Lisboa se prepara para sediar, nos dias 30 e 31 de março, a primeira edição do Summit de Inovação e Desenvolvimento Socioeconômico, encontro que discutirá o papel da contabilidade em temas centrais da economia atual.
Para o presidente do Conselho Federal de Contabilidade, Joaquim de Alencar Bezerra Filho, o evento será um espaço de articulação entre diferentes áreas — da economia de dados às energias renováveis, da infraestrutura à reforma tributária — tendo como eixo comum uma ideia de que a contabilidade é uma “infraestrutura da decisão econômica e institucional”.
Joaquim de Alencar Bezerra Filho, presidente do Conselho Federal de Contabilidade, comentou sobre o evento inédito
Bezerra reforça que políticas públicas eficazes dependem de diagnósticos qualificados, mensuração de impactos e prestação de contas, algo que a contabilidade assume papel decisivo.
Idealizado pelo CFC, o encontro reunirá representantes dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, dirigentes de órgãos de controle, executivos de grandes empresas de auditoria e especialistas brasileiros e europeus para discutir como a informação contábil influencia decisões públicas e privadas.
O Summit de Inovação e Desenvolvimento Socioeconômico é fruto de uma cooperação estratégica entre a Fundação Brasileira de Contabilidade (FBC), o Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), a Academia Brasileira de Ciências Contábeis (Abracicon) e a FGV Conhecimento, com apoio da União dos Contabilistas e Auditores de Língua Portuguesa (Ucalp) e do Fórum de Integração Brasil-Europa (Fibe).
Leia a entrevista:
Qual é a ideia transversal que orientou a montagem do programa?
A ideia transversal é a contabilidade como infraestrutura da decisão econômica e institucional. O programa, conduzido pelo comitê acadêmico, foi estruturado para que, em temas distintos (como reforma tributária, economia de dados, infraestrutura e sustentabilidade), haja um elemento comum: a contabilidade como instrumento de confiança pública. A proposta do Summit é justamente posicionar a contabilidade como linguagem que conecta o mercado, o desenvolvimento sustentável, o ambiente de negócios e a profissão contábil.
De que maneira a contabilidade pode influenciar a formulação de políticas públicas?
A contabilidade influencia diretamente a formulação de qualquer política pública por ser o instrumento de controle, governança, transparência e segurança regulatória qualificada que orienta decisões governamentais. Ela permite mensurar impactos fiscais, avaliar sustentabilidade de programas, acompanhar execução orçamentária e dar transparência à gestão, além de salvaguardar o patrimônio. Políticas públicas eficazes dependem de diagnósticos, informações e prestações de contas à sociedade. E é a contabilidade que promove tudo isso.
Quais são os principais impactos esperados da reforma tributária sobre os processos contábeis das empresas?
A reconfiguração dos processos contábeis e fiscais, especialmente durante o período de transição entre regimes. As empresas precisarão operar com sistemas mais integrados, capazes de lidar com novas bases de incidência, regras de crédito e maior nível de detalhamento das operações. Isso exige investimento em tecnologia, revisão de processos e maior protagonismo do profissional da contabilidade na interpretação das normas e na adaptação dos modelos de negócio.
Quais boas práticas contábeis podem ser adotadas para aumentar a eficiência dos contratos de concessão?
Entre as boas práticas, destacam-se a padronização de critérios de reconhecimento e mensuração, a transparência na alocação de riscos, a utilização de indicadores de desempenho vinculados a métricas contábeis e o fortalecimento dos mecanismos de controle e auditoria. Uma contabilidade bem estruturada reduz assimetrias de informação, melhora a governança contratual e aumenta a confiança entre poder concedente, investidores e operadores. Eu defendo que, nesses processos, deve ser somada às modelagens econômicas, jurídicas e operacionais a modelagem contábil, com definição clara dos critérios e padrões a serem adotados ao longo da vigência dos atos e fatos decorrentes da operação do contrato, como forma de elevar a segurança jurídica do investidor.
Quais são os desafios práticos para mensurar ativos intangíveis na economia de dados e inteligência artificial?
A inteligência artificial é um dos principais desafios da humanidade. Quando o seu uso se volta para a contabilidade, em sua interoperabilidade sistêmica, o papel da identificação, da mensuração e do reconhecimento de ativos intangíveis, cujo valor não é diretamente observável no mercado, é o de a contabilidade trazer, por meio de suas normas, a segurança e os critérios para garantir a confiança da informação.
Portanto, dados, algoritmos e modelos de inteligência artificial geram valor econômico e precisam enfrentar as limitações dos modelos tradicionais de mensuração contábil e ser elevados a patamares que reflitam o real valor de impacto, como é o caso da agenda de sustentabilidade.
Há desafios relacionados à definição de critérios de reconhecimento, à avaliação de benefícios econômicos futuros e à necessidade de desenvolver metodologias que reflitam adequadamente a natureza desses ativos.
Como a contabilidade pode apoiar a transição para energias renováveis e a consolidação de práticas sustentáveis?
A contabilidade é essencial para viabilizar essa transição ao mensurar custos, investimentos e retornos associados a projetos sustentáveis, além de estruturar relatórios que integrem informações financeiras e não financeiras. Com as normas brasileiras de sustentabilidade, a contabilidade oferece critérios e condições de avaliar riscos climáticos, de mensurar impactos ambientais e de conferir transparência às estratégias de sustentabilidade. Isso fortalece a tomada de decisão e amplia o acesso a financiamento, especialmente em mercados que valorizam critérios ESG.
De que forma os instrumentos contábeis podem contribuir para a avaliação de impactos socioeconômicos em projetos de infraestrutura e saneamento?
Os instrumentos contábeis permitem estruturar métricas que vão além do resultado financeiro, incorporando análise de impacto social e econômico. Isso inclui avaliação de custo-benefício, mensuração de externalidades, acompanhamento de indicadores de desempenho e análise da sustentabilidade de longo prazo dos projetos. Com isso, a contabilidade contribui para decisões mais qualificadas e alinhadas ao interesse público.
Quais oportunidades de cooperação internacional podem surgir a partir do diálogo entre especialistas brasileiros e europeus no evento?
O diálogo internacional abre espaço para harmonização de práticas contábeis, intercâmbio de experiências regulatórias e desenvolvimento conjunto de soluções para desafios comuns, como a economia de dados e a sustentabilidade. Também fortalece redes institucionais, amplia a inserção da contabilidade brasileira no cenário global e cria oportunidades de cooperação técnica em temas como governança, auditoria e inovação. O grande alvo é a melhoria do ambiente de negócios, para elevar a segurança jurídica e a capacidade de investimento. O Summit se posiciona, assim, como um ambiente estratégico de articulação entre diferentes sistemas e tradições contábeis.
Seja o primeiro a comentar.
Você precisa estar logado para enviar um comentário.
Fazer login