Streck: Carta ao ministro Og Fernandes: lembre “como eram os dias”

Excelentíssimo ministro Og Fernandes:

Quem lhe escreve é Lenio Streck, pai de Maria Luiza e avô de Santiago, que já aos 8 anos puxava cavalo na roça fazendo carreira na plantação de arroz e que passou em concurso público aos 16. Meu pai foi preso pela ditadura militar. Eu vi eles o levarem naquela tarde, quando o arrancaram de cima da máquina de trilhar arroz. Despiciendo dizer o que isso representou em termos familiares.

Entrei na Faculdade e um ano depois o Congresso Nacional foi fechado com base no AI 5. Não havia Constituição, só um arremedo outorgado. Bom, o senhor sabe disso, porque tem mais de 60 anos como eu.

Sobrevivi, Ministro. Depois de quase 30 anos de Ministério Público, estou jubilado. Para registro: quando fiz concurso, descobri, depois, nos arquivos, que haviam “desaconselhamentos/vetos” dizendo que não faria bem ao Ministério Público ter alguém como eu nos seus quadros, face à minha militância contra o regime desde os tempos de estudante. Assim eram os dias, Ministro. Os dias eram assim, Excelência.

De todo modo, fui recepcionado pela Constituição. Escrevi alguns livros sobre o valor da Constituição, já ministrei algumas aulas pelo mundo afora, enfim, penso que sei “acolherar” algumas letras.

O país vive tempos difíceis. Um general faz uma interpretação muito própria do artigo 142 da Constituição e faz um pronunciamento dizendo que, havendo caos, as Forças Armadas podem intervir. Isso criou uma lenda urbana. Locutores de rádio e gente da TV saíram dizendo que, sim, a Constituição dá o poder às Forças Armadas de fazer intervenção, como se estas fossem um guardião do país e da democracia. Nem na Faculdade do Balão Mágico esta superinterpretação se colocaria.

Portanto, termos conquistado a democracia nos insere no paradigma pós-bélico. Regimes ditatoriais e quejandos… nunca mais. Isso é assim desde 1949 e chegou tardiamente no Brasil, em 1988.

Reprodução

Reprodução Twitter

Pois não é que li que Vossa Excelência fez pequena enquete com seus seguidores no Twitter sobre intervenção militar? Como assim, Ministro? O senhor chega — ou chegou — a cogitar isso? Na sua leitura, os militares podem intervir? Ou o senhor sempre soube que uma intervenção militar é golpe?

Sim, sei que o senhor explicou que tem o direito de ouvir os seus seguidores. Mas, pergunto: que tipo de seguidores o senhor tem que percentual deles é golpista? Sim, porque quem disse sim à sua pergunta tuitada é golpista e devia ter sido excluído e rechaçado, Ministro.

Poxa, Ministro. O senhor é do Tribunal da Cidadania. Um dos 33 membros, que deveriam ser 200 para atender às demandas por Justiça. Como um Ministro, que estudou, que é bem pago pela população, que tem o carinho dos funcionários e dos advogados, pode chegar a pensar que é viável uma consulta acerca de intervenção militar? E por que não perguntar sobre a volta da escravidão? Ou perguntar se os seguidores (ou o restante da população, via Ibope) concordam com a tortura?

Senhor Ministro: Que diferença há em perguntar sobre algo inconstitucional como um golpe e a pena de morte ou a tortura ou o trabalho escravo? Para mim, nenhuma. Imaginemos um Ministro do Tribunal Alemão perguntar, via Twitter, se os alemães concordam com uma intervenção militar? Ou na Espanha um juiz perguntar sobre a volta do franquismo? Ou em Portugal sobre o salazarismo?

Portanto, caro (permita-me trata-lo assim) Ministro Og, não há explicação para a enquete que Vossa Excelência propôs. Entristece-me pensar que uma pergunta desse quilate pudesse ainda ser feita. Que um radialista — como ouvi ontem pela manhã — faça uma enquete perguntando sobre a volta dos militares, tudo bem. É um radialista. Mas um Ministro… e de seu quilate… Poxa.

Meu pai já faleceu. Alguns amigos que foram presos também. Outros vivem. Lutamos tanto pela democracia. O simples fato de uma autoridade do seu gabarito fazer essa pergunta já nos faz tremer: “— quer dizer que, se ele pergunta, é porque isso seria possível? ”

Saudações gaúchas, Ministro. Do sul para Brasilia e para o Pernambuco, seu estado. De alguém que já tem 60 anos e se permite algumas inimputabilidades, como ter a pachorra e a audácia de escrever a Vossa Excelência, questionando-lhe acerca do ocorrido. D. Rosane, vó de Santiago, que também sabe bem o que foi a ditadura militar, apoiou-me nesta missiva. Um amigo, a quem também submeti o texto, disse: “— O Ministro não vai gostar nem um pouquinho”. E respondi: “— Mas eu e milhões de brasileiros também não gostamos do que ele fez em seu Twitter. Por isso, ele há de entender minha indignação de quem atravessou a ditadura militar e hoje sente arrepios só de pensar como é viver sem democracia”.

Com meu otimismo metodológico, despeço-me, lhana e cordialmente, Lenio Luiz Streck.

Rafael_2205 disse:
29 de setembro de 2017 às 13:21

Concordo com o Lenio, mas faca uma pesquisa publica, garanto que mais de 40% seria favoravel a uma dita intervencao militar.

Por isso, que muitos nao estao se dando conta do que o Bolsonaro sera nas proximas eleicoes presidenciais.

Por isso que por maid que eu tente ser otimista, mas nao vejo boas perspectivas para os proximos anos no BR

Ruby Falleiro disse:
29 de setembro de 2017 às 13:32

Muito bom, prof.!
Infelizmente, em 2018 terás que mandar essa carta ao Sr. Bolsonaro.

Observador.. disse:
29 de setembro de 2017 às 13:57

Mas o fetiche com o regime militar chega a ser cansativo.
Mais de 30 anos se foram.
O país ficou extremamente violento, mais dividido, menos civilizado e mais caótico. E parece um fato que ninguém quer abordar e/ou debater.
Fala-se da nossa democracia como se a forma como este conceito foi estruturado no Brasil não tivesse uma enormidade de deformações da sua idéia original.
Com genocídio (60.000 brasileiros/ano há mais de década), com corrupção avassaladora, com instituições que parecem monárquicas em país onde existe carência de esgostos; há tantas falhas e distorções que, talvez, cansem só de imaginar e, por isso, explique o "saudosismo" de comentar sobre o regime militar e usar os espantalhos de sempre.

O Ministro usou uma ferramenta moderna para saber o que pensam brasileiros.
Certos ou errados, ele não controla seus admiradores (quem o segue).
Há previsão de intervenção militar em certos casos.
Se precisamos dos tais espantalhos para não vermos o que ocorre nos dias de hoje, comparando uma enquete
como se estímulo fosse para replicar acontecimentos históricos de mais de 30 anos (que sempre deixam de lado o comunismo que assombrava o mundo - ninguém fala de Polt Pot, Mao , Hoxha e outros assassinos vermelhos que estimulavam movimentos mundo afora), mostra que pouco evoluímos, continuando a preferir usar o passado para não debater o presente, tão sofrido para os brasileiros de hoje.
Em tempo de "se há bambu, manda-se flecha" (ou seja, todo mundo quer dizer algo retumbante), militares que se mostram preocupados com sua pátria não estão pensando em golpe contra o país.
Precisamos de mais serenidade.
E procurar pensar, entender, como chegamos a este ponto do agora.
Meus respeitos ao Professor Lênio e ao Ministro.

Rejane Guimarães Amarante disse:
29 de setembro de 2017 às 14:03

Se milhões de cidadãos brasileiros pensassem como o senhor, Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma nunca teriam sido eleitos. O senhor avalia que milhões de brasileiros seriam contra uma intervenção militar. E também não desconhece que outros milhões apoiariam. O período de 1964 a 1985 foi muito complexo e não seria justo com quem viveu aquela época (eu, inclusive) generalizar ou simplificar numa frase com poucas palavras uma definição do que foi aquele momento histórico. O senhor mesmo cita que havia registros "de inteligência" alertando sobre sua eventual "nocividade" ao serviço público. Não obstante, o senhor tomou posse e exerceu as suas funções com toda a combatividade e aposentou-se regularmente após muitos anos de bons serviços prestados. FHC, Lula, Dilma e Dirceu nunca lutaram pela democracia, o senhor sabe bem disso. Lutaram para derrubar uma ditadura militar e instituir uma ditadura comunista. Havia, sim, o grupo dos democratas, constitucionalistas, dentre estes a OAB e penso que o senhor também. Cada vez mais são encontradas e publicadas evidências e provas de que esses governos "democráticos" pós-ditadura saquearam nossos bens e desviaram recursos para construções e financiamentos em outros países da mesma ideologia que desde a origem pretendeu e pretende ser "internacional". Hoje, são 60 mil mortos por ano, gente que não sabe contra quem está lutando nem o motivo. Gente que vive muito pior do que as pessoas que viveram na época da ditadura. Naquele tempo, só quem se envolvia com a luta entre os militares e a guerrilha é que saía machucado. Houve erros ? Sim, nenhum sistema é perfeito.

O IDEÓLOGO disse:
29 de setembro de 2017 às 14:22

Dr. Lênio, muitos no STJ desejam o retorno dos Militares.

Advogado militante disse:
29 de setembro de 2017 às 14:44

Lamentável que 1 Min. do STJ faça uma pesquisa dessa.
Isso serve para alimentar o desejo que alguns tem na implantação da ditadura militar.
Muitos inocentemente acham que num regime ditatorial não tem corrupção, desmandos, etc.
Outro a opção contra as liberdades públicas, contra dos direitos fundamentais do cidadão, está no DNA
Oxalá que o artigo do prof. Lenio sirva de alerta para os democratas não permitam a volta da ditadura, que tanto mal fez ao Brasil.

Maxuel Moura disse:
29 de setembro de 2017 às 14:46

Sou um confesso fã de sua verve, Professor.

Todavia, no caso em apreço, ouso defender o ministro. Que mal há em um servidor público querer OUVIR, e tão somente ouvir, a opinião do povo sobre um tema que é debatido diuturnamente em nosso país?

Calha lembrar de Voltaire: "Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo."

A pergunta da enquete é limpa, sem dar margem a qualquer posicionamento pessoal e/ou profissional do ministro. Ademais, confio na competência profissional do ministro para que, em caso de algum julgamento sobre o assunto, tenho que ele se balizará na constituição. Presunção da inocência.

Mas o mais grave que achei de seu texto, caro (se me permite assim lhe chamar) Professor, é a sugestão de quem votou no "SIM" deve ser excluído e rechaçado.

Isso me lembra, exatamente, o autoritarismo militar que queria lhe excluir do processo seletivo de promotor, por causa de suas opiniões contra a ditadura.

Como defensor da liberdade, não consegui concordar com esta carta aberta, assim como discordo veementemente de possível intervenção militar, mas nem por isso eu não posso respeitar quem pensa o contrário.

Resta-me apresentar as razões pelas quais eu sou contra, no afã de persuadir meu interlocutor que a intervenção militar está longe de ser a melhor solução.

Pra mim, pior do que quem apoia a intervenção militar e o desrespeito à constituição federal é quem, por não concordar com a opinião alheia, procura censurar, de certo modo, a liberdade de expressão de quem tem uma perspectiva de vida contrária à minha.

Obrigado pelo espaço, parabéns pela coluna, sou um leitor assíduo, sendo minha primeira leituras às quintas-feiras, e me desculpe se interpretei mal esta carta aberta.

Edsoncruz disse:
29 de setembro de 2017 às 14:47

O legado deixados por eles para refrescar a memoria:
Computadores era o cobra. reserva de mercado para informatica .
Carros, fomos conhecer algo melhor na década de 90.
Educação conseguimos colocar 100% das crianças do ensino fundamental somente na década de 90,.
Telefone, um luxo ,tinha o famoso plano de expansão .O saldo não é nada positivo .Falta neste pais educação somente assim pensamento toscos como a volta dos militares não se reproduza mais

John Paul Stevens disse:
29 de setembro de 2017 às 14:50

Caro "Observador",

Respeito sua tentativa de debater com educação, por isso, peço que não entenda meu comentário como uma crítica pessoal, mas como uma sugestão para que, honrando o nome que você escolheu aqui no ConJur, observe melhor (i) o ponto do Professor Lenio, (ii) os termos da pergunta feita pelo Ministro, e, finalmente, (iii) a Constituição Federal.

Hoxha, Mao, Pol Pot (que chamas de "Polt Pot"), todos tiveram regimes desastrosos. Concordamos, e tenho convicção de que o Prof. Lenio, autor do texto, concordaria também. Mas pergunto-lhe: qual é a relação disso com o que se está debatendo aqui? Você fala em "espantalho" e "fetiche" com relação ao regime militar brasileiro, mas, ao mesmo tempo, em uma verdadeira versão moderna do McCarthyismo, insiste em um fantasma comunista que nada tem a ver com a presente discussão.

Precisamos de serenidade para compreender a que ponto chegamos: nisso, concordamos. Acontece que precisamos também aprender a suspender pré-juízos e deixar de lado crenças arraigadas em nós quando essas crenças não se relacionam de maneira alguma com a crítica que é feita.

Advogado militante disse:
29 de setembro de 2017 às 14:50

Lamentável que 1 Min. do STJ faça uma pesquisa dessa.
Isso serve para alimentar o desejo que alguns tem na implantação da ditadura militar.
Muitos inocentemente acham que num regime ditatorial não tem corrupção, desmandos, etc.
Outro a opção contra as liberdades públicas, contra dos direitos fundamentais do cidadão, está no DNA
Oxalá que o artigo do prof. Lenio sirva de alerta para os democratas não permitam a volta da ditadura, que tanto mal fez ao Brasil.

afixa disse:
29 de setembro de 2017 às 14:52

o conjur é um site juridico, mas, após ler o artigo deu vontade de dar um retumbante: "chuuuupa ministro". No mais, pessoas como Observador que recebe proventos da Aeronáutica, vão sempre tentar dourar a pílula da época militar. Se é que me entendem!?

Diogo Duarte Valverde disse:
29 de setembro de 2017 às 18:07

"Senhor Ministro: Que diferença há em perguntar sobre algo inconstitucional como um golpe e a pena de morte ou a tortura ou o trabalho escravo? Para mim, nenhuma."

Esse tipo de hipérbole em nada ajuda. Há fundamentos sensatos e racionais a favor de intervenções militares em determinadas situações e também os há a favor da pena de morte, por mais equivocados que sejam. Sou contra tanto um quanto o outro. Sou favorável à abolição da pena de morte onde ela ainda existe, como em certos Estados nos EUA, e penso que essa conversa sobre intervenção militar no Brasil é francamente asquerosa e xucra -- para invocar a palavra favorita de Reinaldo Azevedo ultimamente. Entretanto, afirmar que inexiste qualquer diferença entre uma intervenção militar e o trabalho escravo é simplesmente ridículo. Sim, ambas as coisas são inconstitucionais, mas existem também coisas completamente inocentes que também seriam inconstitucionais no Brasil. O STF está sempre a decidir pela inconstitucionalidade de leis bobinhas, por um ou outro motivo. Seriam estas também idênticas ao trabalho escravo?

A incapacidade de enxergar os tons de cinza (sem trocadilho) e encarar todas as questões como se as respostas fossem unicamente binárias é um dos grandes males dos tempos contemporâneos. E a inculcação de pensamentos binários e desprovidos de nuance é, também, uma das características da propaganda ideológica e um dos pilares do autoritarismo.

J. Ribeiro disse:
29 de setembro de 2017 às 18:54

Iniciativa partindo de um Ministro do Poder Judiciário, acho que a pergunta mais adequada seria:
O Brasil merece o Poder Judiciário que tem?
Sim ...
Não ...
Esquece o i. Ministro que a situação que passa este país se deve única e exclusivamente pela precariedade dos serviços públicos, gestão pública fraudulenta, improbidade administrativa, extorsão e corrupção passiva - tudo por conta de servidores públicos incompetentes ou competentes desonestos.
Lamentável!
CNJ?

Observador.. disse:
29 de setembro de 2017 às 18:55

Caro Gilberto
Obrigado por chamar atenção ao erro de grafia.
Pol Pot e o Khmer Rouge, errando grafias ou não, tem tudo a ver com certos debates, sim.Há até um filme no Netflix, "Primeiro mataram meu pai", bem atual, onde até a indumentária remete a alguns países de triste destino nos dias de hoje. Não podemos, quando se fala em história, lembrar apenas a parte dela que interessa.Por isso toquei neste assunto.O Professor teceu comentários sobre o passado. "Os dias eram assim". Eram assim, juntando tudo o que ocorreu.Sem edições.
Falou-se do passado para criticar uma postura de um Ministro no presente.
Outros não poderiam fazer o mesmo?Apenas usei outra linha de pensamento, da qual o senhor tem todo o direito de discordar.
No passado houve havia um conflito que é deixado de lado sempre que aborda-se o tema "regime militar".
Não se fala dos soldados e oficiais mortos.
Não se fala dos guerrilheiros comunistas.
E isso não é bom para a história.

De qualquer forma, sucesso em sua carreira e que o senhor ajude a construir um Brasil melhor.

Holonomia disse:
29 de setembro de 2017 às 19:19

Ditadura é a de Cuba. 65 mortos ou desaparecidos para cada cem mil habitantes, enquanto no Brasil a proporção foi de 0,3 para cada cem mil (http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/12/1837361-ditadura-cubana-e-a-mais-letal-das-americas.shtml).
Essa é a mesma ditadura, ainda em curso, que recebeu dinheiro público brasileiro durante os governos Lula e Dilma.
Não sou a favor de ditadura, mas o período militar não foi o que os esquerdopatas, literalmente, como se pode ver em Cuba e na URSS, alegam.
E, Dr. Lenio, o senhor só é o que é por causa do seu cristianismo, por isso louvo sua história de vida, e não do marxismo ou seja lá como o senhor se qualifique ideologicamente.
www.holonomia.com

Eddie Frederico Mourão Parreiras disse:
30 de setembro de 2017 às 11:15

Lenio Streck para Presidente!!! (da República, do STF, do STJ, do TST, do Senado e da Câmara dos Deputados - e se ele fosse atleticano, também do Atlético!)

Aiolia disse:
30 de setembro de 2017 às 12:26

Concordo plenamente. O ócio causado pelas redes sociais te leva à tentação de sempre ter que postar alguma coisa, nem que, digamos, não seja muito útil, pra ser eufêmico... postagem infeliz a do ministro.

DAGOBERTO LOUREIRO - ADVOGADO E PROFESSOR disse:
01 de outubro de 2017 às 14:16

A enquete feita pelo Ministro Og, em sua conta do twiter, tem implicações sérias e as facetas mostradas pelo articulista Lênio mostra apenas uma delas.
Não se trata de perscrutar se os milicos devem ou não voltar e sim se e quando pagarão pelos crimes que cometeram ao longo do período ditatorial, que são muitos e bastante graves. Os militares argentinos responderam pelos seus atos, generais foram encarcerados definitivamente e alguns morreram na prisão, mas, no Brasil, a regra é a impunidade, a mesma que bafeja certos políticos. Essa é a preliminar: esse tipo de gente deve voltar, é justo que se faça esse tipo de pergunta? Os mortos voltarão? Os torturados serão ou poderão ser recuperados? A impunidade continuará? Até quando?
Muitos aqui não viveram os idos de 1964 e não têm a menor ideia do que aconteceu, que começou com a deposição de um presidente eleito livremente pelo povo brasileiro. Naquela época, João Goulart, candidato a vice, disputou a eleição e foi votado. Com a vacância do cargo, aberta pela renúncia de Jânio, deveria assumir de imediato a presidência, mas foi impedido por quem? Pelos militares. Empossado num regime parlamentarista (sim, mudaram o regime) foi combatido tenazmente pela Embaixada Americana (Lincoln Gordon) e pelos militares (o que é bom para os EUA é bom para o Brasil). Combatido tenazmente, dia a dia, hora a hora, minutos a minuto. Até ser derrubado.
Hoje, os brasileiros podem ver, no Canal Curta!, o documentário “O Dia que Durou 21 Anos”, que conta essa história. Kennedy e depois Lindon Johnson envolveram-se pessoalmente nessa conspiração, desencadeada por uma vaca fardada da Minas, com o derramamento de dólares na movimentação dos generais brasileiros, alguns dos quais subornados por uma potência estrangeira.

Rejane Guimarães Amarante disse:
01 de outubro de 2017 às 21:12

Dilma Roussef, José Dirceu eram guerrilheiros, terroristas, pegaram em armas, participaram do planejamento, operacionalização e execução de assaltos, atentados a bomba, sequestros. Foram presos. Outros não, simplesmente fugiram e depois foram anistiados. Entraram para a política nas eleições de 1982, todos colocavam no currículo, na propaganda eleitoral pelo rádio e TV "cassado pelos militares". Virou "grife". Quem seria punido daquela época (dos dois lados) ? Centenários senis ou esqueletos exumados ? A questão é dialogar com os militares de hoje. São uma outra geração que cresceu e estudou justamente durante o regime militar. Esses militares têm um compromisso admirável com a Constituição e a eficiência no serviço público. Negar essa realidade não é correto, não é justo, é tendencioso. Por outro lado, os guerrilheiros anistiados que assumiram o "governo democrático" traíram os votos de milhões de brasileiros e desviaram BILHÕES de reais e dólares para suas contas bancárias em paraísos fiscais e também para financiar obras em outros países da mesma ideologia. É dessa democracia que estão falando ? Isso não é democracia, é encenação.

AlexXP disse:
02 de outubro de 2017 às 10:27

Das poucas vezes que me identifiquei com um texto do articulista.
O olha que fui militar, por 5 anos!
Lugar de milico é no quartel (já que, felizmente, não temos guerras) e não nos palácios.
Amém!

Leilah Borges da Costa disse:
03 de outubro de 2017 às 15:54

Como gaúcha que sou e advogada no Rio de Janeiro não posso deixar de cumprimentar pelo brilhantismo da carta do Prof. Lenio Streck, proferindo uma aula de cidadania, parece mentira, diretamente a um Ministro do STJ.
A pergunta formulada não é apenas inconveniente; é inadmissível. Onde estaria, o que faria o ministro no período terrível da ditadura? Certamente não sofreu na pele as perseguições, a tortura, as prisões.
Senhor Ministro, arrependa-se do percalço, especialmente pelo momento atribulado e perigoso que a democracia e o povo brasileiro estão vivendo.

O IDEÓLOGO disse:
03 de outubro de 2017 às 21:08

Lênio Luiz Streck, jurista, metafísico, pensador e gênio. Deu um nó intelectual no Ministro Og Fernandes.
Parabéns, Lênio. O seu lugar não é no STJ, mas no STF.

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