Jobim: Corruptores passaram a ser fonte de verdade com a delação

*Artigo originalmente publicado no jornal Zero Hora desta segunda-feira (17/4) com o título A Crise.

O Supremo Tribunal Federal instaurou inquéritos em relação a 8 ministros, 24 senadores e 39 deputados. Os inquéritos indicam corrupção ativa/passiva e/ou crime eleitoral. O Supremo Tribunal Federal enviou para o Superior Tribunal de Justiça os pedidos em relação a 12 governadores. E, para o primeiro grau, aqueles relativos aos que não têm foro especial.

Vejamos os números. O Senado Federal se compõe de 81 membros. A Câmara dos Deputados, de 513. Dos senadores, 57 (70%) não foram objeto de pedido de inquérito. O mesmo em relação 474 deputados (92%). Dos 27 governadores, 15 (55%) não são objeto de pedidos de inquérito. Apesar dos números, a mídia logo afirmou que o sistema político ficou “em ruínas”. As redes sociais passaram a destilar ódio e prever o “fim do mundo”.

Há dois pontos que chamam a atenção. Primeiro, a afirmação enfática que o sistema político está em “ruínas” — acabado. Os inquéritos abrangem 12% da totalidade dos membros do Congresso Nacional, composto de 594 (deputados e senadores). Está-se, com aquela afirmação, pretendendo que o sistema político seja integrado somente por políticos com mandato e que 12% destes sejam o todo. Estamos diante do erro lógico da generalização empírica, apontado por Karl Popper.

Segundo ponto. Do fato de terem sido instaurados inquéritos concluem, desde logo, que todos são culpados. Em programa de notícias da TV, jornalistas disseram que, não obstante o conteúdo enfático das delações, os políticos continuam a negar tudo. Aqueles, que visaram vantagens com suas delações, passaram a ser fonte da verdade absoluta(!!!). [Os corruptores passaram a ser fontes de certeza (!!!)].

Os números e a forma institucionalizada (processual) de tratamento do assunto, não autoriza a afirmação de catástrofe. Por que essa necessidade de ver e afirmar, sem maiores indagações e responsabilidade, que nos encontramos em estado de calamidade universal? Pretende-se, com isso, viabilizar o aparecimento de um “caudilho” redentor? Um golpe?

Os problemas que hoje vivemos demandam lucidez para o seu enfrentamento. As percepções catastróficas levam a querer soluções “heterodoxas”, que nada são do que a substituição de um problema por outro. Nossas instituições têm como tratar de questões agudas. São aparelhadas para o tratamento da questão, que diz com responsabilidades individuais e não coletivas ou universais.

Devemos enfrentar a crise do momento, sem pretender desqualificar o momento político. A criminalização da política serve a impostores e déspotas. Crise política se resolve pela política.

Nelson Jobim

é ex-presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) e ex-ministro da Justiça e da Defesa.

hammer eduardo disse:
18 de abril de 2017 às 07:38

Apesar de seu indiscutível saber jurídico , o prezado Cidadão Jurista no meu entender carece de credibilidade publica para assinar uma bobajada deste calibre pois historicamente sempre teve um preocupante pendor para a proximidade dos holofotes , fossem eles quais fossem.Lembremos também que esteve ostensivamente ligado ao desastre nacional chamado de PT mormente na DES-administração do apedeuta sem dedo onde foi ( pasmem ! ) Ministro da Defesa sem saber distinguir um capacete de um tanque de guerra. Lembremos as suas aparições publicas em eventos das 3 Forças em que aparecia de roupa camuflada sem NUNCA ter sido Oficial General de qualquer uma delas.
O questionamento da Lava jato vem no ritmo proposto pela petralhada e seus asseclas que nela enxergam com grande propriedade a possibilidade talvez única de se ao menos "tentar" passar o Brasil a limpo depois de tantas décadas de desmandos e roubalheiras.
Questionar a metodologia da Lava Jato e questionar a equipe do Juiz Moro só pode mesmo ter eco nos descerebrados que se permitem ao desligamento total ou dos desprovidos de arcada dentaria que recebem alguma forma de bolsa miséria , as consciências regiamente pagas. Os resultados PRATICOS ate aqui obtidos mostra que a questionada "metodologia" esta causando muitos acertos apesar de erros eventuais aqui e ali. O que precisaria mudar com urgência SIM é a nossa carcomida e podre legislação que foi desfigurada por décadas por quadrilhas sucessivas , sem descurar da ultima em que adaptaram o que deveria ser serio para seus interesses pessoais e inconfessáveis. Sugiro ao ex-ministro general da banda um pouco de discrição em vista dos benefícios ao Pais como um todo.

Rejane Guimarães Amarante disse:
18 de abril de 2017 às 07:53

Concordo com a sua avaliação do péssimo trabalho que a mídia tradicional vem fazendo em relação ao tema desde o início da Operação Lava Jato. A começar pela referência diária ao menor ato processual corriqueiro do juiz Sérgio Moro, como se fosse uma grande atitude corajosa e moralizante. Muito antes da Lava Jato, inúmeros magistrados e magistradas, verdadeiros heróis nacionais, anônimos, porque não buscavam os holofotes, mas o cumprimento do dever, derramaram seu sangue e dedicaram sua vida como um sacerdócio, como foi o caso da Juíza Patricia Acioli e ainda é o caso do juiz federal Odilon Oliveira (MS). O sensacionalismo da mídia está "vendendo" como verdade absoluta as meras declarações de delatores que, interessados em benefícios processuais, são naturalmente suspeitos. O caso de Alberto Youssef é emblemático. Na década de 1990, envolveu-se nos crimes do Banestado e fez acordo com o então obscuro juiz Sérgio Moro, que originou o referido processo, comprometendo-se, por óbvio, a não cometer mais crimes. Em seguida, envolveu-se profundamente nos crimes da Lava Jato e, novamente, deu início ao processo presidido pelo mesmo juiz Sérgio Moro. Seu acordo de delação homologado, por delegação do PGR Janot ao procurador do Paraná, está disponível na internet. O doleiro apresentou uma relação de bens imóveis, carros e a quantia de cerca de um milhão e meio de dólares, que foi devolvida aos cofres públicos. Eu não acredito que o doleiro da Lava Jato só tinha essa quantia. Tenho certeza de que existem pilhas de dólares guardadas em algum lugar; Além disso, por umas das cláusulas do acordo, se forem encontradas contas bancárias em países estrangeiros, o MPF pode levantar o valor, sem a assinatura de Youssef.

Thadeu de New disse:
18 de abril de 2017 às 12:23

Lúcido !!!!!!!!!!!!!!!

Servidor estadual disse:
18 de abril de 2017 às 13:44

Jobim vai bem como maestro do acordão entre os investigados. Escolheram excelente pessoal. seria meu advogado se tivesse recursos para pagá-lo. Escreveu o óbvio e foi aplaudido como se tivesse descoberto a roda.

FERNANDO SANTOSADV disse:
19 de abril de 2017 às 09:51

Lamentável que um jurista de tal calibre se preste a este tipo de ação. Marginalizar e criminalizar o delator tem como unico objetivo tentar livrar o "seu amigo de sempre" Lula.
Segundo esta tese todos os corrompidos são inocentes. Esquece o constitucionalista, por conveniência, os dizeres do art. 37-Caput da CF/88.

Rocha advogado do ES disse:
19 de abril de 2017 às 11:36

Quem sairia das Garras de um sistema podre onde os poderosos impõe sob pena de serem alijadas dos certames, sua submissão total e irrestrita quanto a perda de valores inerentes a moral e os bons costumes, relegando valores relativos ao Estado de Direito. Esse momento é propício ao fechamento dessas Instituições corruptas e que se abra uma porta para a Nova Era dos valores morais que nossa Nação tanto Precisa. Pátria Amada Brasil.

J LIMA MANAUS disse:
19 de abril de 2017 às 13:33

Por que diabos Nelson Jobim ainda escreve no CJ?
O sujeito agora é banqueiro!
Tudo que escreve é para satisfazer quem lhe proporciona mais ganhos! C'est la vie!
A única qualidade dele é a vaidade, além de ser um bajulador emérito!
Jurista mesmo, nunca foi!

Rui Telmo Fontoura Ferreira disse:
19 de abril de 2017 às 13:59

Prezados Senhores,
Paz e Bem!
01 - O passado foi fácil, estávamos paralisados pelo tempo e o espaço, hoje, apesar das limitações humanísticas, evoluímos muito no ser, e, colocamos o ter em "cheque-mate a serviço dos valores éticos e morais;"
02 - A série de argumentos, traduzidos nos "comes e bebes", foram atropelados pela liberdade real de "ser e estar" em benefício de toda a Nação;
03 - Portanto, não me venham com justificativas e muito menos argumentar a nossa vergonha perante a comunidade internacional;
04 - A Justiça é para a "Paz e Bem" da humanidade, no sentido de que, se faça o bem tudo o que tiver que fazer. Pois, "a história contará nossas ações, e não nossas boas intenções." (Henry Kissinger).
05 - Cordialmente,
RT

Francisco Lobo da Costa Ruiz - advocacia criminal disse:
19 de abril de 2017 às 15:22

Tem gente que reclama mas nunca ganhou tanto dinheiro como, de um jeito ou de outro, fazendo defesas para esses senhores referidos nas delações ... Percebo que na verdade esses arautos dos sedizentes injustiçados estão adorando e querendo é mais sangue para ganharem mais em honorários e tráfico de influência.

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