O que os livros não falam dos homens da Justiça

“Diga-me o que lês, que te direi quem és.” Se a máxima pudesse ser aplicada à cúpula do Judiciário brasileiro, poderíamos dizer que os ministros das altas cortes do Brasil estão entre a cativante estória de O Caçador de Pipas e a história distorcidamente romanceada de O Código da Vida.

Num levantamento feito para o Anuário da Justiça 2008, o site Consultor Jurídico ouviu 68 ministros do Supremo Tribunal Federal e dos tribunais superiores de Justiça, do Trabalho, Eleitoral e Militar sobre suas preferências literárias. E os vencedores foram O Caçador de Pipas, do médico afegão Khaled Hosseini, que obteve nove indicações, e O Código da Vida, do ex-consultor-geral da República e ministro da Justiça do governo Sarney, Saulo Ramos, com oito citações.

Na pesquisa, se pediu aos ministros que indicassem livros não especializados em temas jurídicos e a maioria seguiu a recomendação. A ministra Nancy Andrighi, porém, fugiu da regra: empenhada em escrever seu próprio livro ela passou o ano de 2007 às voltas com Pontes de Miranda, Clóvis Bevilacqua, Thereza Ancona Lopes e outros clássicos do ramo jurídico.

Mesmo fugindo da literatura técnica jurídica, alguns ministros ficaram por perto. A presidente do Supremo, Ellen Gracie, e o mais novo integrante da casa, Carlos Alberto Menezes Direito, se entretiveram com a leitura das histórias dos últimos componentes da Suprema Corte dos Estados Unidos contadas por Jeffrey Toobin em The Nine — The Secret World of the Supreme Court. De outro autor (Jeffrey Rosen), mas sobre o mesmo tema, o ministro Cezar Peluso leu The Supreme Court — The Personalities e Rivalries that Defined América.

Já o ministro Gilmar Mendes, que assume a presidência da casa no próximo dia 23, entre biografias de vultos de nossa história (Diários de Joaquim Nabuco, de Evaldo Cabral de Mello, e Rondon, o Marechal da Floresta, de Todd A. Diacon), encontrou tempo para seu assunto preferido, que é o Direito Constitucional. Do americano Christopher Zurn, ele leu Deliberative Democracy and the Institutions of Judicial Review.

Com tanto ministro gastando o inglês (Ricardo Lewandowski leu Justice in Robes, de Ronald Dworkin) e o alemão (Joaquim Barbosa se divertiu com Die Reise nach Trulala, do russo Wladimir Kaminer), Celso de Mello fez um mergulho nas letras e na história do Brasil, começando por Machado de Assis, um Gênio Brasileiro, de Daniel Piza, passando por A Independência Brasileira — Novas Dimensões, organizado por Jurandir Malerba, e o clássico Dom João VI no Brasil, de Oliveira Lima.

Machado de Assis, cujo centenário de morte se celebra esse ano, foi lembrado também pelos ministros Felix Fischer (Dom Casmurro) e Fernando Gonçalves (Esaú e Jacó e Memorial de Aires).

A literatura descartável de Paulo Coelho que bate recordes de vendas pelo mundo afora, tem leitores em quase todos os tribunais, sendo que o ministro João Otávio Noronha, do STJ, de uma tacada passou por Diário de um Mago e O Alquimista. Sua colega Eliana Calmon leu A Bruxa de Portobello. Já o ministro Humberto Martins e Carlos Marques (este, do STM), ficou na auto-ajuda executiva de O Monge e o Executivo, de James C. Hunter.

O levantamento revela algumas curiosidades. Por exemplo, O Mundo é Plano — Breve História do Século XXI, do comentarista de política internacional do New York Times, Thomas Friedman, foi o livro do ano no TST. Lá ele foi lido pelos ministros Vantuil Abdala, Rider de Brito, Brito Pereira e Fernando Ono.

Outro nome que surpreende na lista é o do moçambicano Mia Couto que aparece na lista da ministra Cármen Lúcia, do Supremo (Terra Sonâmbula e Estórias Abensonhadas), bem como nas de Carlos Britto e Ricardo Lewandowski (O Outro Pé da Sereia).

O interesse pela história, do Brasil e do mundo, é uma constante. A chegada de Dom João VI ao Brasil teve leitores em diferentes narrativas. Horácio Pires e Barros Levenhagen, do TST, e Olympio Pereira, do STM, ficaram com 1808 de Laurentino Gomes; o almirante Marcos Leal, do STM, preferiu a versão do australiano Patrick Wilcken em O Império à Deriva; e Celso de Mello prestigiou o clássico de Oliveira Lima, Dom João VI no Brasil.

Depois de Dom João VI, também foram prestigiados os imperadores que o sucederam no trono do Brasil. O ministro Nilson Naves, do STJ, leu e gostou de Dom Pedro I — Um Herói sem Nenhum Caráter, de Isabel Lustosa. Juntamente com Cármen Lúcia (STF), João Otávio Noronha (STJ), Flávio Bierrenbach (STM), Ives Gandra Filho (TST), Nilson Naves leu também o elogiadíssimo Dom Pedro II — Ser ou Não Ser, de José Murilo de Carvalho. Sobre Pedro II, ainda, Aloysio da Veiga (TST) leu As Barbas do Imperador, de Lilia Moritz Schwarcz. Horácio Pires (TST) foi além ao se interessar por O Príncipe Maldito, de Mary del Priore, a história de Pedro Augusto de Saxe e Coburgo, que teria sido Pedro III se não tivesse sido proclamada a República.

Na biblioteca de todos os ministros há muito espaço para clássicos. A ministra Cristina Peduzzi (TST) se dedicou a reler A Verdade e o Método, do filósofo alemão Hans-Georg Gadamer. Asfor Rocha (STJ) enfrentou Winston Churchill em Memórias da Segunda Guerra Mundial. Marco Aurélio (STF) foi de O Homem Sem Qualidades, de Roberto Musil, e Cármen Lúcia releu uma edição especial de A Divina Comédia, de Dante Alighieri. Fernando Gonçalves (STJ) mergulhou no O Vermelho e o Negro de Sthendal, enquanto Hamilton Carvalhido (STJ) leu pela décima vez Protágoras de Platão.

Há escolhas óbvias. O brigadeiro William Barros, do Superior Tribunal Militar, preferiu A Marcha da Insensatez, uma reflexão sobre a guerra, desde Tróia até o Vietnã, de Bárbara Truchman. Luiz Fux (STJ) fez uma reflexão em cima de Eles, os Juizes, Vistos por Um Advogado, do italiano Piero Calamandrei. É fácil entender porque José Delgado (STJ) se interessou por Electro Sânitas. O autor é o novo presidente do tribunal, Humberto Gomes de Barros. Mas é difícil perceber as razões que levaram Emmanoel Pereira (TST) a se interessar por Lula é Minha Anta, de Diogo Mainardi. Ou não.

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Maurício Cardoso

é diretor de redação da revista Consultor Jurídico.

Hipointelectual da Silva disse:
12 de abril de 2008 às 09:16

De todos esses livros só não li dois: "O Príncipe Maldito" e "O Mundo é Plano". Mas a lista está incompleta. Cadê "A Última Defesa" do Tolentino? Eu o achei melhor do que muitos desses que foram citados.

Felipe Lira de Souza Pessoa disse:
12 de abril de 2008 às 11:14

Graciliano Ramos, José de Alencar, Mário de Andrade, Suassuna, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drumonnd de Andrade, Clarece Lispector, José Américo de Almeida, Maria Adelaide Amaral, Jorge Amado, onde estão os brasileiros? onde está o Brasil e a qualidade lietrária, e a riqueza de significados e sentidos, e a criatividade e o talento e a humanidade? Daí se vê a razão de alguns "decisórios"...

Embira disse:
12 de abril de 2008 às 12:05

Pois é, professor Felipe. Há pouco tempo li uma matéria aqui no Consultor sobre traduções. Fiquei sabendo que 80% dos livros editados no Brasil são traduções. O autor nacional não é nada prestigiado pelas editoras que, na verdade, são bem poucas. Não li, ainda, O caçador de pipas. Na verdade, acabo de adquirir a obra através do site Submarino, ao preço de R$ 19,80, juntamente com O livreiro de Cabul, ao preço de R$ 23,20. Esses best-sellers já estão em liquidação, como soe acontecer. Imagino que seus autores surfaram na onda dos grandes conflitos políticos do mundo atual: a guerra fria (que não acabou) e a árabe-israelense. Se um autor quiser fazer sucesso nos EUA e receber o apoio do presidente Bush, que recebeu Khaled Hosseini no palácio governamental, além de ter talento, é bom que fale bem dos judeus, ou fale mal dos árabes, da Rússia ou da China. Se falar bem do Dalai Lama, outro protegido de Bush, também terá boa chance de sucesso. Vejam bem: não tenho nada contra os israelenses, nem contra os budistas, nem a favor ou contra quem quer que seja. Apenas tenho uma interpretação dos fatos, que poderá ser ou não correta.

Arqueiro disse:
12 de abril de 2008 às 19:43

Já li todos os livros narrados. Mas sem dúvida alguma, o melhor é "Lula é Minha Anta, de Diogo Mainardi."

Edy disse:
13 de abril de 2008 às 06:08

Quanta bobagem!...Um livro prático para a vida moderna

Livros de conselhos são muito comuns no mundo de hoje. Mas eles tendem a ficar ultrapassados, logo sendo revisados ou substituídos. Que dizer da Bíblia? Ela foi concluída uns 2.000 anos atrás. Mas a sua mensagem original nunca foi aprimorada nem atualizada. Poderia esse livro ter orientações práticas para os nossos dias?

ALGUNS dizem que não. “Ninguém defenderia o uso de um livro de Química de 1924 num curso moderno de Química”, escreveu o Dr. Eli S. Chesen, explicando por que ele considera a Bíblia antiquada.1 Aparentemente, esse argumento faz sentido. Afinal, o homem aprendeu muito sobre saúde mental e comportamento humano, desde que a Bíblia foi escrita. Assim, como poderia um livro tão antigo ser importante na vida moderna?

Princípios eternos

Embora os tempos tenham mudado, as necessidades humanas básicas ainda são as mesmas. As pessoas, através da História, têm necessitado de amor e de afeto. Têm desejado ser felizes e ter uma vida significativa. Têm precisado de conselhos sobre como lidar com as pressões econômicas, como ter um casamento feliz e como instilar boa moral e valores éticos nos filhos. Os conselhos da Bíblia suprem essas necessidades básicas. — Eclesiastes 3:12, 13; Romanos 12:10; Colossenses 3:18-21; 1 Timóteo 6:6-10.

Os conselhos da Bíblia refletem um conhecimento profundo da natureza humana. Veja alguns exemplos de seus princípios específicos e eternos, práticos para a vida moderna.
e-mail:egnngutierrez@hotmail.com

João Bosco Ferrara disse:
13 de abril de 2008 às 15:43

Caro Embira, antes de mais nada, não me leve a mal. Podemos divergir em nossas opiniões, o que é saudável, mas isso não desmerece nem a mim nem ao senhor. Afirmo, publicamente, que admiro seu conhecimento, sua cultura, seu modo de se expressar. Todavia, ninguém está imune de erros, nem eu nem o senhor. Exatamente porque o considero um dos poucos que melhor se exprimem neste fórum, peço-lhe vênia para sugerir que adquira também o livro "Conjugação de Verbos em Português", de Maria Aparecida Ryan. É que os verbos de nossa língua algumas vezes nos pregam peças que nos expõem ao ridículo. Isso não chega a ser o seu caso, mas o verbo "SOER" conjuga-se, na terceira do singular do presente do indicativo, "SÓI", e não "SOE", como o senhor grafou no seu comentário. É verbo defectivo. Não possui a primeira do singular do presente do indicativo, e por isso carece também do presente do subjuntivo. Se eu o conhecesse pessoalmente, ou soubesse seu e-mail, teria emitido esse conselho particularmente, mas como isso não é possível, o faço aqui, neste fórum. Outra coisa, ninguém é possuidor de uma interpretação. Interpretação não coisa que se tenha ou não. É coisa que se faz. O que se tem é opinião baseada em alguma interpretação. São esmeros da língua, que alguns podem classificar de preciosismo, mas eu entendo que favorecem o processo de comunicação. Reitero, não me leve a mal. Esse comentário é mais um conselho do que uma crítica, pois o debate, marcado por um linguajar adequado, facilita a comunicação das idéias e a evolução do conhecimento. Saudações de um purista que também comete muitos erros, reconheço. Porém, aceito a crítica relativa a eles de bom grado, pois sou o maior beneficiário delas.

Embira disse:
14 de abril de 2008 às 12:20

Prezado Dr. João Bosco. Dessa vez, fui pego de surpresa. Sei que a forma correta é pegado, mas, eu digo pego, com e fechado e não aberto, como fazem os cariocas. Jô Soares diz: fui “pégo” de surpresa. Tivemos uma reforma ortográfica em 1943, outra em 1971 e estamos no limiar de uma nova. O trema irá, em breve, para a cucuia, ou para o beleléu. Essa expressão “como soe acontecer”, grafada nessa forma, é muito encontradiça na imprensa: o escritor e jornalista Alfredo Sirkis a emprega assim; o mesmo o fazem os jornalistas Alberto Dines, com 50 anos de carreira e o não menos experiente Paulo Castelo Branco. Dines escreveu, hoje, no Último Segundo: “Devidamente batizados com aumentativos como soe acontecer num País de dimensões continentais...” Acredito, até, que antigamente se escrevia assim, ou se escreve até hoje, talvez, em Portugal. Vou averiguar melhor. Um abraço e obrigado pela correção.

Carlos Gama disse:
14 de abril de 2008 às 21:20

Uma excelente fonte de informações e de aprendizado sobre comportamento humano está impressa em "Morcegos Negros", de Lucas Figueiredo.

Thiago Pellegrini disse:
15 de abril de 2008 às 00:43

Aliás, a língua portuguesa é difícil. Acredito ser o idioma mais difícil de se falar e, principalmente, escrever.

No que tange aos livros, acredito que todos os citados são bons. Alguns eu já li, outros ainda não e outros ainda desconheço. Mas livro é livro: mesmo que ele não seja bom lhe servirá de algo.

Agora, Machado de Assis é insuperável.

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