Celso Ming lá pelos idos de 2023 (esse interregno nos dias atuais beira uma eternidade…) já destacava o Brasil como um país de coroas. Evidenciava a sua metamorfose num país de idosos. Lembrava que o processo de envelhecimento da população estava se dando rápido demais, baseando seu entendimento no Censo 2022, que, à época, apontava que 10,9% da população tinha mais de 65 anos, sendo que 12 anos antes eram apenas 7,4%, além do fato de existirem 55 idosos para cada grupo de cem crianças.
Com perspicácia falava do próprio conceito de idoso, que vem mudando rapidamente, na medida em que “há alguns anos, com 40 anos as pessoas já eram tidas como coroas e passavam para a categoria dos ‘enta’. Hoje, sobre quem morre aos 70 anos já se começa a dizer: ‘Como morreu cedo’” [1].
Esse é um “processo imparável”. Daí o porquê da exigência de atenção. As variantes, complicações e necessidades adaptativas e cognitivas que lhe são inerentes são muitas.
O mesmo IBGE pouco depois apontava não só para a continuidade dessa curva de aumento de idosos (crescimento de 22 para 34,1 milhões), como também para o fato de que um a cada quatro continuava normalmente trabalhando em 2024 [2].
Consequências…
Há um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), divulgado no final de 2022 explicitando que cerca de 34,5% das pessoas com mais de 65 anos na América Latina e no Caribe não possuem qualquer tipo de renda (aposentadoria ou trabalho).
Portanto, uma vulnerabilidade de renda que semeia frutos de aumento da Informalidade para os coroas que voltam ou continuam (sem parar) a trabalhar, exigindo, por isso mesmo, como acontece numa árvore frutífera, o ensacamento com TNT, papel manteiga ou tule para evitar insetos (moscas-das-frutas) e pássaros) o uso de “redes de proteção”, no caso de proteção social, àqueles que não conseguem permanecer ativos, torna-se essencial.
E os ativos? Eles que deem seus pulos… [3]
Segundo Jorge J. Okubaro, em artigo intitulado Envelhecendo sem estar preparado, “o sistema de saúde pública do país está pouco preparado para atender a população que envelhece rapidamente” [4].

A situação é complexa. Compõe-se de múltiplas portas que passam não somente pela necessidade de proteção social, mas, também, pelo combate ao etarismo, pela criação de práticas age-friendly por parte das empresas, governo, comunidades e sindicatos, pelo reconhecimento da necessidade de ações adequadas aos coroas do século 21, levando-se em conta não apenas as implicações do seu envelhecimento cognitivo, como, por exemplo, adaptações quanto à compreensão de linguagem (“muitas pessoas mais velhas ficavam confusas e tinham dificuldade de lembrar por que clicar no botão Iniciar de versões anteriores do Microsoft Windows desligava o computador [5]); design de produtos; velocidade de respostas para compreensão — para a devida e indispensável melhora na comunicação entre gerações — respeitadas e compreendidas as diferentes atitudes e comportamentos entre elas (há de se ter resiliência geracional); mas, também e igualmente, os propósitos de vida, valendo-se para isso de todo um design de interface, pois, vivemos num mundo digital onde as integrações, comunicações, negócios e até relações afetivas passeiam ativamente por esse jardim-virtual.
Tal e qual alerta o filósofo Gilles Lipovetsky — que nasceu em 24/9/1944, e, portanto, com seus 81 anos tem “lugar de fala” nesta matéria — vivemos atualmente naquilo que ele chama de “fetichismo do autêntico”, onde em “em todos os contextos queremos sentido, verdade, sinceridade. Vivemos uma fase de conclusão histórica da cultura da autenticidade” [6].
Sejamos, pois, autênticos com relação às expectativas, necessidades e enquadramento sistêmico-atual-moderno do que é e o que quer um coroa no século 21.
O tempo é uma construção social.
“Há borboletas que duram 48 horas. Há tartarugas que passam de 200 anos. Há tubarões que vivem séculos” [7], e nós (me incluo nessa turma dos coroas) estamos exatamente aqui, dentro dessa ambiguidade dos early sixties, em que sou a velhice da juventude e a juventude da velhice…
Com base nessas premissas e cônscios de que “as representações do tempo são componentes essenciais da consciência social (…)” e que o “tempo ocupa um lugar de primeiro plano no ‘modelo do mundo’ que caracteriza esta ou aquela cultura, tanto quanto outros componentes desse ‘modelo’ como o espaço, a causa, a mudanças, o número, a relação entre o mundo sensível e o mundo suprassensível, a relação do particular ao geral e da parte ao todo, o destino, a liberdade etc.” [8], a “geração prateada” (60+) não tem outra escolha: ela é peripatética, ou seja, aprende e ensina caminhando dentro desse novo (mesmo com dificuldades físicas de locomoção…).
Ganha espaço no mercado de trabalho. Teve um aumento de quase 70% no número de trabalhadores entre 2012 e 2024, totalizando mais de 8,5 milhões de pessoas, segundo estudo feito pela economista e pesquisadora da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), Janaína Feijó.
Mas, é claro, também carrega um fardo extra: enfrenta etarismo, alta informalidade (53,8%).
Contudo e ainda assim a busca vem crescendo
“A disposição dos 60+ de começar em uma nova profissão e de continuar ou voltar para o mercado de trabalho é nítida. Dos 170 alunos de cursos voltados para a construção civil que passaram pela instituição desde o início deste ano, por exemplo, 30% são 60+, segundo Jaynna de Souza, assistente social do instituto.
Também na Catho, marketplace que conecta candidatos e empresas, por exemplo, a oferta de currículos cadastrados dos 60+ para vagas formais cresceu neste ano mais do que a média para todas as idades.
De janeiro a julho, a plataforma recebeu 6.966 currículos de 60+, volume 42,7% maior em relação ao mesmo período do ano passado. Enquanto isso, a média geral de currículos cadastrados na plataforma para todas as idades avançou 39,6%” [9].
Li, outro dia, que “Os 60 anos são o ápice da vida em vários aspectos, segundo a ciência” e que “embora várias habilidades diminuam com a idade, elas são equilibradas pelo crescimento de outras importantes”, lembrando que “Charles Darwin publicou A Origem das Espécies aos 50 anos. Ludwing van Beethoven, aos 53 anos e profundamente surdo, estreou sua Nona Sinfonia. Em tempos mais recentes, Lisa Su, agora com 55 anos, liderou a empresa de computadores Advanced Micro Decides em uma das mais dramáticas reviravoltas do setor” [10].
Sendo assim, o que nos resta é, como disse Marco Túlio Cícero no auge dos seus 63 anos (o professor Mario Sergio Cortella crava essa idade) temos de fazer comunitariamente escolhas, por meio de atitudes positivas, pois são essas que geram bons resultados, enquanto as atitudes negativas trazem colheitas ruins. Daí advém sua clássica frase: “cada um colhe o que planta”, na obra O Orador, que resume a lei da semeadura: nossas ações presentes determinam nossas consequências futuras.
Concluo com os age-friendly ensinamentos de um coroa de 74 anos, Mario Quintana, em seu poema chamado O Tempo:
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
Bora viver mais e melhor.
[1] MING, Celso. O Brasil, país dos coroas. Jornal O Estado de S. Paulo, 29 de outubro de 2023.
[2] Disponível em: A população idosa de 60 anos ou mais de idade cresceu de 22 milhões para 34,1 milhões, entre 2012 e 2024, um aumento percentual de 53,3%. O nível de ocupação desse grupo foi de 24,4%, sendo de 34,2% entre os homens e de 16,7% entre as mulheres. Ou seja, cerca de 1 a cada 4 pessoas idosas estava ocupada em 2024. Acessado em 19/03/2026.
[3] O pior de tudo é que o coroa tem problemas de flexibilidade relacionados à idade de natureza corporal e periférica, ou seja, no primeiro quanto à delimitação de movimentos físicos resultantes de problemas nas costas e no quadril e, no segundo, com relação a dificuldades de movimentação em pernas e braços…
[5] STROUD, Dick. Marketing para o público sênior: os segredos para construir uma empresa age-friendly/Dick Stroud e Kim Walker; tradução de Cristina Yamagami – São Paulo: Benvirá, 2018, pag. 147.
[6] Ferraz, Alice. Fetiche pelo autêntico. Jornal O Estado de S. Paulo 23 de setembro de 2023.
[7] KARNAL, Leandro. Para a minha velhice. Jornal O Estado de S. Paulo 17 de agosto de 2025.
[8] GOUREVITCH. A. Y. O tempo como problema de história cultural, em Paul Ricoeur (org.), As culturas e o tempo (trad. Gentil Titton et al., Petropólis/São Paulo, Vozes/Edusp, 1975).
[10] Jornal O Estado de S. Paulo D6 – Bem-Estar de 08 de novembro de 2025.
Seja o primeiro a comentar.
Você precisa estar logado para enviar um comentário.
Fazer login