Opinião

Benedicto Galvão: apadrinhamento, capital social e ascensão negra na 1ª República

A figura de Benedicto Galvão hoje é lembrada por meio do prêmio ofertado pela Ordem dos Advogados do Brasil, seccional de São Paulo (OAB-SP), que utiliza sua memória, imagem e nome para homenagear pessoas, instituições e projetos voltados à promoção da igualdade racial e ao enfrentamento das múltiplas formas de racismo.

Benedicto Galvão/Reprodução

Todavia, por muito tempo o primeiro negro a presidir a OAB-SP permaneceu desconhecido e pouco enaltecido por seus feitos em ascensão social, destaque acadêmico e atuação em banca de prestígio na capital paulista. Esse esquecimento torna-se ainda mais significativo quando se considera que sua trajetória ocorreu na Primeira República, período marcado pela rigidez social, pela exclusão dos negros dos espaços de poder e pelos efeitos de uma abolição conduzida sem políticas reparatórias.

As barreiras estruturais para a ascensão de pessoas negras deixam explícito que, para acessar ambientes escolares na capital, as Arcadas do Largo do São Francisco (USP), a banca do escritório dos irmãos Pujol e posteriormente a presidência da OAB-SP o legado e a trajetória de Benedicto Galvão dependeram de seu brilhantismo acadêmico e das redes de apadrinhamento.

Esse percurso, iniciado em Itu (SP), nas rudimentares e pioneiras escolas republicanas do final do século 19, continuado na Escola Normal de São Paulo, onde também atuou como professor, conduziu o filho de uma lavadeira negra a espaços até então não imaginados ou sequer concebidos para pessoas negras. Isso se torna ainda mais relevante diante do cenário de racismo científico e eugenia que permeou grande parte das comunidades científicas nacionais no início do século 20.

Nesse contexto, destaca-se o apadrinhamento realizado pelo secretário da Educação e advogado republicano Alfredo Pujol, que soube acolher os apelos feitos pelo jovem Galvão durante uma palestra realizada na escola em Itu, da qual era orador de turma e aluno aprovado com louvor. Pujol compreendeu que o estudante necessitava de assistência para continuar sua formação, manifestando no jornal Cidade de Ytú (1895) que estaria sob a sua proteção e de um grupo de republicanos.

Essas informações, reunidas na obra O Infiltrado Benedicto: a Trajetória do Primeiro Presidente Negro da OAB-SP (1881–1943) [1], de Keila da Silva Santos, revelam os mecanismos sociais, políticos e pessoais que viabilizaram sua excepcional ascensão.

Este artigo busca compreender como a trajetória de Benedicto Galvão ilumina os limites e possibilidades da mobilidade negra no pós-abolição, articulando conceitos como racismo estrutural, excepcionalidade e redes de sociabilidade.

Janela de oportunidade

Spacca

Nascido em Itu, em 1881, num contexto histórico em que instituições escravistas e o sistema imperial estavam em desgaste, Galvão veio ao mundo em uma região marcada pela influência de elites cafeeiras que impulsionavam a transição para o regime republicano. No pós-abolição e após a Proclamação da República, Itu recebeu especial atenção da elite política na implementação das chamadas escolas reunidas [2].

Contudo, esse sistema não abrangia toda a formação escolar, que permanecia restrita a alunos com poder aquisitivo, excluindo sistematicamente os filhos negros.

Benedicto soube mobilizar a janela de oportunidade aberta por sua rede de relações sociais. A posição de sua mãe como lavadeira de uma família influente da cidade possibilitou que ele se aproximasse de círculos privilegiados, o que o conduziu ao contato com Alfredo Pujol, então secretário da Educação do Estado de São Paulo. Esse vínculo foi decisivo para viabilizar a continuidade de seus estudos e consolidar sua trajetória acadêmica.

A estratégia de transpor barreiras estruturais foi, nesse caso, o próprio brilhantismo acadêmico, como demonstrado nas pesquisas de Keila Santos. Os republicanos, por meio das escolas, promoviam eventos nos quais os alunos de destaque eram escolhidos como oradores de turma e discursavam para toda a cidade, reforçando o ideário patriótico e o papel civilizador atribuído à educação republicana.

A presença do capital social e o desempenho escolar de Galvão permitiram que ele prosseguisse seus estudos na Escola Normal de São Paulo. O secretário Pujol e outras figuras republicanas, por meio das redes de apadrinhamento e sociabilidade, garantiram o sustento e o financiamento dessa formação.

‘Portas brancas’

O presente caso demonstra a importância do apadrinhamento e das redes de proteção para a ascensão de pessoas negras na Primeira República, período em que a população negra não foi integrada à sociedade capitalista e permaneceu à míngua de capital econômico, cultural e simbólico.

Isso evidencia a necessidade das chamadas “portas brancas” e do empréstimo de capital social para garantir a excepcional presença de figuras como Galvão na Escola Normal (onde concluiu curso complementar que habilitou para ser professor das escolas preliminares), no Largo do São Francisco (graduado em direito no ano de 1907) e na presidência da OAB-SP.

A figura da excepcionalidade em espaços de hegemonia branca, muitas vezes expressa na noção coloquial do “negro único”, revela que Galvão foi um personagem que escapa à regra. Usar sua trajetória como justificativa para a ausência de negros em espaços de decisão e poder é ignorar que, no início do século 20, o Estado brasileiro e setores da elite promoveram ideais de branqueamento, políticas eugenistas, racismo estrutural e um projeto nacional sustentado pelo mito da democracia racial. Tais fenômenos foram posteriormente analisados e denunciados por autores como Florestan Fernandes [3], Abdias Nascimento [4] e Lélia Gonzalez [5].

A trajetória de Benedicto Galvão não pode, portanto, ser compreendida como fruto de mérito individual isolado, mas sim como resultado de um sistema de acesso reduzido e elitizado, no qual poucos negros conseguiam romper barreiras não porque elas diminuíram, mas porque sua própria rigidez produzia figuras excepcionais usadas como símbolos de integração possível. Sua ascensão confirma mais os limites impostos pelo racismo estrutural do que sua superação.

Em conclusão, ao resgatar a memória e enaltecer figuras como Benedicto Galvão, que ocuparam cargos importantes e espaços de decisão, é promover inspiração e afirmar a necessidade de que instituições criem e mantenham mecanismos efetivos de inclusão racial. Esse movimento não deve ocorrer pela lógica do “negro único”, enquanto forma de tokenismo, mas sim como regra: a presença constante e estruturada de pessoas negras em posições de mando e poder.

Termino este pequeno excerto com a passagem de Baco Exu do Blues na música BB King: “Não sou obrigado a ser o que vocês esperam/ Somos muito mais/ Se você não se enquadra ao que esperam/ Você é um Bluesman” [6].

 


Referências

EXU DO BLUES, Baco. BB King. In: BLUESMAN. Intérprete: Baco Exu do Blues. [S.l.]: Selo EAEO Records/Altafonte, 2018. 1 álbum (30 min), faixa 9;

FERNANDES, Florestan. A Integração do Negro na Sociedade de Classes. 6. ed. São Paulo: Contracorrente, 2021;

GONZALEZ, L. Por um feminismo afro-latino-americano. Organização: Flavia Rios e Márcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 2020;

NASCIMENTO, Abdias. O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um racismo mascarado. 3. ed. São Paulo: Perspectiva/IPEAFRO, 2016;

SANTOS, José Veloso dos. Negros e negras vestem a toga da Escola Normal de São Paulo (1890 – 1930). 2021. 159 f. Tese (Doutorado em Filosofia e Ciências) – Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), Marília, 2021;

SANTOS RODRIGUES, Keila da Silva. O infiltrado: Benedicto Galvão: a trajetória do primeiro presidente negro da OAB/SP (1881 – 1943). Curitiba: Appris, 2021.

[1] SANTOS RODRIGUES, Keila da Silva. O infiltrado: Benedicto Galvão: a trajetória do primeiro presidente negro da OAB/SP (1881 – 1943). Curitiba: Appris, 2021.

[2] SANTOS, José Veloso dos. Negros e negras vestem a toga da Escola Normal de São Paulo (1890 – 1930). 2021. 159 f. Tese (Doutorado em Filosofia e Ciências) – Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), Marília, 2021.

[3] FERNANDES, Florestan. A Integração do Negro na Sociedade de Classes. 6. ed. São Paulo: Contracorrente, 2021.

[4] NASCIMENTO, Abdias. O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um racismo mascarado. 3. ed. São Paulo: Perspectiva/IPEAFRO, 2016.

[5] GONZALEZ, L. Por um feminismo afro-latino-americano. Organização: Flavia Rios e Márcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

[6] EXU DO BLUES, Baco. BB King. In: BLUESMAN. Intérprete: Baco Exu do Blues. [S.l.]: Selo EAEO Records/Altafonte, 2018. 1 álbum (30 min), faixa 9.

Michael Leonel

é advogado, membro da comissão de Igualdade Racial da Subseção de Itu da OAB-SP, pós-graduando em Direito do Trabalho e Compliance, Gestão de Risco e Auditoria e graduado em Direito na PUC-PR.  

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