uma empresa ganhou ou perdeu em relação ao valor investido —, valorizando com isso a importância do trabalho, muito além do singelo acompanhamento estatístico do ato de trabalhar.

Mas, não é esse o objeto do nosso bate-papo de hoje. Talvez numa próxima oportunidade. Quem sabe?

Na mesma conversa — e não poderia ser diferente — perpassamos pelo mundo digital; pela IA (inteligência artificial) e, mais do que isso, pela subordinação humana a chefes digitais…

Lembrei então do saudoso e competente professor Mozart Vítor Russomano, que já em 1954, ou seja, há mais de 70 anos, nos alertava o quanto o mundo do trabalho nos exige um olhar e fazer diferenciados em razão das suas nuances e constantes transformações, destacando que:

apesar de tudo que se tem feito ainda falta tanto para fazer (…) e a realidade dos nossos trabalhadores, especialmente do hinterland [2], chega-se a pensar na insuficiência dos meios jurídicos para solução dos conflitos trabalhistas e da situação dos trabalhadores, se esses meios jurídicos não estiverem coadjuvados, ao mesmo tempo, por uma reforma de base moral e por uma reforma de índole econômica, que aproximem e que nivelem os homens, eternamente desiguais, abrindo para todos as mesmas portas, as mesmas oportunidades e os mesmo caminhos” [3]  (destaques do colunista).

E mais.

Dentre os deveres do empregado junto ao contrato individual do trabalho, ele nos lembrava que se encontra sedimentado o dever de respeito e obediência:

O trabalhador deve respeito ao patrão. Mas não apenas a êle. Deve respeitar, igualmente, os seus superiores, sem distinções, e os seus próprios companheiros de serviço. É uma simples questão de civilidade, que deflui de sua posição jurídica e laboral no mecanismo da empresa.
Pelos mesmos motivos, necessita ser obediente, cumprindo ordens recebidas com dedicação e cuidado, revelando, por essa forma, amor ao trabalho e compenetração.
O empregado obedecerá às ordens concretas e particulares recebidas dos seus empregadores e dos seus chefes imediatos, mas não poderá, também, deixar de cumprir determinações gerais, contidas nos regulamentos.
Se êle não fôr respeitador e obediente, estará agindo com indisciplina ou insubordinação. Nos dois casos, poderá ser despedido com justo motivo” [4] (destaques do colunista).

Spacca

Essa tão clara descrição me fez refletir e questionar se dentro dela estariam enquadrados hoje, neste dever de obediência aos “seus superiores, sem distinções”, os “chefes imediatos” — ainda que digitais (robôs)…

Me fez lembrar também de uma reportagem que li ano passado no Estadão em que dizia que os “Millennials desfrutam de folgas enquanto fingem que trabalham — Relatório da Harris Poll mostra que 28% dos trabalhadores saem de férias sem comunicar o empregador — (…) Veranistas silenciosos. Um estudo separado da Resume Builder constatou que 43% dos veranistas silenciosos estão tirando secretamente até três dias de folga com dinheiro da empresa” [5].

Será que o robô seria mais eficaz nesse controle? Ou nos feedbacks?

Talvez sim, talvez não, pois, afinal e como explica o psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo:

“ferramentas como o ChatGPT são desenvolvidas para agradar o usuário e ratificar suas crenças. Esse perfil bajulador, afirma, pode até produzir alívio imediato, mas, ao não trazer reflexões incômodas próprias de um processo terapêutico, acaba reforçando ideias problemáticas e agravando sofrimentos” [6].

Subordinação, não subordinado, subordinação a quem ou a ninguém ou simplesmente ato sem-subordinação?

Trata-se de uma simbiose laboral dos novos tempos. Tempos de vivência e convivência, por vezes, conivência, entre várias gerações, empurradas e aceleradas por mudanças exponenciais que envolvem benefícios mútuos (mutualismo), indiferença (comensalismo) e até prejuízo para uma ou todas as partes envolvidas (parasitismo), por meio de uma relação fundamental de sobrevivência e evolução desses atores dentro do ecossistema trabalhista atual.

Não à toa e por isso mesmo o título do nosso encontro começa com a palavra Acontecente, que se traduz pela ocorrência no presente dentro do presente, representando algo que se manifesta, realiza ou vem a ser, em que o ser humano se desenvolve num processo contínuo de existência e não como algo estático.

Junior Borneli, fundador da StartSe (empresa de educação continuada) nos provoca no sentido de que “durante décadas, operamos com uma premissa silenciosa: o tempo era linear, previsível e espaçado. O futuro ficava lá na frente. Dez anos era médio prazo. Cinquenta anos, quase ficção. Existia uma distância confortável entre presente e futuro”.

Destaca que essa lógica quebrou e que “o futuro não está mais à frente. Está invadindo o presente. Tecnologias que levariam décadas agora se tornam realidade em poucos anos, às vezes meses. A IA não só acelerou processos. Ela comprimiu o intervalo entre imaginar e implementar”.

Mais ainda.

Ressalta que “o tempo sempre foi percepção. Albert Einstein já mostrava que ele não é absoluto. Ele se deforma conforme a velocidade. Hoje, essa velocidade não é física. É informacional. Dados, decisões e algoritmos estão em fluxo constante. Resultado:  nossa percepção de tempo colapsou. O passado é reprocessado em tempo real. O presente virou fluxo contínuo. E o futuro perdeu sua principal característica: a distância. Ele chega de uma vez. Isso cria um efeito brutal. Planejar como antes começa a falhar. Modelos lineares envelhecem rápido. ‘Esperar para ver’ virou risco. Porque quando você vê, já aconteceu. O intervalo entre entender e agir desapareceu. E isso muda o jogo. A vantagem competitiva não está mais em prever. Está em responder rápido. Não é sobre acertar o futuro. É sobre acompanhar a velocidade dele. No fim, o tempo não colapsou. O que colapsou foi a nossa ilusão de controle. E em um mundo assim, não vence quem sabe mais sobre amanhã. Vence quem age melhor no agora” [7] (destaques do autor).

Sendo assim e mais do que nunca, nós mesmos temos de buscar soluções novas, adequadas e dentro das exigências transformadoras do mundo digital do século 21.

‘Esperar para ver’ virou risco…

Por isso, esperar mudanças legislativas no mundo do trabalho não é o caminho. Pode até ser uma das vertentes dessa estrada, mas, com certeza, é pouco. Muito pouco, dada a velocidade exigida para resolução do novo. Coletivos sociais, sindicatos, empreendedores, advogados e todos aqueles que atuam neste universo chamado ecossistema trabalhista têm de assumir suas responsabilidades e ir em busca de soluções novas, adequadas e de acordo com seus interesses e causas. Escuta ativa, comunicação não violenta e principalmente negociação coletiva ampla, criativa e disruptiva são frentes capazes de solver esses enigmas e enfrentar o que vem à frente.

Não busque culpado. Faça!

Faça o que tem de fazer com ou sem robô. Chefe ou auxiliar digital.

Foco no “Sapiens”: A IA substitui tarefas repetitivas, porém, é do humano as habilidades inerentes à empatia, julgamento crítico e criatividade.

Foco no Human-in-the-loop (Humano no loop): As decisões finais, especialmente as que envolvem julgamento moral e social são nossas.

“Existe uma lenda sobre um rabino que se preparava para viajar de Israel para Roma. Na noite anterior à sua partida, ele teve um sonho no qual viu um mendigo esfarrapado sentado às portas de Roma. No sonho, ele ouviu uma voz que lhe dizia: ‘Vê este homem? Este é o Messias vestido de mendigo.’ O rabino acordou e não conseguiu mais esquecer o sonho. Continuou a pensar nele durante toda a viagem. Finalmente, ao aproximar-se de Roma, avistou um homem maltrapilho, sentado exatamente no local que havia visto no sonho. O rabino chegou-se a ele e questionou: ‘É verdade que você é o Messias?’ E o homem respondeu: ‘Sim.’ O rabino, então, perguntou: ‘O que é que você está fazendo às portas de Roma?’ E o homem replicou: ‘Estou esperando.’ Ao que o rabino retrucou: ‘Esperando?! Num mundo tão cheio de miséria, ódio e guerra, num mundo onde o povo de Israel está disperso e oprimido, num mundo onde existem crianças famintas, você está aqui, sentado, esperando?! Messias, pelo amor de Deus, o que é que você está esperando?’ E o Messias respondeu: ‘Tenho esperado por você, para poder lhe perguntar, em nome de Deus, o que é que você está esperando.’” [8]

Portanto, não espere. Faça! Pois, e concordando com Casanova, há de se compreender “(…) que é preciso insistir no fato estranho de que os homens não nascem, mas morrem; de que não possuem um corpo biológico originário, mas sofrem incessantemente a dor de sua corporificação”. [9]

Corporifiquemos essa responsabilização por nós, para nós e com a participação de todos nós, reais interessados, para vivência adequada num mundo do trabalho melhor e mais autêntico àquilo que se faz necessário.

Para minimizar os efeitos negativos da inteligência artificial (IA) — e até aquelas que estão no comando — façamos e implementemos fortes políticas de compliance; códigos de ética por design; auditorias obrigatórias (inclusive como freio a eventuais discriminações); requalifiquemo-nos de maneira contínua; façamos a manutenção do humano no centro do processo, envolvendo especialistas de diversas áreas para planejar e monitorar o impacto dos algoritmos, além de devido processo educacional de letramento Digital, para que o trabalhador seja e se veja como um  “profissional de tecnologia” dentro de suas próprias áreas, utilizando a IA para aumentar a produtividade e a criatividade, em vez de apenas temer a substituição. Façamos tudo mais que seja necessário.

 “O biografo de Sigmund Freud conta o caso de um importante cirurgião vienense que, ao se encontrar com Freud pela primeira vez, num corredor de hospital onde ambos trabalhavam, lhe mostrou um osso corroído pelo câncer, testemunho de uma vida que ele tinha sido incapaz de salvar, e lhe disse sentir-se profundamente magoado: ‘Sabe, doutor Freud, se algum dia eu me encontrar frente a frente com Deus, vou sacudir este osso em Sua face e perguntar-Lhe porque Ele permite uma doença desta?’. E Freud respondeu-lhe: ‘Se eu, algum dia, tiver essa oportunidade, vou formular a queixa de um modo diferente. Não vou indagar por que Ele permite o câncer, mas, sim, por que Ele não deu a mim, ao senhor ou a qualquer outra pessoa, a inteligência para descobrir a cura desta doença?’” [10]

Façamos como Freud.

 


 

[1] Disponível (21) Enfrente para ir Em Frente | LinkedIn.

[2] E olha que naquela época ainda não existiam os trabalhadores em plataformas! Premonição?

[3] RUSSOMANO, Mozart Víctor. O Empregado e o Empregador no Direito Brasileiro. 1º volume. 2ª edição (acrescida atualizadas). 1954. José Konfino – Editor, pag. 33.

[4] Ob. Cit. págs. 164/165.

[5] Jornal O Estado de S. Paulo. Caderno Oportunidades & Leilões. Pag. B9 de 03 de agosto de 2025.

[6] Disponível aqui.

[7] Disponível aqui.

[8] Disponível aqui.

[9] Casanova, M. A. (2009). Compreender Heidegger. Rio de Janeiro: Editora Vozes, pag. 42.

[10] Aqui.

Antonio Carlos Aguiar

é advogado, mestre e doutor em Direito do Trabalho pela PUC-SP, professor da Fundação Santo André (SP) e diretor do Instituto Mundo do Trabalho.

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