Opinião

Máfia seria a união Vorcaro-Marcola, mas isso não aconteceu. Ainda

O crime organizado dá um salto de qualidade e abandona todos os modelos de organização criminosa conhecidos até hoje no Brasil, mas estamos longe de ter uma máfia nos termos da Cosa Nostra (máfia siciliana).

Divulgação

Márcio Sergio Christino

O PCC surgiu nos presídios, de primeiro como uma disputa carcerária, depois como organização criminosa externa, e evoluiu como um cartel de drogas, fase na qual se encontra hoje. A força do Primeiro Comando da Capital é o crime, seu ambiente é o submundo, seu contato com o Estado é lateral e serve apenas para garantir o sucesso.

Já a “Turma do Vorcaro” é completamente diferente. Em lugar das celas dos presídios, temos as mansões da elite. Seu sangue não é o tráfico, são as grandes operações financeiras, golpes envolvendo uma complexa tecnologia cuja descrição não é fácil.

Vamos supor que as notícias publicadas e o despacho do eminente ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal) sejam verdade. A primeira anotação é que o PCC surgiu no vácuo do Estado, nos presídios, locais onde o controle do Estado havia se esgarçado.

Já “A Turma” (usaremos esse termo genericamente) por outro lado, não veio de fora do Estado, veio de dentro, e sua característica principal era justamente infeccionar a burocracia estatal para se tornar parte ativa do mecanismo criminoso.

“A Turma” não tinha em seus quadros milhares de detentos, tinha poucos membros, colocados em pontos chave de modo a dominar a ação do Estado. Se Marcola, o apelido do líder da PCC, traçou seu caminho como as mortes de outros líderes, “A Turma” traçou seu caminho deixando corrompidos.

As sucessivas fraudes com um capital inflado não tinham parâmetro e serviram de justificativa até para a atração de bancos públicos, tal como o BRB, do governo distrital de Brasília, que pretendia, ao final, arcar com todo o custo do golpe.

Foi por pouco. E com esse capital, o líder de “A Turma” passou a ser uma espécie de “flautista de Hamelin”, uma lenda alemã sobre um músico misterioso que livrou a cidade de Hamelin de uma infestação de ratos com a sua flauta mágica. Ao não receber o pagamento, ele hipnotizou e levou embora 130 crianças da cidade.

Ilusões de ótica

Aqui é a mesma coisa. Ao contrário da disputa pela liderança do PCC, que deixou um rastro de cadáveres, “A Turma” deixou um rastro de corrupção. Tudo aquilo que se supõe ter feito o PCC, ou seja, entrada na política, no Legislativo, no Judiciário, nas forças de segurança. Tudo que nunca se comprovou que o PCC tenha conseguido, foi obtido pela “Turma” de modo discreto, mas eficiente.

O PCC veio de baixo para cima, “A Turma” veio de cima “para baixo”. Os líderes faccionados vieram do lado baixo de sociedade, sem educação formal, da rua, enquanto os membros da “Turma” são profissionais de alto gabarito, pós-graduados. Vieram da elite, sempre viveram com os benefícios de sua condição. O sonho do Marcola é ser Vorcaro.

Nem o PCC nem “A Turma” são máfias. A máfia seria o resultado da união de Vorcaro com Marcola. E isso não aconteceu. Se tivesse acontecido, talvez o Brasil não tivesse força para reagir. O Vorcola ainda não nasceu. Por enquanto.

Márcio Sérgio Christino

éprocurador de Justiça do MP-SP, vice-presidente da Associação Paulista do Ministério Público e professor universitário.

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