Embargos Culturais

O Povo de Deus, de Juliano Spyer

O Povo de Deus, Quem São os Evangélicos e Por Que Eles Importam, de Juliano Spyer, é um livro fundamental para a compreensão de alguns problemas e dilemas de nosso tempo. É, ao mesmo tempo, um livro de ciência política, de sociologia, de teologia e de história.

Uma apresentação de Caetano Veloso dá o tom da seriedade do trabalho de Spyer: “a honestidade dos fieis não pode ser confundida com os descaminhos éticos de certas lideranças”. É esse o postulado do livro: a honestidade dos fieis é inquestionável. Os descaminhos éticos apontam para exceções, insuficientes para desconstruir aspectos positivos de manifestações religiosas substancialmente genuínas. Para o autor, é inegável que a entrada para uma Igreja melhora as condições de vida dos brasileiros mais pobres. A luta contra o alcoolismo, a violência familiar e a miséria ganham um aliado poderosíssimo.

Spyer inicia o livro com uma metáfora. Imaginemos um elefante em uma sala. Todos conseguimos ver. Porém, essa presença é incômoda e, por isso, fingimos que nada vemos. O neopentecostalismo é o fenômeno de massas mais importante das últimas décadas, embora o tratemos como se ele não estivesse entre nós. Há para com o neopentecostalismo um inegável preconceito de classe. De acordo com Spyer, com o que eu concordo plenamente, quem não entende o cristianismo evangélico não tem condições de pensar o Brasil atual.

O autor sustenta teses impressionantes e convincentes. O pentecostalismo é a religião mais negra do Brasil. Como? Segundo Spyer, “a maioria da população negra frequenta igrejas evangélicas e tem uma preferência particular pelas igrejas pentecostais, como a Assembleia de Deus”. De acordo com o autor o pentecostalismo foi muito influenciado pela espiritualidade africana. E oferece várias provas dessa afirmação.

De modo a explicar o alcance e o sentido de expressões e definições como protestante, evangélico, crente, pentecostal, neopentecostal, o autor faz uma síntese da história da Igreja reformada. O ponto de partida é o “enamoramento do cristão para com Deus”, um dos aspectos sociológicos mais emblemáticos da Reforma Protestante, ocorrida na Europa ocidental, a partir do século 16. O autor mapeia as várias denominações que há, tendo como ponto de partida o protestantismo histórico, isto é, o luteranismo, o anglicanismo e o calvinismo.

Spyer define os protestantes históricos (luteranos, presbiterianos e anglicanos) como intelectualizados e discretos. Em contrapartida o pentecostalismo é definido por uma linguagem simples e por uma abordagem também muito simples de problemas teológicos. Assim, o pentecostalismo reverbera uma abordagem mais simples para a população mais simples, vale dizer, para aqueles que estão na base da pirâmide da distribuição de renda.

O autor descreve com pormenores o desenvolvimento do pentecostalismo e do neopentecostalismo no Brasil. A história começa com missionários suecos (Gunnar Vingren e Daniel Berg) ligados à Igreja Batista, que fundaram a Assembleia de Deus, em 18 de junho de 1911, em Belém do Pará. Enfatizavam a doutrina pentecostal do batismo no Espírito Santo, separando-se da Igreja Batista local para fundar o que inicialmente chamaram de “Missão de Fé Apostólica”. A Assembleia de Deus é a maior denominação evangélica do Brasil, contando com mais de 12 milhões de adeptos.

Spacca

Spyer também explora a teologia da prosperidade, um dos pontos centrais nas denominações evangélicas contemporâneas. Faz uma comparação entre o tema da ética protestante (Max Weber) com essa nova concepção de sucesso. Para Max Weber, e agora a afirmação é minha, a ética protestante fomentou o capitalismo na medida em que estimulava o trabalho e a diligência nos negócios, como sinais da eleição divina. Na lógica de Max Weber o sucesso era o resultado de um esforço estimulado por uma concepção teológica da salvação. No caso da teologia da prosperidade há uma ligeira inversão de papeis. O sucesso econômico não é necessariamente o resultado de um esforço pessoal mediado por Deus; é um sinal inequívoco da própria escolha divina. O ponto em comum seria a disciplina como caminho para o sucesso.

O livro também explora o papel dos pastores evangélicos na reabilitação de presos, o que o autor denomina de “a reciclagem das almas”. Discorre sobre uma figura que temos muita dificuldade para entender: o traficante evangélico. Seria possível uma aproximação entre o tráfico e a fé? Esse é um dos pontos mais perturbadores do livro. São esclarecedoras as referências ao papel das igrejas de avivamento bíblico entre prisões e cracolândias. É também um dos aspectos do que denomina de “a fé atrás das grades”.

Autor faz também várias referências ao catolicismo, inclusive em termos comparativos

Se os católicos esperam a redenção na vida após a morte, os neopentecostalistas buscam essa salvação agora mesmo. Spyer trata de uma reação católica ao pentecostalismo, exemplificando com o movimento da renovação carismática, bem como um catolicismo midiático, carismático, ilustrado pelos padres Marcelo Rossi, Fábio de Mello e Reginaldo Manzotti. O leitor pode confirmar essa passagem com o padre Marcelo Rossi cantando ao vivo “Amar como Jesus amou”. Lembro-me do Padre Zezinho cantando Maria da Minha Infância, que acabei decorando quando fui aluno do Colégio Marista por quase dez anos.

Do ponto de vista mais pragmático o autor explora as pautas morais e os valores liberais que marcam o pentecostalismo, o que o identifica politicamente com a direita. Para esta última, por exemplo, a pobreza é um problema individual enquanto para a esquerda a pobreza seja um problema social. As causas são distintas, e os enfrentamentos também são muito divergentes.

Spyer trata então da Frente Parlamentar Evangélica (a bancada evangélica). O autor deixa bem nítido que os evangélicos não se preocupam com grandes abstrações (aquecimento global, desenvolvimento sustentável, entre outras); preocupam-se com problemas concretos que afetam a vida cotidiana.

Uma das causas para o crescimento do pentecostalismo vis-à-vis ao catolicismo seria a notória escassez de padres, comparada com superlativa oferta de pastores. Eu nunca havia pensado nisso. De fato, o tempo exigido para a formação de um padre é muito maior do que o tempo necessário para a formação de um pastor dessas modernas denominações. O catolicismo e o protestantismo histórico exigem anos de estudo. O neopentecostalismo alguns meses ou mesmo algumas semanas.

Eu sou de uma família de protestantes tradicionais (presbiterianos). Fiquei profundamente tocado com as informações e concepções contidas nesse livro fundamental para a compreensão de nossos tempos. Presbiteriano de carteirinha e aluno marista eu percebi muito dessas diferenças; além disso, vivi, de ambos os lados, um preconceito que não poderia haver entre pessoas que se dizem cristãs.

Juliano Spyer é antropólogo de formação, com mestrado e doutorado pela University College London (UCL). É colunista da Folha de S.Paulo. Ao que consta, boa parte do trabalho decorre da experiência do autor em bairros periféricos de Salvador, em contato direto com famílias evangélicas. O livro é também texto básico para quem nos interessamos pelas intersecções entre Direito e religião.

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

é consultor da União, professor do Programa de Mestrado em Direito da Universidade Católica de Brasília e professor assistente no Instituto Rio Branco.

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