As estruturas patriarcais atravessam diretamente a sociedade e atingem o mercado de trabalho. Afinal, a igualdade formal entre homens e mulheres ainda não se converteu em igualdade material. Apesar de a legislação reconhecer os mesmos direitos, as estruturas sociais, econômicas e culturais continuam produzindo e reproduzindo desigualdades profundas.
Segundo o IBGE, em 2022, as mulheres dedicaram, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados, quase o dobro dos homens (11,7 horas). Esse volume representa, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), cerca de 21 dias a mais de trabalho doméstico por ano, quando comparado à carga masculina [1].
Além disso, conforme estudo do Dieese de 2025, as mulheres continuam acumulando desvantagens como maior desemprego, menores salários e dificuldade de ascensão profissional. A disparidade é ainda mais profunda entre mulheres negras, que enfrentam subutilização da força de trabalho e acumulação de responsabilidades familiares [2].
Segundo essa pesquisa, além da maior dificuldade em conseguir uma ocupação, as mulheres estão concentradas em atividades que exigem menos qualificação o que implica em salários menores.
Em 2024, o rendimento médio das mulheres ficou 22% abaixo do dos homens. Quando a comparação é feita entre trabalhadoras e trabalhadores que ocupam cargos de direção, as diferenças são ainda maiores. Diretoras e gerentes mulheres ganharam, em média, R$ 6.798, enquanto os homens na mesma função receberam R$ 10.126, uma diferença de R$ 3.328 ao mês, que, em um ano, equivale a R$ 40 mil a menos para elas.
O assédio moral e sexual no trabalho, por sua vez, também é praticado majoritariamente contra mulheres e muitas vezes é silenciado por medo de retaliação ou vergonha.
Dados recentes da Justiça do Trabalho [3] mostram o crescimento significativo de ações trabalhistas sobre assédio moral e sexual. Em 2025, a Justiça do Trabalho recebeu 142.828 novos processos de assédio moral, o que representou um aumento de 22% em relação ao ano anterior e 12.813 novas ações trabalhistas de assédio sexual, ou seja, 40% a mais do que em 2024. De fato, as mulheres são as principais vítimas de assédio, especialmente o sexual, sendo que segundo o Monitor de Trabalho Decente da Justiça do Trabalho [4], 7 de cada 10 reclamações trabalhistas sobre o tema são propostas por mulheres.

No que tange à maternidade, o artigo 10, II, b, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), garante o direito à estabilidade no emprego desde a confirmação da gravidez até cinco meses após o parto. Apesar disso, pesquisas mostram que, após o fim da estabilidade, muitas mães são dispensadas. Dados do sistema eSocial [5] apontam que essa prática é comum e integra o ciclo de desigualdade de gênero, afetando sobretudo mulheres jovens e de baixa renda. Entre 2020 e 2025, foram registradas mais de 380 mil dispensas sem justa causa de mulheres realizadas até dois anos do término da licença-maternidade.
Essa realidade coloca em evidência o abismo entre a proteção formal e as práticas empresariais concretas.
É certo que as mulheres são “múltiplas”. Cada mulher, seja ela branca, negra, indígena, quilombola, lésbica, trans, com deficiência, de baixa renda etc. vivencia a discriminação de forma distinta. Contudo, todas são mulheres e todas enfrentam violências decorrentes de um mesmo fato, o gênero feminino.
Tanto é que, atualmente, se fala em feminismos no plural, para reconhecer a multiplicidade das experiências femininas e a impossibilidade de universalizar uma única agenda. Não existe um feminismo, mas sim, feminismos que devem ser pensados pluralmente para envolver todas as interseccionalidades e as diversas formas de “existir mulher”, ampliando o movimento para abranger raça, classe, sexualidade, territorialidade e identidade de gênero.
Feminismo se torna, assim, a expressão própria da evolução teórica e política do movimento
É fundamental lembrar que feminismo não é o oposto de machismo. Enquanto o machismo defende a superioridade masculina, o feminismo luta por igualdade de direitos. O oposto de machismo é o femismo, corrente que prega a superioridade feminina e que não se confunde com feminismo.
Simone de Beauvoir já alertava que bastaria uma guinada conservadora para que os direitos das mulheres fossem questionados. Sua frase emblemática, presente em O Segundo Sexo, ecoa até hoje: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”.
Essa afirmação articula-se com a teoria contemporânea de gênero, consolidada por autoras como Judith Butler [6], que entende o gênero como uma construção social, e não como mera expressão da biologia. O gênero é referente às características socialmente construídas e atribuídas artificialmente aos diferentes sexos, conforme as posições sociais ocupadas por membros de um mesmo grupo. É um conceito cultural.
A violência contra corpos femininos permanece como um fenômeno persistente, alimentado por discursos misóginos e conservadores.
Recentemente (11/3/2026), a deputada Erika Hilton foi eleita presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, tornando-se a primeira mulher trans a ocupar o cargo [7]. Sua eleição, entretanto, gerou intensa reação de grupos conservadores, revelando quanto a sociedade ainda está atravessada por misoginia, transfobia e resistência à pluralidade feminina [8].
O Estadão, em editorial [9], sugeriu que a eleição foi um “desserviço à causa das mulheres” e que haveria uma tentativa de “criar cizânia onde há necessidade de entendimento”. Entretanto, o debate não se trata de divisão artificial, mas sim de luta contra a exclusão e as múltiplas formas de violência que atingem todas as mulheres, inclusive mulheres trans, que também sofrem agressões por serem mulheres.
As críticas à presença de Erika Hilton na presidência da comissão não expressam uma preocupação democrática, mas sim, a tentativa de restringir o conceito de mulher à biologia e, simultaneamente, restringir direitos.
A transfobia também tem forte impacto no ambiente laboral, funcionando como uma barreira para a contratação. Pessoas trans, especialmente mulheres, têm suas oportunidades reduzidas ao trabalho sexual ou a ocupações no setor de beleza (cabeleireiras, depiladoras e manicures), quando não estão em situação de rua.
Se conseguem entrar no mercado de trabalho, pessoas trans ainda precisam lidar com o desrespeito ao nome, o não acesso a banheiros conforme sua identidade, à desconfiança por parte de chefes, clientes e colegas, dentre outras tantas dificuldades [10].
Segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2025 [11], apenas 25% das pessoas trans tinham emprego formal no Brasil. Além da menor taxa de participação no mercado formal, pessoas trans recebiam, em média, 32% menos que a média nacional. A desigualdade se mantém mesmo entre profissionais com ensino superior completo que ganhavam 27,6% menos que seus pares cisgêneros. Os números mostram que as desigualdades são mais acentuadas entre mulheres trans, cuja taxa de inserção é de apenas 20,7%, frente a 31,1% entre homens trans. Para piorar a situação, a pesquisa ainda aponta que uma pessoa trans preta, por exemplo, recebia em média 80% do salário de uma pessoa trans branca e 26% a menos que uma pessoa preta na população geral.
Por tais motivos é tão importante a luta em defesa da igualdade, sendo os “feminismos” ferramentas essenciais para compreender, denunciar e transformar a realidade misógina e discriminatória da sociedade.
[6] Judith Butler, El género en disputa, Barcelona: Paidós, 2007, p. 54.
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