Streck: ‘A estupidez é um inimigo mais perigoso do bem do que o mal’

Recebo diariamente mensagens sobre bizarrices da área do Direito. Tem de tudo. As bizarrices aumentam… e cansam. A (pen)última foi a de um professor de cursinho vendendo Manual Ilustrado de Direito Penal, com um cachorro de óculos escuros na capa da publicidade. Confesso, é engraçado. Ele anuncia que o livro é viciante como a Netflix (sic), usa a psicologia das cores (sic) e, atenção: diz que usa neurociência cognitiva aplicada aos concursos[1] (sic). Bingo!

Spacca

Pior que isso só gente do direito dançando TikTok. Nem vou mostrar aqui. Se mostrar, o mostrado — como foi o caso do professor do avatar — vem aqui dizer que eu não entendi a profundidade da proposta dele de jus-avatarismo. Pois é. Deve ser isso. Não entendi. O futuro do ensino é o cachorro de óculos, a neurociência cognitiva aplicada a concursos e o avatarismo. Com uma dose de TikTok, é claro. Eu é que não consigo perceber.  

Sigo. Platão foi o primeiro a se irritar com coisas simplificadas e com alienações. Voltaire também se irritava com linóstolos.

Olhando as redes sociais e tomando conhecimento das letras do sertanejo universitário — a maioria traz um incentivo a que o corno ou a corna se embriaguem (tem até uma música fazendo uma ode à Ambev)[2] — confesso que talvez os néscios tenham conseguido estabelecer um novo "paradigma". Só pode ser isso. E talvez por isso tenham vencido. Pela insistência e por serem maioria. Será que já fracassamos? A pergunta é retórica.

Muitos sertanejos fazem discurso ultraliberal. São empreendedores. Falam mal do Estado. Agora entendi. Odeiam o Estado…e amam os municípios…!! Mormente os pequenos e pobres. Empreendedorismo chupim. Gostei da coincidência da cidade em que haveria show e o STJ suspendeu: Teolândia. Terra de Deus. Município falido, sem saneamento, sem quase-tudo e gastaria R$ 2 milhões com Gusttavo Lima. STJ salva Teolândia.

Mientras, surge no horizonte uma nova espécie: o anarco-néscio. É um néscio sem qualquer critério. Há limites até para o ridículo, embora o ridículo não saiba disso. Meu conselho: leiam o belo livro de Mauro Mendes Dias, O Discurso da Estupidez, em que ele faz uma espécie de epistemologia disso tudo.

Se há trouxas no atacado, há espertalhões no varejo. Eis uma nova forma de empreendedorismo: o aproveitadorismo. Eis a fórmula: crie atalhos. Os sertanejos pegaram bem a coisa. Está nas próprias letras de suas músicas.

No direito e afins, a fórmula é: já que não consegue escrever nada profundo, invente. Faça vídeos. Se faça de inteligente. E não cite fontes. Faça cabotinagens. Copie dos outros. Faça colagem. E copie errado, porque nem sabe o que está cabotinando. Diga que você faz neurociência no direito. Ninguém vai saber mesmo o que é isso.

Grave vídeos ensinando errado. E vídeos em série. Receberá muitos laiques. E até monetização.

E diga que você defende a liberdade. Diga que negar o holocausto é liberdade de expressão. Ou diga que a liberdade vale mais do que a vida. Ou proponha o uso de prova ilícita de boa-fé e depois faça palestras sobre ética.

Ah, a força das palavras. Orwell, Orwell. Guerra é paz. Fome é fartura. Ódio é amor.

Quando comentar a morte de Genivaldo, faça cara de indignado e pergunte: e dos policiais mortos, você não vai falar? Pronto. Venceu. Conseguiu esconder até mesmo o caráter nazista da morte por asfixia sob os olhares de gozo dos policiais. Isso é uma variante do aproveitadorismo. É o aproveitadorismo argumentativo.

Como bem dizia Dietrich Bonhoeffer, teólogo, pastor e membro da resistência antinazista, "A estupidez é um inimigo mais perigoso do bem do que o mal." E segue: Diferente da estupidez, o mal tem as sementes da sua própria destruição.

O aproveitadorismo epistêmico é uma institucionalização do atalho. E se alimenta de vieses cognitivos.

O busílis é: como argumentar contra a estupidez, se a estupidez não aceita argumentos? Argumentar significa já entrar no jogo de linguagem do néscio. Ou do anarco-néscio. E já entrar derrotado. Jogo de soma zero.

É como jogar xadrez com pombo.

Post scriptum: Para quem está interessado em antídotos, ofereço — "A Conspiração dos néscios e as cinco leis da estupidez" e  "Como mostrar a um tolo a diferença entre o certo e o errado".


[1] Obs.: neurociência cognitiva? Qual seria a expertise do bacharel em direito-escritor do manual? O que seria "aplicada aos concursos"? Com certeza, há aí um paradoxo: tudo isso deve ser um neuromito, isto é, uma informação errada sobre a própria neurociência.

[2] Alô, Ambev?
Dobra a produção aí, que a gente bebe
Eu mandei saudade, ela mandou vida que segue
Então segue sua vidona
Eu sigo sofrendo e bebendo Brahma

John Paul Stevens disse:
07 de junho de 2022 às 10:37

"Odeiam o Estado...e amam os municípios...!!"

Genial!!

Maicon C. disse:
07 de junho de 2022 às 10:42

O colunista conseguiu resumir muitos problemas atuais da sociedade e do Direito. Ótimo texto.

Vinícius Quarelli disse:
07 de junho de 2022 às 11:18

Como apontado pelo Professor, acompanhar atualidades jurídicas parece cansar o interessado. Absurdos se somam e se multiplicam: isto é o que parece. Talvez (para não dizer com certeza), o Direito precise aprender a melhor lidar com uma nova-velha categoria de predadores: os néscios.

Professor Edson disse:
07 de junho de 2022 às 11:20

O magnífico Lenio Streck hoje está um pouco bipolar, começa criticando a nova forma de 'ensinar", palestrar ou fantasiar o direito mas também entra na área política criticando os sertanejos, que obviamente são bolsonaristas, realmente eu concordo que precisa ter estômago para ouvir esse tipo de "música", assim como é difícil conseguir ouvir Pablo Vitar ou Anitta, agora seria boa uma discussão mais aprofundada sobre a lei Rouanet e os shows contratados por prefeituras.

Andréa S. S. Rocha disse:
07 de junho de 2022 às 14:50

Correta sua dissertação meu caro. De fato compartilho com seu pensamento de que estamos em um mundo cada vez mais estúpido, e o que nos salva são as obras clássicas de Bach e Chopin... creio que nem mesmo as notícias amedrontadoras mundo afora assustam mais que a estupidez causada pela 'modernidade". Se existe uma luz no fim do túnel ela é fluorescente e vem com seres que nos guiarão melhor que o sertanejo universitário ou o funk ostentação(com todo respeito, claro). Que ao menos aprendamos e ensinemos a votar!

MACACO & PAPAGAIO disse:
07 de junho de 2022 às 16:53

Só um beócio aporófobo pode imaginar que a vida pode ser melhor e "salva" por causa das "obras clássicas de Bach e Chopin".

As notas do "sertanejo universitário ou o funk ostentação" possuem notas e sonoridades suficientes capazes de que provocar também emoções em seres humanos com preferências específicas e diversas.

É estranho como se fazem essas análises idiopatas e rasas que em nada dizem respeito ao caráter ou gosto pessoal de cada um.
E mais: o cúmulo do imbecilismo está na ideia de que se aprendermos e ensinarmos a votar, o mundo será melhor!

Talvez com um gatilho de realidade e maturidade, pudéssemos ter pessoas mais úteis.

Que tal fundar um próprio país, o das carochinhas, com pseudoeruditismos, e se enfurnarem lá?

Vai estudar e se aperfeiçoar, primeiro, como gente ao invés de se fundar em bobocas e baboseiras.

Thales B. Delapieve disse:
07 de junho de 2022 às 17:57

Vivemos tempos complicados. O professor Lenio consegue em seu texto sintetizar de forma brilhante os absurdos que estamos presenciando.

marcelo mesquita disse:
08 de junho de 2022 às 00:32

Há muitos anos acompanho a coluna. Diversas vezes discordei, e em algumas delas, escrevi.
Ocorre que o vírus da odiosa atual polarização chegou por aqui. Tempos menos piores aqueles, onde as divergências eram restritas a teses ou decisões. Mas tudo bem, vai piorar. Somos muito bom nisso.

Rejane G. Amarante disse:
08 de junho de 2022 às 11:24

O senhor incorre nos mesmos erros que aponta nos "néscios", donde se pode concluir que o senhor também seja um "néscio", com muito maior gravidade, afinal, um "néscio" qualificado (mestre, doutor e pós-doutor). Ora, o "néscio", no perfil que o senhor traçou, opina, debate e propaga informações sobre determinados assuntos que ele não conhece ou conhece pouco. Em suma, o "néscio" deveria ampliar seus horizontes antes de fazer afirmações incisivas e espalhar ao quatro ventos. Só que o senhor também faz isso, o senhor precisaria ampliar muito os seus horizontes informacionais antes de afirmar ou negar determinadas informações/opiniões. Um dos exemplos que o senhor citou no artigo, sobre o caso dos policiais de Sergipe, que colocaram um homem dentro do porta-mala com spray de pimenta e gás lacrimogênio, indisfarçadamente era uma grave crítica à instituição Polícia Rodoviária Federal. É certeza que muitos policiais daquela instituição não se comportam daquela maneira, ao invés, são conscientes de seus deveres. No entanto o senhor nunca faz esse tipo de ressalva. E tem mais, quem realmente vai atrás de todo tipo de informação consegue ao menos estabelecer uma hipótese (a ser confirmada por outros fatos) de relação entre aquele ato dos policiais e a visita de uma tal Victoria Nuland. Isso porque a violência policial daquele tipo sempre é praticada em locais ocultos, mas aquela foi em plena luz do dia, em via pública com muitas testemunhas e vários vídeos. Revoluções coloridas em ano de eleições disputadíssimas. Sinceramente, Dr. Lenio, considero o senhor tão superficial (ou mais) do que todos os "néscios" juntos, o seu pecado é mortal -"muito será pedido a quem muito foi dado" Lucas12:48.

samatrom disse:
08 de junho de 2022 às 20:35

"If you and a fool have an argument, he wins"
- African proverbs -

Rejane G. Amarante disse:
09 de junho de 2022 às 06:40

Precisamente o que comprova (ou não) a estupidez ou a sabedoria são os fatos.

João B. disse:
09 de junho de 2022 às 14:42

"como argumentar contra a estupidez, se a estupidez não aceita argumentos? Argumentar significa já entrar no jogo de linguagem do néscio. Ou do anarco-néscio. E já entrar derrotado. Jogo de soma zero."

O ESCUDEIRO JURÍDICO disse:
13 de junho de 2022 às 20:33

Características dos estúpidos:

1 - Culpam os outros pelos seus próprios erros;

2 - Acham sempre que estão certos;

3 - Reagem a conflitos agressivamente e incitam, mais ou menos diretamente, a violência;

4 - Ignoram as necessidades e os sentimentos dos outros;

5 - Pensam que são melhores que toda a gente;

6 - Complicam o que é simples;

7 - Concluem demasiado com muito pouca informação, são preconceituosos.

O estúpido elimina a sua estupidez, quando:

- É responsável

- Explora outras opiniões

- Assume maior autocontrole emocional

-Admite a sensibilidade

- É humilde.

Fonte; (https://www.pbs.up.pt/pt/artigos-e-eventos/artigos/os-7-habitos-de-pessoas-altamente-estupidas/).

Você precisa estar logado para enviar um comentário.