Desconfiança pública

Suprema Corte dos EUA perde aprovação, mas queda atravessa instituições

Uma nova pesquisa de opinião, para apurar o índice de confiança dos eleitores na Suprema Corte dos Estados Unidos, mostra apenas o que todo mundo sabe: quanto mais polarizado se torna o país politicamente, mais a confiança do eleitorado nas instituições cai e a desconfiança sobe.

Pacamah/Wikimedia Commons

Sede da Suprema Corte dos Estados Unidos, Suprema Corte dos EUA, SCOTUS

Aprovação à Suprema Corte dos EUA caiu de 52% para 22% neste século

As pesquisas da NBC News, feitas pela primeira vez no ano 2000, destacam esse fenômeno no que se refere à Suprema Corte. Elas mostram que o índice de confiança na Suprema Corte, que era de 52% no ano 2000, caiu para 22% em 2026. Ao revés, o índice de desconfiança, que era de apenas 13% em 2000, subiu para 38% em 2026.

Confiança dos eleitores na Suprema Corte neste século

Nível de confiança Em 2000 Em 2015 Em 2022 Em 2026
Muita ou bastante 52% 33% 27% 22%
Alguma 32% 43% 37% 40%
Pouca ou nenhuma 13% 24% 35% 38%

Notas: A pesquisa foi feita de 27/2 a 3/3 de 2026 com mil eleitores registrados nacionalmente. A margem de erro é 3,1 pontos percentuais. Fonte: NBC News polling.

O advento do trumpismo no cenário político dos EUA acelerou essa tendência de polarização política, que repercute no grau de confiança do eleitorado nas instituições — tal como o fez o advento do bolsonarismo no Brasil. Dados da última pesquisa Datafolha, deste mês, apontam que apenas 16% dos brasileiros confiam muito no Supremo Tribunal Federal, enquanto 38% confiam um pouco e 43% desconfiam.

No entanto, essa visão de queda livre do prestígio das mais altas cortes dos dois países se torna menos dramática quando comparada com dados de pesquisas de outras instituições, como o Congresso e a Presidência.

Daria no mesmo, se comparada com outras instituições, tais como “religião organizada, escolas públicas, meios de comunicação e grandes empresas”, segundo o site da Judicature. A comparação entre os três poderes da República ajuda a entender a realidade.

Confiança pública nos três poderes nos EUA em 2026

Muita ou bastante Alguma Pouca ou nenhuma
Suprema Corte 22% 40% 38%
Congresso 9% 11% 80%
Presidência 34%* 14% 52%

Notas: Os devotos do culto MAGA (Make America Great Again) representam 30% dos eleitores dos EUA (o que garante o índice mais alto de aprovação da Presidência); todas as percentagens são aproximadas.

Confiança pública nos três poderes no Brasil  em 2026

  Muita ou bastante Alguma Pouca ou nenhuma
Suprema Corte 15% 42% 43%
Congresso 10% 9% 81%
Presidência 28% 20% 52%

Nota: Pobres Congressos – 80% (EUA) e 81% (Brasil) de desconfiança, respectivamente. Todas as percentagens são aproximadas.

Fatores de influência

Um suposto “índice de polarização política” do país, confrontado com decisões controversas que a Suprema Corte é obrigada a tomar, é o indicador mais forte da tendência de queda persistente do índice de confiança na instituição.

Qualquer decisão de repercussão política que a Suprema Corte dos EUA (ou o STF do Brasil) tomar irá desagradar ou a gregos ou a troianos — ou a democratas ou a republicanos nos EUA.

Pode-se parafrasear aí a famosa frase “Si hay gobierno, yo soy en contra”, associada ao anarquismo venezuelano no século XIX, para “Se hay decisión del Tribunal Supremo, yo soy em contra”, porque esse pensamento sempre estará vagando na consciência coletiva.

Obviamente, uma Suprema Corte com uma supermaioria conservadora (de seis ministros indicados por presidentes republicanos a três indicados por democratas) e que toma mais decisões favoráveis ao mundo republicano irá desagradar com maior frequência o mundo democrata. E o quadro se torna o seguinte:

Confiança dos eleitores na Suprema Corte por partido político

  em 2000 em 2015 em 2022 em 2026
Democratas 49% 44% 11% 9%
Republicanos 57% 23% 44% 35%
Independentes* 50% 31% 25% 24%

Notas: Registram-se como independentes eleitores não filiados a qualquer partido. Todas as percentagens são aproximadas.

Antigamente, eleitores de qualquer partido tendiam a respeitar decisões da Suprema Corte, mesmo que não gostassem delas, diz o pesquisador democrata Jeff Horwitt, da Hart Research Associates, que conduziu a pesquisa ao lado do pesquisador republicano Bill McInturff, da Public Opinion Strategies.

Mas a popularidade da Suprema Corte despencou ainda no ano 2000, logo depois da primeira pesquisa da NBC News. Em dezembro daquele ano, a corte impediu a recontagem dos votos em alguns distritos da Flórida (que não foram computados pelas urnas eletrônica). A corte reverteu decisão do Tribunal Superior do estado e, com isso, garantiu a vitória do republicano George Bush sobre o democrata Al Gore.

Outro golpe significativo na confiança dos democratas na Suprema Corte aconteceu em 2022, quando a maioria conservadora da corte derrubou o precedente Roe v. Wade, que garantia o direito ao aborto em todo o país. Coerentemente, o índice de confiança dos republicanos na corte subiu de 23% em 2015 para 44% em 2022. Mas a dos democratas despencou.

Novas decisões da Suprema Corte iriam erodir a confiança dos democratas. Em 2023, a corte reverteu uma decisão do Tribunal Superior do Colorado que considerou Donald Trump inelegível por violação da “cláusula insurrecionista” da Seção 3 da 14ª Emenda da Constituição — em referência à invasão do Congresso em 6 de janeiro de 2021, em que ele foi considerado o mandante do crime.

Em Trump v. Anderson, a Suprema Corte declarou que os estados não podem aplicar a Seção 3 da 14ª Emenda contra ocupantes de cargos federais, particularmente da Presidência. Um grupo de eleitores republicanos — ou seja, do partido do candidato — havia movido uma ação para impedir que o nome de Trump aparecesse na cédula de votação do Colorado.

Em 2024, a Suprema Corte decidiu que ex-presidentes têm imunidade contra ações penais por atos cometidos durante seus mandatos. A decisão da corte livrou Trump de pelo menos duas acusações criminais sérias: a de interferência nas eleições de 2020, que incluiu a invasão do Congresso em 6 de janeiro de 2021, e o desvio de documentos classificados da Casa Branca para sua residência em Mar-a-Lago

Impacto das decisões

Às vezes, os eleitores aprovam (ou desaprovam) decisões da Suprema Corte pelo impacto que elas causam (ou poderiam causar) em suas vidas, não por seus posicionamentos políticos.

Esse foi o caso da decisão da corte que derrubou o decreto das tarifas recíprocas do presidente Trump. Uma maioria expressiva dos eleitores (64%), entre os que acompanhavam as notícias (42%) ou acompanhavam um pouco (42%), aprovou a decisão. Cerca de 16% dos eleitores não tinham ideia do que estava acontecendo.

  Informados Média geral
Aprovo 64% 54%
Desaprovo 32% 27%
Não tenho opinião 2% 2%
Não sei o suficiente para opinar 2% 1%
Não sei nada sobre isso 16%

Dizem que os ministros não se importam com a opinião pública porque têm cargos vitalícios. Mas eles negam, pois quedas permanentes na confiança pública trazem seus próprios problemas, como uma desconfiança na legitimidade da corte.

O presidente da Suprema Corte, ministro John Roberts, está ciente desse problema. Em 2022, ele declarou que é normal que as pessoas discordem de decisões da corte. Mas acrescentou: “Simplesmente porque as pessoas discordam de decisões da Suprema Corte, isso não é uma base para questionar sua legitimidade”.

João Ozorio de Melo

é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

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