Embargos Culturais

Tolos, Fraudes e Militantes, de Roger Scruton

Roger Scruton (1944-2020) destaca-se como um dos mais emblemáticos pensadores do conservadorismo inglês. Criticado por muitos, e idolatrado por tantos outros, é autor de extensa obra, boa parte traduzida para o português e publicada no Brasil. Entre outros, Tolos, Fraudes e Militantes é um intrigante livro da Record que desafia o leitor atento. Leitura imperdível para tentativa de compreensão das tensões e polarizações que marcam nossos dias.

Spacca

Scruton joga luz sobre autores que sempre lemos e que, francamente, nem sempre entendemos. Cito, de relance, Michel Foucault e Jurgen Habermas. Entre os brasileiros, o diplomata Paulo Roberto de Almeida foi talvez um dos primeiros a impugnar essa literatura dita nova-esquerdista, a propósito de um texto sobre a obsessão com marcos teóricos na pesquisa de pós-graduação em Direito. Lendo Scruton tudo fica mais nítido.

O pensador inglês, com miríade de exemplos, fulmina o marxismo (e seus seguidores notadamente o chamado marxismo ocidental), que aponta como uma promessa e ao mesmo tempo como um chamado fantasmagórico para o reino dos fins. Decididamente, o marxismo, para Scruton, seria “uma lúgubre dança de sombras no cemitério da metafísica alemã”.

Scruton lembra a passagem de Marx (creio que na Ideologia Alemã), para quem o homem da futura sociedade comunista caçaria pela manhã, pescaria pela tarde, cuidaria do gado no início da noite, e após o jantar faria crítica literária. Scruton pergunta: mas, quem fornece a espingarda? Quem fornece a vara de pescar? Quem organiza a matilha de cães de caça? Quem mantém os bezerros? Quem cuida do leite? Quem publicará a crítica literária? Posso acrescentar com mais duas perguntas: quem editará os livros, ou mesmo quem os escreverá? Nessa lógica, a realidade da economia real tende a desaparecer atrás de sua própria tentativa de explicação, como “um estranho edifício barroco, constantemente desabando em uma sequência onírica de ruínas”.

Para Scruton há uma contradição inerente à utopia marxista. Exemplifica com a necessidade da força para impô-la. Na realidade essa contradição se revolve com artifícios da novilíngua: é o caso do “centralismo democrático”. O autor fulmina essa prosa dita esquerdista cheia de jargões, que reverbera uma gramática assecuratória. Os inimigos são chamados de revisionistas, desviacionistas, esquerdistas infantis, socialistas utópicos, ou mesmo fascistas. No Brasil dos anos 60 e 70 havia o “desbunde”.

Coitadotadismo

Os outros alvos são: Eric Hobsbawn, Edward Palmer Thompson, Galbraith, Dworkin, Rawls, Sartre, Lacan, Deleuze, Gramsci e também o grande intelectual palestino Edward Said, tantas vezes pranteado nessa coluna. O autor também não perdoou Michael Sandel, impugnando os postulados de O Que o Dinheiro Não Compra com o argumento de que os bens reais não seriam cambiáveis. Criticou Joseph Stiglitz (O Preço da Desigualdade), no sentido de que o mercado transfere renda dos mais pobres para os mais ricos. Censurou também Thomas Piketty, o célebre economista francês que é o campeão da causa da justiça social. Scruton contestava o coletivismo “woke” argumentando que o direito do indivíduo não seguiria, necessariamente, o direito do grupo.

Scruton é contra o “coitadotadismo” (a expressão não é dele, é minha), que consiste na luta permanente do acolhimento a qualquer tipo de vítima. O autor faz uma lista, interminável, concluindo o ponto sarcasticamente, lembrando que há vítimas todos os tempos, e em todos os lugares.

Deplora John Rawls e Ronald Dworkin, sugerindo uma Filosofia do Direito com sabor de aspartame jurídico. Scruton é contundente com Dworkin, que identifica como o “sacerdote da Constituição”. Segundo Scruton, para Dworkin, em qualquer discussão, o ônus da prova é do oponente. Ainda de acordo com Scruton, Dworkin, depois de muita discussão, deixa todas as questões intelectuais no mesmo lugar em que as encontrou. A voz do dissidente assume o honroso posto da voz do herói. Scruton problematiza a crença nos princípios e na visão bucólica e procedimental da justiça. Scruton interpreta Dworkin no sentido de que o ativismo é bom desde que os ativistas sejam liberais como Dworkin…

Os intelectuais seriam atraídos pela concepção de uma sociedade planejada, na crença de que seriam -naturalmente- os responsáveis por ditar seus valores e parâmetros. O proletário que se tranquilizasse, os intelectuais tudo proveriam, tudo organizariam, nada lhes faltaria. Basta lembrarmos o proselitismo nas portas das fábricas, sempre justificado pela missão do intelectual no sentido de despertar a consciência e o sentimento de classe do trabalhador. Quem não se lembra da famosa cena do filme Eles Não Usam Black-tie, quando pai e filho se desentendem na porta da fábrica. O pai liderava a greve. O filho furava o piquete.

De acordo com Scruton, a solidariedade internacional do proletariado não passaria de um sonho de intelectuais, marcado por um sentimentalismo forçado. O intelectual (de esquerda, na verdade parece que pouco se fala em intelectual de direita) trata o marxismo como uma filosofia do proletariado, para o proletariado, que passa por um agente inocente e heroico da história contemporânea. E é para esse imaginário proletário que o intelectual dirige seu pensamento e sua ação. Essa é a fonte de tanta frustração para a esquerda, sobretudo após o dia que derrubaram aquela famoso muro que separava dois lados de uma mesma cidade.

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

é livre-docente pela USP, doutor e mestre pela PUC- SP e advogado, consultor e parecerista em Brasília, ex-consultor-geral da União e ex-procurador-geral adjunto da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

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