Opinião

Eu fui ao Gilmarpalloza

Todo mundo conhece a história do pombo enxadrista. Diante de um lance humano — digamos que uma subida de torre ou o salto de um cavalo —, o pombo responde derrubando as peças do tabuleiro que desconhece. Jogando a cabeça para frente e para trás e bicando plástico como se fosse milho, o pombo ainda sai de peito estufado e arrulha vitória. Tudo bem. O que esperar mesmo de um pombo enxadrista?

Reprodução

Já faz algum tempo que o colunista Conrado Hübner Mendes, da Folha de S.Paulo, tem vagueado com seu inconfundível head-bobbing por sobre o tabuleiro do judiciário brasileiro. É verdade que esta nossa “Babel judiciária”, para falar com Luiz Gama, se assemelha à definição do campeão mundial de xadrez, Mikhail Tal, para o qual o jogo milenar é uma floresta escura em que 2 + 2 somam 5 e de onde apenas um dos contendores escapa com vida.

No tão ilógico quão obscuro cipoal judicial do Brasil, 2 + 2 também dá em número ímpar e quem sai dele vivo costuma ser os Hübner — branco, rico, privilegiado há gerações — de sempre. Mas deixemos de sociologia para lá. Falemos de direito — e de produção de conhecimento jurídico.

Na semana passada, ocorreu o XII Fórum Jurídico de Lisboa, promovido por instituições como o IDP, a FGV e a Universidade de Lisboa. O Fórum deu o que falar e a Folha de S.Paulo deitou-lhe o malho, inclusive o apelidando muito jocosamente de Gilmarpalloza.

Eu fui ao fórum — ou, se quiserem, ao Gilmarpalloza —, e recomendo. Não é em todo lugar (e certamente não é nas Arcadas) que se encontra tamanha pluralidade de ideias em debate: em uma mesa, Aloizio Mercadante (BNDES) e José Berenguer (XP); em outra, o criminólogo negro Felipe Freitas e o legislador criminal branco Ciro Nogueira, cuja oposição ideológica faria Mercadante e Berenguer parecerem irmãos.

Lisboa sediou não só um evento político e jurídico de primeira importância, como também um evento histórico. No futuro, historiadores, enxadristas que são, se ocuparão deste Fórum, e não de coisa de pombo. Ou, em outros termos, se ocuparão dos jantares, e não de migalhas.

Porque é de jantares, Conrado, que se faz o direito. Recentemente, Conrado, o partido neonazista Alternative für Deutschland entrou no tribunal constitucional alemão exigindo a declaração de suspeição de vários juízes porque eles frequentaram alguns jantares com a então primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, semanas antes de decidirem uma matéria relativa aos interesses do governo alemão.

O tribunal não só entendeu que jantares entre políticos e juízes é parte constitutiva da tradição jurídica como até mesmo é bem-vindo encontros desta natureza (Bundesverfassungsgericht, 2 BvE 4/20, 2 BvE 5/20).

No fundo, Conrado e a AfD são muito parecidos: detestam o que não sabem jogar, o xadrez, esta metáfora para o direito.

Gostemos ou não de Gilmar, mas reconheçamos — pombas! — que ele joga o direito feito um Kasparov. Gostemos ou não de Kakay, mas vejamos antes o quanto de Capablanca há nele, ou o quanto de Botvinnik está em Dino. Todos preparadíssimos para dizer o que é o direito. Já Conrado, amigo leitor, este ainda está cru. Cruu… cruuu…

Bruno Rodrigues de Lima

é doutor em História do Direito pela Universidade de Frankfurt (ALE), pós-doutorando no Max-Planck-Institut e autor do livro "Luiz Gama Contra o Império (2024).

Rejane disse:
03 de julho de 2024 às 10:06

Dr. Bruno Rodrigues de Lima, é realmente encantadora a sua erudição e também a sua cultura enxadrística. No entanto, o Direito existe e sempre existiu para resolver as misérias humanas de todo tipo e aplicar a erudição jurídica e mesmo adentrar a erudição enxadrística para resolver as misérias humanas chega a ser uma atividade de sofistas, que, em última análise, refletem mais um tipo de miséria humana, a corrupção do conhecimento em favorecimento próprio e de seu grupo. Foi o que os magistrados do tribunal constitucional alemão fizeram, a meu ver, ao julgarem que não tinha importância nenhuma juízes jantarem com a primeira-ministra pouco antes de julgarem processos de interesse do governo. Eles cuidaram dos interesses pessoais e de seu grupo. Mais uma derrota na Justiça. Outro dia estava revendo um dos filmes do Roccky, um lutador, e a mensagem transmitida aplica-se muito bem ao Direito e principalmente à aplicação da Justiça : a primeira vitória de uma pessoa é contra si mesma (contra seus defeitos), só quem vence as próprias fraquezas pode ser um vencedor no mundo.

Matheus Henrique disse:
03 de julho de 2024 às 14:11

Primeiro, recomendo a apreender escrever, que texto confuso, cheio de neologismo com um pretenso ar professoral. Fala de elitismo, vindo direto de Lisboa. Precisam ir até lá para falar tolices sobre Direito. Espero que tenha curtido os banquetes e o gilmarpalloza! Ah, quase esqueci de dizer: nunca ouvi falar de ti, mas o Conrado é um jurista consagrado, está com muita inveja, amiga!

Bade disse:
04 de julho de 2024 às 05:15

Como se a elite do Brasil não fosse o judiciário

kersting roque disse:
04 de julho de 2024 às 08:28

Uma mínima frase apenas.
Gilmarpalloza, uma imoralidade utilizando recursos públicos e privados de pessoas com processos no STF.

Gustavo Quandt disse:
04 de julho de 2024 às 09:56

Li de ponta a ponta e não sei o que de tão importante foi discutido na Gilmarpalooza. Só sei que foi um bafo. Imagino que tenham jogado um bocado de xadrez.

BR1 disse:
04 de julho de 2024 às 10:35

Como a Conjur pode acolher um artigo chulo como este?

Irio disse:
04 de julho de 2024 às 11:33

Perfeito seu comentário (Rejane G. Amarante).

Cidrac Pereira de Moraes disse:
04 de julho de 2024 às 12:30

Ontem o colonizador trazia espelhinhos e outras bugigangas para engabelar os puris e botocudos. Hoje os serviçais do colonizador atravessam o oceano e vão além mar para se ausentar do serviço em Pindorama e continuar de costas para o povo. Para tentar envernizar a caricatura escalam Bruno Rodrigues para umas maus traçadas linhas.

marcia helena disse:
04 de julho de 2024 às 13:48

Sem muito bla bla bla, O Ministro Gilmar Mendes é e sempre será, fiel ao Capitalismo. Enriqueceu com ele e vai continuar assim. Um Brilhante Jurista, mas como cidadão brasileiro, que lhe engordou a burra, um patife, um canalha! Que desperdício.

Miguel disse:
05 de julho de 2024 às 08:01

O desfecho do texto ficaria perfeito se concluísse com: "Já Conrado, amigo leitor, É UM CAPIVARA".

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