Opinião

A insegurança jurídica como custo oculto das decisões empresariais

O início do ano costuma ser marcado pelo planejamento estratégico das empresas. É o momento de definir investimentos, revisar contratos, estimar riscos e estabelecer premissas econômicas para os meses seguintes. Nesse exercício, porém, um fator relevante costuma ser tratado de forma secundária: a insegurança jurídica como variável concreta de decisão.

No discurso institucional, a segurança jurídica aparece como condição essencial para crescimento e previsibilidade. Na prática empresarial, entretanto, decisões judiciais instáveis, mudanças recorrentes de entendimento e a dificuldade de antecipar riscos continuam a afetar escolhas estratégicas relevantes, muitas vezes antes mesmo de qualquer ação judicial ser proposta.

O impacto dessa instabilidade não se limita ao resultado de processos. Ele se manifesta no momento em que empresas precisam decidir se investem, contratam, renegociam, provisionam ou litigam. Sem previsibilidade mínima, a decisão deixa de ser técnica e passa a ser defensiva, orientada mais pelo receio do que por critérios objetivos.

Mudanças de estratégias em empresas

Um exemplo recorrente ajuda a ilustrar o problema. Empresas que, por anos, estruturaram provisões e estratégias processuais com base em determinado critério aplicado de forma predominante pelos Tribunais de Justiça Estaduais se veem, de uma hora para outra, diante de uma inflexão relevante de entendimento nos tribunais superiores (Tema 1.368 STJ). Ainda que o debate jurídico seja legítimo, o efeito prático é imediato: provisões precisam ser revistas, expectativas de recebimento são recalculadas e estratégias de negociação são reavaliadas em processos em curso.

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Esse tipo de mudança não afeta apenas números: afeta decisões. Um passivo que parecia controlado pode alterar a disposição para acordos. Um crédito que parecia sólido pode exigir nova leitura de risco. A consequência é uma reprogramação estratégica que raramente é simples ou neutra do ponto de vista econômico.

O problema se agrava quando se observa como muitos contratos ainda são tratados no ambiente empresarial. A aceitação acrítica de minutas padrão, a fragilidade na definição de cláusulas financeiras, multas, prazos e responsabilidades e a ausência de mecanismos claros de saída criam um terreno fértil para litígios futuros. O contrato, que deveria funcionar como instrumento de gestão de risco, acaba reduzido a uma formalidade jurídica — e o conflito surge como consequência previsível dessa fragilidade.

Custo invisível para as empresas

O custo dessa dinâmica dificilmente aparece de forma explícita nos balanços, mas ele se revela em provisões excessivas, acordos firmados por receio e não por estratégia, projetos adiados e decisões postergadas indefinidamente. Trata-se de um custo invisível, mas recorrente, que compromete a eficiência econômica e a capacidade de planejamento das empresas.

Nesse contexto, a insegurança jurídica deixa de ser um tema abstrato e passa a ocupar lugar central no planejamento estratégico. Não se trata de exigir estabilidade absoluta ou de eliminar o risco — isso seria irreal. Trata-se de reconhecer que decidir em um ambiente de incerteza exige integração entre jurídico, financeiro e gestão, além de revisão constante de premissas.

A previsibilidade perfeita talvez seja inalcançável, mas ignorar o impacto prático da instabilidade decisória, especialmente no momento em que decisões estratégicas estão sendo traçadas, é uma escolha — e, hoje, uma das mais caras que as empresas podem fazer.

Ligia Ribeiro

é advogada, sócia do escritório Rayes e Fagundes Advogados, com atuação em contencioso estratégico e reestruturação.

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