O Brasil já era um dos maiores laboratórios de litigiosidade do mundo antes da inteligência artificial. Milhões de novos processos ingressam todos os anos no Poder Judiciário, pressionando tribunais, empresas, escritórios, departamentos jurídicos e entes públicos. O CNJ (Conselho Nacional de Justiça) documenta esse fluxo no Justiça em Números e mantém painéis temáticos que permitem acompanhar recortes específicos — como, por exemplo, o direito à saúde, um dos vetores mais sensíveis da judicialização brasileira.

Esse cenário ganha uma nova camada quando os agentes do ecossistema passaram a adotar inteligência artificial. Não apenas as empresas. Não apenas os escritórios de defesa. Também autores, advogados autônomos, lawtechs, financiadores de litígios, departamentos jurídicos, tribunais e órgãos de controle. A consequência é intuitiva, mas ainda pouco debatida: quando todos ficam mais eficientes, a conta final pode não encolher. Ela pode simplesmente mudar de lugar — ou crescer.
O direito à saúde ilustra bem o ponto. De acordo com os números extraídos do site do CNJ, nos três primeiros meses de 2024, entraram 145 mil novos processos nessa matéria; no mesmo período de 2025, 156 mil; em 2026, 163 mil. Só em março de 2026, foram 63 mil casos novos — quase 16% a mais do que em março de 2024. O recorte não autoriza conclusões definitivas, mas indica um vetor de atenção: mais volume, mais velocidade e maior pressão sobre o sistema. O que esses números revelam é um fluxo econômico em aceleração — com incentivos, custos e capacidades que se realimentam continuamente. A inteligência artificial acelera o acesso à Justiça, facilita o encontro de pacientes e advogados, acelera a elaboração de petições, cálculos e permite ao advogado gerenciar centenas ou milhares de clientes.
Chegada da Berna
A novidade é que a IA também chegou ao lado do Judiciário em centenas de projetos. O CNJ disponibilizou a ferramenta Berna (Busca Eletrônica em Registros usando Linguagem Natural) para identificar ações repetitivas e abusivas por meio da análise de padrões de similaridade entre processos. Ao mesmo tempo, o Judiciário utiliza a ferramenta Galileu que, entre diversas aplicações, começa a lidar com riscos típicos da nova fase — entre eles o prompt injection em documentos processuais: comandos ocultos em petições, anexos ou metadados que tentam manipular os sistemas de IA usados na leitura e triagem de processos.
Do lado privado, três movimentos acontecem em paralelo e na mesma direção da eficiência. As lawtechs desenvolvem soluções específicas para o mercado jurídico. Os escritórios constroem internamente agentes, copilotos e sistemas de análise, peticionamento, jurimetria e gestão. E as grandes empresas globais de tecnologia adaptam modelos e plataformas de IA generativa específicas para o setor. O jurídico deixou de ser mero usuário de tecnologia para se tornar um dos principais campos de experimentação da inteligência artificial aplicada. O investimento do mercado financeiro em lawtechs e na monetização de ativos judiciais demonstra que o ecossistema da justiça já não interessa apenas às partes e ao Judiciário.
Daí surge a pergunta que não se responde com um único indicador: vencer mais casos é suficiente? Não necessariamente. Uma empresa pode melhorar sua taxa de êxito, reduzir honorários por processo pela utilização da IA e, ainda assim, fechar o ano com custo total maior — porque o volume de demandas cresceu mais rápido do que a eficiência interna conseguiu absorver.
Elasticidade da eficiência jurídica
A IA melhorou um indicador, mas o ecossistema correu mais rápido do que a eficiência interna conseguiu acompanhar. Esse é o núcleo do que se pode chamar de elasticidade da eficiência jurídica: a relação entre o ganho obtido com a IA e o custo gerado pelo aumento de volume, sofisticação e agressividade do ambiente litigioso como um todo, também em decorrência da utilização da IA. Quando essa relação é desfavorável — quando o ecossistema cresce mais rápido do que a eficiência interna —, a empresa gasta mais, mesmo vencendo mais. A pergunta necessária é “os ganhos de eficiência internos superaram o crescimento do custo agregado das demandas?”.

Em ambiente de litigância algorítmica, gestão jurídica exige monitoramento simultâneo de volume, taxa de êxito, honorários, custo de IA, valor médio das condenações, acordos, tempo de tramitação e risco reputacional, inclusive relacionado à governança.
Por isso, a governança da IA no ecossistema da Justiça não pode ser tratada como tema acessório. É preciso conjugar supervisão humana, transparência, rastreabilidade, documentação, avaliação contínua, responsabilidade, entre outros elementos. Se todos os agentes do sistema da Justiça passam a usar IA, todos também precisam de governança — tribunais, escritórios, departamentos jurídicos, empresas, lawtechs e fornecedores globais, sob parâmetros mínimos de accountability, segurança, explicabilidade, proteção de dados, auditoria e controle de riscos.
Medir, decidir e governar melhor
A pergunta do título também pode aumentar sua eficiência se expandir sua abrangência. Quem consegue governar a própria eficiência num ecossistema em que todos ficaram mais eficientes ao mesmo tempo?
No novo mercado jurídico, a vantagem estará em medir melhor, decidir melhor e governar melhor. A inteligência artificial pode reduzir custos, mas também ampliar a litigância. Pode aumentar a produtividade, mas também sofisticar ataques. Pode fortalecer a defesa, mas ao mesmo tempo elevar a capacidade de demandar. A eficiência jurídica do futuro, ou melhor, nos dias de hoje, será menos operacional e mais sistêmica. Menos adoção de tecnologia e mais arquitetura de decisão baseada em dados.
A conta da IA será paga por quem olhar apenas para produtividade ou se limitar a gerenciar poucos indicadores. E será capturada por quem souber transformar produtividade em governança, governança em eficiência líquida e eficiência líquida em vantagem estratégica.


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